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Crítica #2: Assunto de Família

Longo demais para os padrões do grande público, Assunto de Família vai passar por nós com status de “filme de arte”.
Assunto de Família

A família enquanto instituição – o que é ou não é, ou deve ou não deve ser – sempre foi um bom lugar para se olhar quando a intenção é analisar o comportamento dos indivíduos e da sociedade. Muito do que somos e do que entregamos ao mundo que nos cerca encontra origem e força nos laços que fazemos ao longo da vida. Muitas vezes, é verdade, estes laços fundamentais vêm junto com o parentesco sanguíneo, mas tantas outras, também verdade, não é bem assim. É sobre estes diferentes laços que construímos nas mais adversas conjunturas e nas mais improváveis situações, que o diretor japonês Hirokazu Koreeda quer conversar com o espectador ao longo de seu Manbiki kazoku – que ganhou um título bem oportuno aqui no Brasil: Assunto de Família.

A trama de Assunto de Família – que nos EUA ganhou o título de Shoplifters, mais parecido com o original, fazendo referência ao hábito dos protagonistas de cometer pequenos furtos – acompanha uma família muito pobre, formada, ao que parece no inicio, por um pai, uma mãe, uma avó e dois filhos. Para sobreviver – e também por diversão – os membros desta família roubam roupas, alimentos e outras coisas aqui e ali. Estas pequenas atitudes questionáveis estão presentes em todos os personagens, e o nosso ponto de partida é quando, retornando de mais um roubo bem sucedido, o pai (interpretado com um certo tom de carinho pelo ator Lily Franky) e o menino Shota (Jyo Kairi, verdadeiro) encontram sozinha a pequena Yuri (Miyu Sasaki) e decidem levá-la com eles para casa. Esta atitude que inicialmente é vista com desconfiança pelo resto da família, abre caminho para que a inocência de Yuri seja o fio condutor do espectador para conhecer e entender do que é feita a aquela família tão estranha à primeira vista.

O longa de Koreeda é singelo, delicado. Sem extravagâncias na direção, a história é contada muito próxima de seus personagens, como se estivéssemos junto com eles em cena – por vezes, chega a ser incômodo. Vemos uma família repleta de desvios, com espaço para prostituição, roubos e sequestros tidos com naturalidade, mas não há juízos de valor aqui. Apesar de tudo, há muito amor e cuidado entre cada um daqueles personagens - muitas vezes de maneiras tortas e estranhas, mas reais.

O filme se empenha em mostrar que lar e família não são conceitos fixos. Família é quem lhe oferece, justamente, um lar, quem está disposto a dividir o pouco que tem – o filme usa de um artifício que no começo me incomodou, mas com o tempo entendi, ao representar os laços que se constroem com os personagens dividindo refeições. Toda vez que vemos aquelas pessoas comendo juntas, “repartindo o pão”, vemos ali um laço feito visível. A menina Yuri tinha uma família de sangue que não a queria, e não por acaso, quando é encontrada, está com fome. A família, para Koreeda, numa analogia sutil e repleta de beleza, é esta instituição que nos alimenta o corpo e a alma.

Longo demais para os padrões do grande público, Assunto de Família vai passar por nós com status de “filme de arte”. Não é capaz de mudar a vida de nenhum espectador, e joga informação demais muito rapidamente ao final. Mesmo assim, traz com leveza momentos de ternura e afeto para a tela do cinema, e faz de sua discussão extremamente relevante e atual num tempo em que questionamos o tempo todo quem pode se chamar de família ou não.




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