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Crítica: Gauguin - Viagem ao Taiti

Gauguin – Viagem ao Taiti entrega uma boa atuação de Vincent Cassel e uma tocante presença de Tuheï Adams, destacando-se silenciosamente na situação da personagem, além do questionamento interessante sobre o que é ser selvagem
Gauguin - Viagem ao Taiti

O pós-impressionismo de Paul Gauguin é muito reconhecido por seu primitivismo em constante contato com a natureza e cores exuberantes. Nesse estágio específico em que procura se aproximar da vida selvagem, com paisagens diferentes da monotonia cosmopolita parisiense, encontra sua criatividade em estado de graça, embora neste mesmo momento, tenha passado pela miséria que assolava a vida de vários artistas em geral.

Paul Gauguin segue seu cotidiano com pinturas de acordo com a visão proporcionada por Paris, ganhando míseros trocados para sustentar esposa e filhos. Cansado da metrópole cinza, vai atrás de novos horizontes, partindo para o Taiti, abandonando sua vida inteira na França para se reestruturar como artista, encontrando nessa jornada, sua musa que inspiraria seus melhores trabalhos.

Com a Polinésia Francesa servindo como espaço para o filme, a aparência não poderia ser diferente do que vastidão e imersão completa, especialmente considerando o estado mental que se encontra Gauguin no Taiti. Comparado com sua vida em Paris, as cores e a luz possuíam um tom mais denso e opaco, revelando a insegurança, desconfiança e dilema passado pelo protagonista. Entretanto, sua aventura em meio a tribos e florestas, constroem exatamente a confusão e voracidade artística de Gauguin, como um emaranhado de sua imaginação contraposta a sua vida.

Com belíssimos panoramas a serem aproveitados, a cinematografia opta por ser objetiva, subaproveitando o cenário em que se coloca, oferecendo uma cinematografia simplista e sem nenhum brilho do real impressionismo que o próprio pintor buscava. A trilha sonora regida principalmente por violinos coloca leveza na história, possuindo sua beleza e pontualidade, porém, não possui nenhum impacto no filme e é facilmente esquecível.

O figurino retrata bem o século XIX, assim como apresenta duas ambientações totalmente diferentes, com pontos específicos sendo colocados, desde o figurino recatado e carregado, com roupas da alta classe europeia, até a despreocupação com panos caros, mas suportando uma vida mais aberta a natureza humana. Colocando ambas as ambientações em paralelo, a boemia francesa, se coloca como os selvagens metropolitanos, desregrados e livres. O filme claramente busca traçar a observação da selvageria em aspectos diferenciados. Do lado mais simples e claro, mostrando o que é um selvagem para uma sociedade civilizada em seus moldes tradicionais, comparando a selvageria boêmia e a selvageria tribal. E partindo para além da superfície comum, a citada selvageria questiona o homem branco descontrolado e se deteriorando mentalmente, inserido no ambiente tribal, e a suposta selvagem nas mãos deste homem branco, pois ela não é familiarizada com o ser civilizado.

O filme se sustenta inteiramente em cima de Gauguin (Vincent Cassel), que se destaca na loucura da performance e personifica um artista com problemas pessoais contundentes, além de características impostas pelo roteiro que dificultam a aproximação e a relação do público com o protagonista. Sua esposa taitiana, Tehura (Tuheï Adams) é a vulnerabilidade corpórea de Gauguin, sendo tanto seu ponto fraco como sua inspiração enquanto musa, e a atriz consegue carregar o sentimento de solidão no decorrer da história, com poucas palavras, mas expressando sutilmente com o desalento nos olhos de uma mulher pertencente a uma tribo e que acreditava no casamento que escolheu. Contudo, sua caracterização oposta a Gauguin é de um mero objeto para ser pintado e emoldurado, e ocasionalmente procriar.

O roteiro falha gravemente em dois pontos: construção de personagem e narrativa em si. Além de Gauguin e Tehura, que são planos em suas personalidades – homem branco dominante e hipocondríaco, e a nativa submissa – , e ainda criando um protagonista que causa um desgosto latente no público, o elenco de apoio serve apenas para convencionalidade da história, como o médico que quer ajudar, mas o paciente é teimoso demais, ou um outro homem para ser o pivô de uma separação. Personagens sem profundidade, caricatos e que apenas servem como moldes para uma estrutura preguiçosa.

O segundo erro do quarteto de roteiristas, que inclui o próprio diretor Edouard Deluc, é a pressa na narrativa, sendo mais grave do que a própria construção de personagens. A história é incrivelmente apressada e afobada, partindo de um ponto para o outro sem conexões o suficiente para fazerem sentido. As pontas são soltas com uma cena e amarradas logo em seguida tão desesperadamente que o proveito de uma narrativa sobre um período de um dos maiores pintores de todos os tempos se torne enfadonha e impossível de se conectar. Um problema “pequeno” que gera um efeito cascata, afetando o desenvolvimento e a edição que é picotada e tenta acompanhar a história, ao invés de conduzi-la.

A direção de Edouard Deluc basicamente se perde em meio a tantos erros na produção em geral, sendo apenas um coadjuvante em sua própria criação. A relação do casal é bem trabalhada inicialmente, mas com o passar dos minutos, tudo envolta de Gauguin e Tehura fica repetitivo, derrubando o interesse sobre a relação deles e o clímax final.

Gauguin – Viagem ao Taiti entrega uma boa atuação de Vincent Cassel e uma tocante presença de Tuheï Adams, destacando-se silenciosamente na situação da personagem, além do questionamento interessante sobre o que é ser selvagem, colocando o homem branco e membros de tribos frente a frente para o entendimento pessoal do público. Entretanto, os pequenos acertos são ofuscados por uma narrativa incongruente e formulaíca, personagens rasos e um protagonista detestável, com o roteiro exaltando mais seu machismo e egocentrismo do que o seu real talento e a importância do país para sua arte.

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