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42ª Mostra | Crítica: A Casa Que Jack Construiu

A Casa que Jack Construiu silenciosamente se segura neste conceito divino, e indo além, na terra de cordeiros e tigres, a simetria de ambos é um fato, existindo um pelo outro.
A Casa Que Jack Construiu

Particularmente, para se compreender e aceitar um filme de Lars von Trier é preciso, primeiramente, ter a mente bem aberta, e segundo, não se importar com extremos. Porém, não se importar com extremos não significa que o filme será sempre bom quando estiver nesta área de abordagem. A Casa que Jack Construiu novamente traz o extremismo de Lars von Trier, continuando com o estilo adquirido nos últimos dez anos: buscando imagens mais conceituais e bonitas, mas com pouca preocupação no que quer dizer.

Suas histórias costumavam ser um tanto mais acessíveis, com Dançando no Escuro e Ondas do Destino, explorando o emocional ao invés do escatológico e bizarro. Atualmente, os enredos criados pelo diretor e roteirista estão mais a procura de chocar os espectadores e criar grandes comoções no Festival de Cannes do que realmente trazer algo sucinto, significativo e relevante ao cinema.

Em A Casa que Jack Construiu, Lars von Trier nos traz seu novo personagem existencialista, Jack (Matt Dillon). Homem que decide nos confidenciar cinco assassinatos que o marcou como serial killer ao longo de 12 anos à partir de discussões com representação de sua consciência, Virgílio (Bruno Ganz).

O enredo de Lars von Trier é incomodamente explícito, sem brechas na violência e nos pontos apresentados. E, ainda que intencionalmente chocante, sendo a surpresa e o horror visual o que mais tem buscado em suas histórias nos últimos anos, nunca se mostra conceitualmente relevante nesta constante busca por estudar a natureza humana – feito de forma melhor em Ninfomaníaca ao abordar a natureza libidinosa do ser humano.

Existe um culto incessante a violência em sua cinematografia, atingindo níveis de crueldade e bizarrice que não consigo reconhecer artisticamente, interligado pela trilha sonora de Victor Reyes tão sádica quanto às ações de Jack, possuindo um humor macabro e uma estranheza que revela bastante o conteúdo difícil do filme, e ainda capaz de com a música observarmos pelos olhos do personagem o seu sadismo em uma viagem ao interior de Jack.

Levando em conta que os alvos principais de Jack são as mulheres, transmitindo o machismo declarado do diretor em sua obra. Como em todos os seus filmes, a ambiguidade prevalece. Apenas posso julgar minha percepção, que, de acordo com as falas nazistas e preconceituosas de Lars von Trier no Festival de Cannes de 2011, ocorrido que o baniu do evento até 2018, é impossível não relacionar sua fala com o quase fetiche pela violência e a brutalidade física e mental posta em suas personagens femininas.

É indiscutível que os relatos de um serial killer para um filme é uma ideia interessante e bem apelativa, mas infelizmente surgiu na pessoa errada. O roteiro possui elementos que variam entre o humor negro e o suspense, contudo, o sadismo visual e verbalizado atrapalha o engajamento em um enredo desesperado por atenção, da mesma forma que atrapalha a aproximação do público que se vê mais desafiado a permanecer testemunhando atrocidades do que compreender questionamentos inteligíveis.

A narração episódica que, devido à qualidade desequilibrada dos relatos, passa a sensação de um agrupado de curta metragens, ainda que se possa reconhecer a edição controlada que em desvantagem consegue entregar o material episodicamente e sem perder o seu valor progressivo, conectando as cenas cautelosamente nos segmentos. Entretanto, o estilo episódico não é agradável e envolvente como em Ninfomaníaca.

Assistir a um filme de Lars von Trier não chega a ser um tiro no escuro, pois seu extremismo já é parte de sua característica. A pergunta é a o que ele irá dar mais importância: imagem ou história?

Neste caso, Lars possuía uma boa história com um ator completamente entregue as propostas e que exerce perfeitamente o papel de serial killer. Matt Dillon encara a frieza do personagem sem camadas a mostrar, praticando o minimalismo necessário para amenizar o exagero de seu diretor e dar mais credibilidade a sociopatia de Jack. Seu rosto permanece intacto durante o filme todo, sendo a sua falta de expressões e a falta de grandes momentos de exaltação que atiça o interesse neste homem, carregando um filme excessivamente longo, mantendo a atenção em si sem ajuda do roteiro, mas através da persuasão no olhar impenetrável do ator.

As mulheres interpretadas por Uma Thurman, Siobhan Fallon Hogan, Sofie Gråbøl e Riley Keough são aproveitadas contextualmente, servindo o antagonismo perfeito para o desenvolvimento de Jack, sendo coadjuvantes melhor atuadas do que escritas. Com isso dito, retomo o machismo escancarado de Lars von Trier, pois, além de utilizar suas personagens femininas – e as próprias atrizes – para representações violentas desmedidas, suas características não poderiam ser mais estereotipadas e submissas, retratando-as basicamente como fúteis, ingênuas, burras, entre outros atributos revoltantes.

Com um roteiro conturbado como este, cheio de problemas sociais, o que faz ser mais preocupante do que o infortúnio da escrita, é possível admirar certos aspectos, como o relacionamento e os diálogos entre Jack e Virgílio, que discutem o existencialismo e as condições humanas com fluidez, sem pedantismo, mas levantando temas concisos. O que leva para a real mensagem do filme que passa pelo poema “O Tigre” de William Blake.

William Blake questiona a existência do mal e como Deus em sua glória seria capaz de criar tal tenebrosidade. Como Deus poderia criar ao mesmo tempo uma coisa horrível e medonha como esse tigre (o mal), que não possui a beleza divina e a perfeição. Como que poderia Deus criar ao mesmo tempo o cordeiro (o bem) e o tigre (o mal), e se o Criador cria tanto o tigre quanto o cordeiro o mal e o bem estão a serviço do Criador. “Sorriu Ele ao ver sua criação?/Quem deu vida ao cordeiro também te criou?” (BLAKE). E aqui se encaixa a representação da obra de Blake na obra de Lars von Trier. O mal não só é desalmado e cruel, mas, como nesta terra que Deus haveria criado concebeu a maldade e a bondade?. A Casa que Jack Construiu silenciosamente se segura neste conceito divino, e indo além, na terra de cordeiros e tigres, a simetria de ambos é um fato, existindo um pelo outro.

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