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Crítica: Pokémon - Detetive Pikachu

É um passeio gostoso, efêmero e simpaticíssimo por um universo insólito e agitado, mesmo que particularmente não muito memorável.
Pokémon - Detetive Pikachu

Os japoneses são uma máquina de fazer dinheiro. Seus produtos culturais massificados são sensorialmente aprazíveis, de cor e texturas vivazes, além de possuírem uma personalidade característica que os torna (supostamente) indispensáveis – em especial, aos olhos dos ocidentais. A franquia Pokémon é a maior síntese disso: as criaturas são coloridas e atípicas, o ritmo (dos jogos, do anime, etc.) é acelerado e a trilha musical que embala todo esse pacote é animadíssima e engajante.
Concebido após o sucesso estrondoso do Pokémon Go em 2016 e baseado no vídeo game homônimo lançado no mesmo ano, Pokémon: Detetive Pikachu (Pokémon: Detective Pikachu, 2019) objetiva levar esse misto de deslumbramento e frenesi da imaginação oriental para as plateias do mundo inteiro, abarcando, no processo, todos os fãs dos games, séries, desenhos ou quaisquer produtos derivados da empreitada.

Não se sabe se amealhará mananciais de dólares, mas, ao menos, o filme do diretor Rob Letterman (dos deliciosos Monstros Vs Alienígenas e Goosebumps- Monstros e Arrepios) conquistou um feito muito mais relevante: trata-se da melhor produção cinematográfica adaptada de um vídeo game, superando outras criações de base mitológica consideravelmente mais complexa, porém, mal traduzida nas telas, como Lara Croft e Assassin’s Creed.

Aqui, acompanhamos o jovem Tim Goodman (Justice Smith, da série The Get Down), um antigo treinador de Pokémon que jamais conseguiu encontrar um parceiro deste, que funciona como uma espécie de avatar, para si. Quando seu pai, o detetive Harry, morre durante uma investigação, Tim vai para Ryme City, onde acaba entrando em contato com Pikachu (Ryan Reynolds), parceiro de trabalho de Harry. Logo de cara, algo inesperado acontece: Tim entende o que Pikachu, um Pokémon, diz. O pequeno ratinho elétrico afirma que o pai de Tim está vivo e, juntos, se unem para encontrá-lo, deparando-se com um esquema perigoso de grandes proporções, tendo a jovem estagiária de jornalismo, Lucy Stevens (Kathryn Newton), como aliada.

Ainda que a trama criada por Letterman, Dan Hernandez, Benji Samit e Derek Connolly pouco lembre o jogo ou o anime originais, há piscadelas constantes aos fãs por meio da aparição de objetos (a pokebola), locais (há um cena de “treinamento” no campo), canções (o tema musical da série animada) e, claro, dos mais variados tipos de Pokémon. No entanto, mesmo que funcione melhor para veteranos, os recém-chegados não se sentirão excluídos, já que o arranjo deste universo é quase que completamente novo e, ademais, as criaturas são tão simpáticas que se torna impossível resistir a elas.

Igualmente interessante é a concepção visual do cineasta e de seu diretor de fotografia, John Mathison, que conferem uma atmosfera noir bastante inusitada à primeira metade da projeção, apostando em uma série de contra-luzes, cenários esfumaçados e uma paleta de cores que abraça roxo, lilás e azul, remetendo diretamente às escolhas estéticas de Denis Villenueve e Roger Deakins para Blade Runner 2049 (2017). Essa brincadeira/homenagem com o subgênero policial e suas variações históricas também é bem aproveitada pela figurinista Suzie Harman, cujo vestuário dialoga perfeitamente com uma vertente clássica (o personagem de Ken Watanabe, por exemplo, utiliza roupas mais fechadas e compostas) e também com a visão cyberpunk de Ridley Scott (as jaquetas pretas e longas de um Deckard ou Agente K).

Uma pena que, a cada sinal de vitalidade da cinematografia ou do design de produção, o roteiro passe a se mostrar progressivamente previsível e abominavelmente expositivo. Basta dizer que determinado personagem, ao descobrir novas pistas sobre o mistério no qual está envolvido, as elucida mental e verbalmente, expressando conclusões já alcançadas pela plateia antes que seu raciocínio sequer houvesse começado. Para piorar, o trio de roteiristas recicla um dos pontos mais esdrúxulos do enredo de O Espetacular Homem-Aranha (2012), culminando em uma reviravolta telegrafada e risível, a qual não será comentada para evitar spoilers.

Pokémon: Detetive Pikachu também é ocasionalmente prejudicado pela insistência da direção em exacerbar o humor careteiro de Justice Smith (que funciona melhor em situações mais intimistas, diga-se de passagem). Ainda assim, tais erros não maculam a experiência em níveis profundos. É um passeio gostoso, efêmero e simpaticíssimo por um universo insólito e agitado, mesmo que particularmente não muito memorável.

Obs: Não tecerei qualquer tipo de comentário acerca do trabalho de voz de Ryan Reynolds como Pikachu, afinal, uma versão dublada foi exibida na cabine de imprensa em que estive. Não entrarei no mérito da qualidade da dublagem (no geral, bastante eficaz). Porém, a decisão da Warner Bros. em enviar apenas cópias deste tipo aos jornalistas é contestável e revoltante, uma vez que a distribuidora parece não enxergar o escopo necessário para realizar uma análise contundente de uma obra fílmica, desvalorizando o trabalho dos críticos. Melancólico.



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