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Crítica: Tenet

Tenet


Quando, em 1895, as pessoas na plateia da primeira exibição comercial de cinema da história saíram correndo da sala apavoradas, temendo que o trem que chegava na estação na cena as acertasse, a maior máxima da Sétima Arte também fazia a sua estreia: Cinema é emoção. Muito além do que apenas frames em movimento, dá certo quando é capaz de despertar no espectador os sentimentos e emoções corretas, fazendo quem assiste se confundir por um momento entre a realidade em tela e ao seu redor. Por alguns instantes, não dá para saber. É assim que tememos quando um protagonista está à beira de um precipício ou nosso coração acelera numa cena de perseguição. “Tenet” (2020), do diretor inglês Christopher Nolan, prometia ter a premissa perfeita para confirmar mais uma vez esta regra, propondo-se a confundir nossas percepções da realidade desde o trailer. No quesito confundir, desafio qualquer crítico a dizer que o diretor não foi bem sucedido, contudo, quanto ao despertar de emoções, é como esperar por um trem que nunca chegou.

A premissa da obra é inusitada. Cabe a mim contar pouco dela não só para que surpresas não sejam mantidas quanto porque, ao bem da verdade, muito pouco entendi. Quando o agente da CIA (tenho quase certeza de que era!) interpretado por John David Washington (a quem conheceremos no filme pela metalinguística alcunha de “O Protagonista”) morde uma pílula de suicídio - bem ao estilo espionagem da guerra fria - para evitar delatar seus companheiros após ser capturado em uma operação que não sai como o planejado, ele acorda num navio com pessoas que parecem mandar ainda mais do que seus antigos chefes e o enviam numa missão para impedir o fim do mundo armado apenas de uma palavra: “TENET”.

Daí para frente, embarcamos num filme de assalto clássico, cheio de traições, centenas de reviravoltas, mentiras e omissões que circulam através de uma tecnologia misteriosa capaz de fazer o tempo andar para trás de forma localizada em alguns objetos ou pessoas apenas. Sim, é bem louco. Nolan gosta de achar um conceito bem cabeçudo e explorar como poucos saberiam fazer. Foi assim com as regras de percepção distinta de passagem de tempo nos sonhos em A Origem (“Inception”, 2010) e várias teorias e conceitos da física em Interestelar (“Interestellar”, 2014). Aqui, a bola da vez é a Lei da Entropia. Pense num copo que se quebrou ao cair no chão e você tem uma máquina capaz de fazer todos aqueles caquinhos retornarem ao seu estado inicial de copo inteirinho. Se você faz isso, apesar de tudo ao seu redor estar normal, para o copo, o tempo andou para trás. Tal “reorganização” é impossível na natureza, sendo, pois, a razão de percebermos o tempo como algo sequencial.

Pronto. Legal, né? Esse é o conceito do que o filme insiste em não chamar de “viagem no tempo”, mas apenas de “reversão”. Acontece que o nível de complicação que esse conceito requer para fazer a história andar prejudica enormemente o filme inteiro – e abri o texto falando da necessidade que o cinema tem de nos fazer se relacionar com o que está acontecendo em cena exatamente por isso. Nolan perde tanto tempo elaborando situações de roteiro em que seu conceito de reversão seja aplicado que não sobra nada para nos relacionarmos com os personagens. O maior problema de Tenet, então, não é sua premissa difícil, mas seu roteiro um tanto fraco, algo raríssimo na brilhante carreira do diretor.

Nolan se preocupa em mostrar a reversão de entropia agindo, mas esquece de dar ao vilão de Kenneth Branagh uma motivação que faça sentido, apoia todos as atitudes de seu Protagonista no ímpeto de salvar uma mulher que ele mal conhece - numa relação difícil de engolir -, insiste em reviravoltas que mais lembram um excelente episódio sobre filmes de roubo do desenho Rick and Morty (e isso não é um elogio dessa vez) e furta-se completamente de nos explicar quem é e os motivos que o fazem agir como age do personagem mais carismático do longa, interpretado por Robert Pattinson - Houve, inclusive, duas cenas particularmente ruins onde certamente o diretor quis fazer seu espectador sentir medo ou tensão, mas, perdido que estava tentando simplesmente entender o que estava acontecendo, fui obrigado a perceber que deveria ficar tenso apenas pela trilha sonora.

Ao final, Tenet ainda é um filme Christopher Nolan. São muitas e boas cenas de ação sempre em grande escala, mas como gênero de assalto, não possui metade do carisma de A Origem e perde muito a mão na hora de complicar seu plot. Terminei a sessão sem entender de fato o que aconteceu, mas não como foi em Amnésia (“Amnesia”, 2000), O Grande Truque (“The Prestige”, 2006) ou com os outros dois sucessos já citados do diretor, onde a certeza de que faltava compreender alguma coisa me animava para ver e rever até que o mistério fosse integralmente solucionado. Não. Tenet termina deixando uma sensação de vazio, como um loop temporal de longas duas horas e meia em que você andou, andou e parece não ter ido a lugar algum.


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