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Crítica: O Destino de uma Nação

E, apesar da inconstância no tom de como retrata o protagonista, O Destino de uma Nação se sai bem pela direção sólida de Joe Wright e por uma atuação poderosa de Gary Oldman, fazendo jus à importância de um personagem histórico num momento igualmente histórico de nossa humanidade.
Crítica: O Destino de uma Nação

Volta e meia, o cinema mainstream e a televisão parecem passar por um pequeno ciclo onde redescobrem um tema importante, um momento histórico ou um personagem icônico que passa a ganhar várias adaptações num curto espaço de tempo – e me lembro de ter pensado nisso quando assisti a Feito na América (com crítica no site) e como a figura de Pablo Escobar e o narcotráfico da década 80 eram materiais quase prontos para serem adaptados pelo seu potencial narrativo. Pois bem, recentemente uma das figuras mais icônicas da Inglaterra (e da História) tem ganhado destaque e aparições constantes: Winston Churchill, político e estadista cuja atuação como primeiro-ministro ficou marcada durante a 2ª Guerra Mundial. Sua vida inteira é, de fato, outra história daquelas prontas para serem contadas em qualquer mídia, mas, nesse caso, apenas o período em que foi chefe de Governo do Reino Unido já é o suficiente para ganhar destaque em qualquer obra (vide a série da Netflix The Crown e o filme Churchill, sendo os mais recentes).

O último sobre essa grande figura histórica é O Destino de uma Nação e traz o veterano Gary Oldman no papel principal. A trama cobre o período quando o recém empossado primeiro-ministro se vê num momento delicado para os ingleses, que sofrem ameaça crescente da Alemanha e o avanço do exército de Hitler pela Europa, culminando na Batalha de Dunquerque, quando uma enorme parte do exército britânico e francês foi encurralada no norte da França (mote que também é a trama de Dunkirk, de Christopher Nolan).

Usando o evento como fato motivador para os conflitos do personagem, o longa de Joe Wright (Orgulho e Preconceito, Desejo e Reparação, Anna Karenina) se concentra nos esforços de bastidores para encontrar uma saída que evitasse a derrota da Inglaterra e sua consequente invasão. Enquanto uma parte do governo de Churchill queria negociar termos de paz com a Alemanha – objetivo traçado, principalmente, pelo Visconde Halifax (Stephen Dillane) – o próprio Churchill insistia em adotar uma abordagem ofensiva, acreditando que havia saída para a crise em Dunquerque. O embate entre a crença do primeiro-ministro pela vitória britânica e o medo de sua derrota que permeava o governo – e também o rei George VI (Ben Mendelsohn) – é o principal motivador da trama.

Mas, além de se fundamentar apenas na questão histórica, os conflitos ganham peso pelo fato de acompanharmos tudo na visão de Churchill e sua figura peculiar. Sendo assim, o longa não é só sobre o momento histórico em si, mas também uma jornada pela própria figura do protagonista. Se o filme é eficiente em fazer o espectador mergulhar na tensão dos bastidores da guerra é porque há um personagem que consegue despertar um magnetismo imediato. Interpretado com excelência por Gary Oldman, o Churchill aqui apresentado é um homem que causa impacto logo que aparece – ou até medo, como o próprio rei George salienta em certo momento. O ator britânico desfila um arsenal de trejeitos que jamais parecem artificiais, o tornando imediatamente carismático para todos que o cercam, seja de maneira positiva ou negativa.

Oldman, inclusive, é inteligente ao entender que há várias características do personagem que mudam de significado assim que também muda o teor da cena, evitando que se tornasse um retrato maniqueísta. Portanto, quando não consegue se livrar de seus eventuais gaguejos e murmúrios, estes demonstram tanto um artifício na tentativa de esconder seus momentos de insegurança quanto são uma consequência inevitável de sua teimosia ao ser confrontado pelas circunstâncias. Do mesmo modo, o senso de humor presente do personagem revela ser um elemento natural, e não apenas um recurso do roteiro para um eventual alívio na tensão da narrativa. Ajudando também da composição, há de se aplaudir o excepcional trabalho de maquiagem, que jamais flagra qualquer tipo de artificialidade, o que nos tiraria inevitavelmente do filme (como acontece com o J.Edgar de DiCaprio ou com o Hitchcock de Anthony Hopkins). A prostética que envolve o ator realmente o faz parecer um homem mais velho e com sinais de sobrepeso, principalmente no rosto, e estes são absolutamente críveis.

Como deve ter ficado claro, a narrativa se apoia bastante na figura de Churchill para se desenvolver e esse aspecto faz o longa se desequilibrar eventualmente quando passa a tratar o protagonista mais como ícone ambulante do que como um personagem complexo. Assim, quando há o primeiro encontro de Elizabeth Layton (Lily James), a intenção de apresentar as características mais explosivas do sujeito acaba indo para um exagero que flerta perigosamente com uma paródia. O mesmo acontece em outros momentos, mas com intensidade e significado diferentes, como quando o indeciso protagonista decide abordar os passageiros do vagão de um metrô com o objetivo de “captar” o sentimento do povo inglês face a uma possível derrota do país na guerra; o que era para parecer uma sequência que humaniza a figura de Churchill acaba soando inverossímil, beirando à breguice, por mais que isso tenha eventualmente acontecido – e me lembro de ter me indagado, ao término da sessão, se isso realmente teria sido baseado em fatos, o que, no fim das contas, pouco interessa, pois uma narrativa tem muito mais obrigação de funcionar por si mesma do que pela realidade.

Mas, apensar dessas ressalvas, a excepcional atuação de Gary Oldman acaba contornando os possíveis exageros, assim como a direção de Joe Wright, que usa sua experiência em filmes de época para construir uma narrativa que nos envolve, tanto pela jornada do protagonista quanto pelo visual. Ciente de que sua história está focada, em sua maioria, em salas de reunião e debates com outros políticos sobre o rumo da guerra, o cineasta e seu diretor de fotografia Bruno Delbonnel desenham visualmente o sentimento de incerteza através de uma fotografia que preza os contrastes, seja nos ambientes escuros invadidos por feixes de luz, seja na inserção pontual de cores mais fortes numa paleta mais fria – o que leva, inclusive, a uma ótima sequência quando Churchill espera pela luz de aviso quando vai dar um importante pronunciamento à nação por transmissão à rádio.

Conferindo fluidez à narrativa, Wright também sabe usar as transições e os enquadramentos a seu favor, como num outro ótimo momento que mostra o protagonista numa conversa de telefone com o então presidente americano Franklin D. Roosevelt. O senso de ameaça é construído visualmente com bastante eficiência, por exemplo, através da utilização de recursos narrativos interessantes, como o momento em que repete um plongée (ângulo de câmera de cima para baixa) anteriormente utilizado para mostrar um ataque aéreo na França e, posteriormente, usado como prenúncio de uma ameaça similar na Inglaterra; ou quando realiza uma bela transição em travelling que substitui um plano geral de um campo bombardeado por um primeiro plano do rosto de um soldado morto. É exatamente esse tipo de preocupação com a linguagem que faz que as qualidades da obra superem seus problemas.

E, apesar da inconstância no tom de como retrata o protagonista, O Destino de uma Nação se sai bem pela direção sólida de Joe Wright e por uma atuação poderosa de Gary Oldman, fazendo jus à importância de um personagem histórico num momento igualmente histórico de nossa humanidade. E pensando bem, não me preocupo muito se os realizadores têm insistido na história de Winston Churchill ultimamente, desde que mantenham uma qualidade como a que foi apresentada aqui em outras obras recentes.



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