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Crítica: Crô em Família

Crô em Família é uma comédia tola, simplória e que provoca um ou dois risos discretos, que surgem pouco em função do roteiro ou das interpretações, mas, sim, devido à bizarrice over do conjunto.
Crô em Família

Há sete anos, Crodoaldo Valério, mais conhecido como Crô, fez imenso sucesso na novela Fina Estampa, revitalizando a imagem de Marcelo Serrado como ator. Mesmo integrando um projeto particularmente aberrante e apelativo, Serrado apresentou incontáveis méritos em sua composição dramática. O personagem era um estereótipo (o que penteado e figurinos não negavam), mas o tom de voz, os gestos e a postura corporal adotadas pelo ator tornaram Crô minimamente crível, convicta e inofensiva.

Quase dez anos depois, é difícil entender exatamente o porquê de um personagem como este retornar aos cinemas. Razões criativas, então, são inexistentes aqui. Assim, podia-se argumentar que se tratava de uma questão financeira, mas o antecessor, apesar do ótimo número de dois milhões de espectadores, não teve uma renda satisfatória na bilheteria e não cobriu os custos de produção, deixando vários funcionários da equipe sem pagamento.

Crô em Família (Idem, 2018) é absolutamente datado, em todos os níveis possíveis: o humor é próximo do realizado em novelas das sete dos anos 2000 - e das primeiras temporadas do Zorra Total -, as expressões idiomáticas e bordões são ultrapassados (“Pedi pra parar, parou”, “Sai da minha aba, sai pra lá”) e o grande conflito da trama calharia melhor em uma história ambientada há 40 anos, em que exames de DNA não eram feitos e não havia uma rede virtual de comunicação.

Agora, Crô (Serrado) está divorciando-se quando, subitamente, é surpreendido por um grupo de pessoas que alega ser sua família biológica. Entretanto, será difícil entender a verdadeira intenção deles, que podem estar se aproveitando da condição socioeconômica do ex-mordomo.

O elenco é ótimo, ainda que interpretem leves variações de si mesmos ou de tipos que já haviam encarnado. Serrado, ainda que repita os costumeiros fungados e toques nos mamilos, consegue gerar algum divertimento, mas em contrapartida, também flerta com o piloto automático em certos instantes. Arlete Salles e Tonico Pereira formam uma boa dobradinha. O jovem Jefferson Schroeder apresenta a composição física mais sofisticada e convincente, mesmo que seja obrigado a repetir imitações pelas quais ficou conhecido, sem qualquer adequação ao contexto da cena. Por fim, basta dizer que as ausências de Alexandre Nero e Kátia Moraes, destaques da novela e do antecessor, são duramente sentidas. São os atores que carregam o longa-metragem, mesmo lidando com um texto totalmente pobre e repetitivo.

Na verdade, o roteiro é tão paupérrimo que não consegue nem desenvolver suas ideias mais elementares. Como já citado, a trama recorre a artifícios ultrapassados e não consegue justificá-los em momento algum. Exemplo: Crô é alertado por amigos sobre as possíveis intenções malignas de sua recém-descoberta família, recusando-se a fazer um exame de DNA, já que a comprovação surgira na forma de uma marca de nascença. Crô não pesquisa virtualmente sobre ninguém, não procura fazer nenhum teste, simplesmente crê. Mais difícil é entender por que raios ele fica contra os amigos. Minto, é bastante simples: é porque o texto precisa que assim seja. Caso contrário, não haverá nada que o sustente.

Mas, por que se deve cobrar o mínimo de coerência de um filme que conta com as participações especiais de Pabllo Vittar e Preta Gil, em uma sequência absolutamente descartável? O público-alvo de produções como esta não é o mais exigente ou refinado, porém, esta percepção não serve como prerrogativa para a qualidade esquálida do roteiro, que se esquece de praticamente tudo o que fora estabelecido pelo anterior. Detalhe: sem assumir-se como reboot. Ademais, é estupidamente presunçosa a reviravolta ocorrida no clímax da narrativa, que pressupõe que o espectador não tenha percebido a obviedade dos índices (pistas) espalhados momentos antes, almejando, ainda, usar uma falsa morte para surpreender. A resolução, como não poderia deixar de ser, é mais capenga que o anunciado.

Fazendo jus ao seu anacronismo inerente, o longa lança mão em uma série de estereótipos completamente irresponsáveis e batidos. O exemplo mais notável dá-se na família recém-adquirida do protagonista: são apresentados e expostos como suburbanos prosaicos, incultos tonitruantes e malandros inconfessáveis, assemelhando-se de forma evidente com personagens de núcleo cômico de telenovelas. Até mesmo o desenvolvimento da trama adota uma postura elitista ao colocar essas criaturas em aulas de etiqueta e tentando falar francês, uma tática ainda mais requentada. O roteiro também não consegue se decidir entre a vilanização ou a condescendência desses tipos, ora mostrando-os como interesseiros, ora como pessoas simples e de bom coração.

Já no tratamento à classe LGBT, era o que se poderia esperar: uma bobagem. Com exceção de Zarolho (Raphael Vianna, que se encaixa em outro tipo fácil, o de gay voluptuoso, “boy magia”), todos os homossexuais aqui são estridentes, afeminados e maiores que a vida, usando roupas justas e berrantes, sempre dizendo coisas como “bicha, sua louca” ou “ai, miga, para”. Se esse tipo de representação se tornou grosseira na televisão, no cinema, então, soa basicamente condenável.
Piorando a situação, a diretora Cininha de Paula aposta em uma abordagem visual plastificada e convencional. A textura da imagem é límpida e o enquadramento é fechado, variando de closes a planos médios. Para piorar, a cineasta concebe uma pavorosa sequência de planos desconjuntados, evidenciando que a cena foi gravada em períodos distintos. Além disso, há quebras de eixo totalmente primárias, denotando o pouco empenho injetado nesta empreitada.

Tencionando até mesmo satirizar o universo sensacionalista dos blogueiros e youtubers por meio de Carlota Valdez (mesmo nome de uma personagem citada em Fina Estampa, o que demonstra o total descaso dos roteiristas em respeitar a lógica do universo estabelecido), Crô em Família é uma comédia tola, simplória e que provoca um ou dois risos discretos, que surgem pouco em função do roteiro ou das interpretações, mas, sim, devido à bizarrice over do conjunto. Melhor esperar até que passe na Tela Quente ou na Sessão da Tarde de um feriado qualquer.

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