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Crítica: Projeto Gemini

Dado o potencial visual da produção e a experiência de seu diretor, é decepcionante como o longa cai constantemente no marasmo ao investir em longos segmentos onde tenta imergir o espectador em uma trama que jamais empolga.
Projeto Gemini

Tentando sair do papel há mais de 20 anos, Projeto Gemini é um daqueles exemplos não muito incomuns que acabaram num limbo por causa de algum impedimento específico, seja ele técnico ou por dificuldades nas etapas de produção. Baseado numa ideia de Darren Lemke (Sherk Para Sempre, Shazam!), o longa já passou por Tony Scott, Curtis Hanson e Joe Carnahan como possíveis diretores e seu chamariz sempre circulou numa história que envolveria rejuvenescer um ator mais velho – para se ter uma ideia, Harrison Ford, Mel Gibson, Clint Eastwood, Sean Connery, Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone foram anteriormente cotados para viver o papel. Finalmente, o filme veio a terminar nas mãos de Ang Lee (O Tigre e o Dragão, Hulk, O Segredo de Brokeback Mountain, As Aventuras de Pi) e o desafio técnico de colocar seu protagonista interagindo com uma versão 30 anos mais jovem deu a Will Smith a chance explorar duas versões do mesmo personagem.

Henry Brogan (Smith) é um experiente assassino profissional considerado um dos melhores em seu ofício. Após um trabalho onde quase comete um erro, ele começa a considerar a possibilidade de se aposentar. Só que as coisas tomam outro caminho quando seu antigo empregador, a AID (Agência de Inteligência de Defesa), passa a persegui-lo com o objetivo de aparentemente cortas as pontas soltas resultantes da natureza de seu trabalho. Para piorar, ele também se depara com um clone muito mais jovem e ágil, sob o comando Clay Verris (Clive Owen), que o faz partir para buscar repostas acerca de um projeto secreto, contando com a ajuda da agente Danny (Mary Elizabeth Winstead).

A divulgação do filme foi capitaneada pela promessa de uma “nova” tecnologia, baseada em rejuvenescimento por completo de um ator dentro da narrativa e uma reprodução de 120 quadros por segundo (ou ‘fps’, do inglês frames per second) fora dela, chamada de 3D+. A história do cinema sempre esteve ligada à taxa de 24 quadros (que se tornou padrão após valores mais baixos na era do cinema mudo) e isso se tornou reconhecível inconscientemente pelo público. Para isso, basta observar a diferença imediata ao se comparar outras mídias que gravam suas produções em taxas mais altas. O “soap opera effect”, ou efeito novela, é aquele que dá uma maior sensação de movimento real, sem aquele arraste característico do cinema (e da maioria das séries de hoje em dia) – como exemplo em grande escala, foi com 48 fps que Peter Jackson lançou O Hobbit em 2012. Embora esse seja, na verdade, exibido a 60 fps, já que a maioria das salas não está equipada para o valor original, surge como uma novidade ao se juntar ao 3d em uma produção de grande orçamento.

Mas o importante mesmo é notar como esse efeito se encaixa em um longa de ação. A impressão inicial pode ser estranha, mas com o tempo se acostuma com o maior realismo em meio a sequências naturalmente atribuídas ao absurdo. A abordagem aproxima a narrativa também dos jogos eletrônicos (pergunte a qualquer gamer e ele te dirá que o desejável é jogar a partir de 60 fps), o que é claramente notado por Ang Lee e seu diretor de fotografia, o oscarizado Dion Beebe (Memórias de uma Gueixa). Não por acaso, a dupla constantemente aposta em planos subjetivos que colocam o espectador pilotando motos e entrando em corredores estreitos com armas, fazendo o público “participar”, de certa forma, da ação na narrativa.

Aliado a isso, é preciso elogiar o trabalho do cineasta com o 3D. Ao contrário da maioria dos diretores (até alguns consagrados), Lee compõe a maioria de seus planos abertos e mais longos com uma profundidade de campo maior, o que permite que a visão ajuste o próprio foco, escapando do erro comum de forçar a perspectiva em uma técnica que faz o contrário justamente ao simular a existência de objetos no eixo da profundidade (repare nos filmes em 3d onde você tenta direcionar seu olhar para uma região fora de foco, causando um efeito incômodo). O resultado é interessante e as sequências de ação funcionam sem que seja preciso apelar para cortes frenéticos e movimentos de câmera que tendem a desorientar a noção de espaço.

É uma pena que isso possa ser dito para basicamente uma sequência em todo filme, já que Projeto Gemini possui uma narrativa incrivelmente sem energia. Dado o potencial visual da produção e a experiência de seu diretor, é decepcionante como o longa cai constantemente no marasmo ao investir em longos segmentos onde tenta imergir o espectador em uma trama que jamais empolga. Escrito por David Benioff (Game of Thrones), o próprio Darren Lemke e Billy Ray, o roteiro é o grande obstáculo para que a narrativa funcione. A história é simples (teoricamente não é nenhum problema), mas o desenvolvimento é banal e raso. Grande parte pelo fato dos personagens que compõe esse mundo serem igualmente superficiais. Seus conflitos, geralmente fundamentados em diálogos expositivos e sem qualquer inspiração, falham em despertar uma simpatia por suas jornadas. Will Smith tem carisma de sobra, mas a impressão é que atua ligado no piloto automático, e Mary Elizabeth Winstead pouco pode fazer para justificar a existência de Danny, apenas ensaiando um possível par romântico com Brogan – através de uma química, aliás, igualmente insossa.

Outra decepção em termos de potencial desperdiçado é falta de visão do trio de roteiristas em relação às possibilidades do tema. Claro, toda obra só tem obrigação de responder à sua própria proposta, mas os possíveis conflitos existentes ao redor da ideia de clonar uma pessoa são resumidos em uma fraca dinâmica melodramática de relação entre gerações – para piorar, cheia de clichês, com um humor ruim e uma moral da história absolutamente previsível e óbvia. Novamente, não há impedimento em um filme ser “apenas” de ação (como se isso fosse algum tipo de demérito), mas falha tanto no quesito de gênero quanto nas ideias de sua interessante premissa.

O que sobra, basicamente, é o principal atrativo de sua divulgação. A técnica de rejuvenescimento, executada aqui pela WETA Digital, e similar àquela vista recentemente em Capitã Marvel e futuramente em The Irishman (ambas pela Industrial Light & Magic) chama a atenção, mas nem sempre pelas razões certas. Irregular, o efeito varia de acordo com as escolhas estéticas e narrativas. Nos planos mais escuros, ou quando há muito movimento que impeça de focar primordialmente nos closes, o resultado até impressiona e o público se convence de que o Will Smith de Um Maluco no Pedaço está presente e interagindo normalmente com os outros personagens. Em contrapartida, quando a iluminação revela seu rosto por completo, em movimentos e expressões mais elaboradas, o impacto tende a ser negativo, causando estranheza e denunciando uma artificialidade que pode tirar momentaneamente o público da história.

De qualquer forma, é muito provável que o avanço tecnológico, ainda mais dessa técnica em específico, trará possibilidades até então inimagináveis e só realizadas em situações mais pontuais. A Marvel já conseguiu colocar um Samuel L.Jackson mais novo durante praticamente um filme inteiro e alguns comerciais trouxeram da morte celebridades que estavam no auge há 60 anos.

Só esperamos que para isso elas aconteçam em longas melhores do que Projeto Gemini.  



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