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Crítica #2: Tenet

O resultado é uma experiência distante, que se esforça a todo o momento para demostrar o nível de complexidade a que pode chegar
Tenet


O momento mais catártico que tive durante a sessão de Tenet (Idem, 2020) se deu quando minha barriga roncou no exato momento em que a trilha sonora de Ludwig Göransson começou a bombardear pelos autofalantes da sala. Foi uma sincronia circunstancial tão surpreendente que não pude resistir, dando uma série de gargalhadas inaudíveis e de grande autocontentamento.

Pouco tenho a dizer, por outro lado, quanto ao alardeado filme do inglês Christopher Nolan, o qual esteve envolvido em um imbróglio ao longo de todo o ano acerca de seus vários adiamentos e, posteriormente, de seu lançamento nas salas de cinema ao redor do mundo, a despeito da pandemia causada pela COVID-19 e que interrompeu o fluxo da vida normal desde os primeiros meses de 2020.
A grande insistência (alguns chamariam de megalomania) de Nolan em vender Tenet como uma experiência exclusiva do cinema se dá pela repetição de seus excessos habituais na condução de blockbusters, os quais se tornaram parte de sua grife e o tornaram famoso: sequências de ação visualmente portentosas, inusitadas coreografias de lutas físicas, música ressonante e cinematografia asséptica. Cada cineasta pode conseguir conjugar seus vícios estilísticos às necessidades narrativas de cada projeto e, assim, conceber um resultado final em que autoria e novidade caminham de mãos dadas. Não é o que acontece nesta ambiciosíssima empreitada orçada em $250 milhões de dólares.

O grande problema é que, depois que encerrou a trilogia Batman (2005-12), o cineasta britânico não só parece ter se tornado refém de todas essas obsessões, como também parece estar transformando-as em uma forma de maneirismo clássico – e, aqui, Nolan decide potencializá-las por algum motivo inescrutável. São raríssimos os instantes em que a música de Göransson não complementa o que está sendo exibido na tela, ou nos quais a fotografia do dinamarquês-sueco Hoyte van Hoytema nos apresenta algum sopro de cor ou vivacidade. A ironia reside justamente no fato dessa neutralidade estética não coadunar com o escopo, nem com o conteúdo das imagens enquadradas.

Desde o prólogo, em que ouvimos uma orquestra afinar seus instrumentos para um concerto, até os últimos segundos de projeção, Nolan quer provocar o máximo efeito, quer criar a sensação iminente de algo extraordinário, perigoso ou excitante está prestes a acontecer. A escala da sequência inicial, por exemplo, é repleta de grandeza, já que é composta por vários figurantes e segue uma logística rígida para tornar a ação funcional. Minutos depois, o diretor e sua equipe literalmente colidem um avião e um hangar vital para o enredo. Perto do clímax, a câmera se aproxima, com ritmo deliberado, de um navio gigantesco. Ou seja, não há apenas um elemento majestoso e singular em Tenet, porque todos são concebidos de modo a sê-lo.

Porém, a principal defasagem desta obra reside em seu vácuo emocional. Como em toda a sua carreira, Nolan traz uma premissa ambiciosa, de maquinações intrincadas, mas que, pouco a pouco, parecem completamente banais devido ao excesso de diálogos expositivos, que representaram o pior traço de Interestelar (2014). No entanto, seguindo a tendência de alargamento de seus excessos, Nolan não só insere um punhado de explanações no texto verbal, mas também usa os diálogos para servir diretamente à trama. Especialmente em sua metade inicial, quase nenhum personagem deste longa-metragem fala sobre si, do que gosta, desgosta ou revela sua conduta moral perante o mundo. As representações humanas dramatizadas pelo roteiro, também escrito pelo diretor, servem apenas para propósitos imediatos, constituindo relações frágeis, inconvincentes ou subdesenvolvidas, tais quais a “amizade” entre os personagens de John David Washington e Robert Pattinson. Perto de Tenet, A Origem (2010) e Dunkirk (2017) se assemelham a Laços de Ternura (1983).

A falta de substância do drama humano e o uso ostensivo de alguns recursos audiovisuais acabam confluindo para a formação de um filme sem quaisquer respiros, um conto de ação e ficção científica, absolutamente plot-driven (o que, por si só, está longe de ser um defeito) e com passagens exíguas em que se possa digerir o que já foi apresentado e se preparar para os acontecimentos posteriores. Pula-se de uma set-piece mais nababesca que a outra, brilhantemente executada e de grande impacto sensorial, é verdade. Todavia, não há carpintaria de roteiro que se equipare à solidez do valor de produção. É uma ação competentíssima, mas distante. Se tudo é tensão, logo, esta inexiste, porque já foi devidamente naturalizada e integrada ao DNA do projeto.

O elenco, ao menos, se esforça para conferir alguma temperatura mais elevada ao material. John David Washington ancora a narrativa com a dose certa de carisma, dubiedade e asserção, tendo boa química com Robert Pattinson, embora o relacionamento entre seus personagens seja, no mínimo, decepcionante. Elizabeth Debicki e Kenneth Branagh orbitam o que seria o central humano da história, mas, por estarem atados ao arranjo dramático questionável do script, entregam performances minimalistas e que, exatamente por isto, se enquadram à proposta do realizador. Himesh Patel, Aaron Taylor-Johnson, Martin Donovan e o ilustre Michael Caine estão no filme, porém, não têm material suficiente com que trabalhar.

Sendo assim, Tenet só acerta mesmo na ação reiteradamente benfeita e ao conferir protagonismo (e, de certa forma, empoderamento) a um homem negro. Tecnicamente, é um entretenimento de primeira linha. Entretanto, levando-se em consideração que este é o equivalente de Christopher Nolan a um suspense de espionagem à lá James Bond, certamente há algo fora dos eixos, porque, à exceção do sotaque russo adotado por Kenneth Branagh e das sequências frenéticas, não há sinal do humor ou de quaisquer emoções genuínas que brotam da tela e suscitam a catarse da plateia.

O resultado é uma experiência distante, que se esforça a todo o momento para demostrar o nível de complexidade a que pode chegar, mas que é incapaz de estabelecer uma conexão minimamente espontânea com o espectador. Nolan parece ter sido cooptado por uma postura impassível em que todos os seus defeitos chegam ao ponto de anular suas pretensões – e, para um filme tão volumoso quanto este, ser menos excitante do que um som abdominal matutino é sinal de que sua inércia não pode ser desconsiderada. Caso contrário, converter-se-á em esterilidade.


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