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Crítica: Feito na América

Feito na América não tem a intenção de retratar, é verdade, um drama sobre a época do auge dos carteis e de sua guerra com os governos (e outros carteis), ou sequer estudar grandes personagens e figuras icônicas da época; quer apenas divertir com inconsequência (como o bom cinema de entretenimento), mesmo sobre um tema tão obscuro e complexo como este.
Crítica: Feito na América

A era do narcotráfico na América Latina, principalmente a que envolve a Colômbia e os famosos nomes de chefões de quadrilhas gigantescas, parece ter conquistado novamente as produções do cinema e da televisão ultimamente. A mítica por traz de figuras como a de Pablo Escobar, por exemplo, serve como inspiração natural para uma típica jornada de herói (um anti-herói ou vilão, no caso). Estas sagas reais repletas de sucesso, violência e com escalas que atingem governos de países inteiros (como a série Narcos e filmes como Conexão Escobar e Escobar: Paraíso Perdido) já parecem ter sido preparadas para serem apenas lapidadas pelos produtores ansiosos por mais um filme de ação, suspense ou aventura. Agora com uma abordagem mais comédia aventuresca, um astro de ação no papel principal e o foco no caso real de um piloto americano que trabalhou como agente duplo para a CIA e os traficantes, Feito na América investe no humor com bases satíricas e a ação do homem comum que resolveu enriquecer se aproveitando da intrincada guerra dos EUA contra o narcotráfico.

A história é baseada na vida do piloto Barry Seal (Tom Cruise), que, cansado do seu emprego na aviação civil, é recrutado pelo agente Schafer (Domhnall Gleeson) para fazer o transporte de armas e drogas como parte de um misterioso jogo que envolve a influência dos americanos em guerras internas de países latino-americanos. Trabalhando sob a desconfiança de carteis e do próprio governo de seu país, o piloto, juntamente com sua esposa Lucy (Sarah Wright), se vê cada vez mais seduzido pelo dinheiro rápido e pressionado pelas circunstâncias perigosas de seu estilo de vida.

Iniciando a narrativa com um flashback, que descobrimos ser conduzido pelo próprio protagonista em vídeos VHS filmados por ele mesmo (a história se passa entre 1978 e 1986), Seal é rapidamente apresentado como o típico sujeito malandro com o ar de inconsequência que o transforma quase imediatamente num personagem magnético, ainda mais pelo carisma eterno de Cruise, que continua a ter o talento de transitar entre vários tipos de heróis, desde os mais habilidosos e inatingíveis (como os da série Missão: Impossível) até esses mais canastrões que caem como uma luva para a abordagem deste filme: bem mais vulneráveis e que exibem aquela esperteza self-made que o americano adora relacionar com o símbolo do progresso meritocrático de seu povo.

E o roteiro, escrito por Gary Spinelli, tem como maior mérito contar a história de Seal com o pano de fundo do combate às drogas da era Ronald Reagan, mas com claras intenções de satirizar o sentimento de republicanismo de aparência através das táticas questionáveis utilizadas com o apoio da CIA (para escapar das barreiras legais impostas para o presidente) na intenção de intervir no contexto do combate à cocaína, usando como justificativa “lutar contra os grupos comunistas” na América Latina. Aliás, a própria irresponsabilidade do protagonista acaba servindo como um elemento adicional ao humor causado pela reflexão. Note, por exemplo, a reação de Seal quando percebe que os supostos grupos paramilitares latinos destinados a receber apoio dos EUA não passam de pessoas sem qualquer preparação para pegar em armas, ou servir como qualquer tipo de resistência ao avanço dos comunistas: é melhor fechar os olhos, seguir em frente e continuar recebendo uma fortuna para ser apenas “o transportador”.

Dirigido por Doug Liman (No Limite do Amanhã, Sr. & Sra. Smith, Identidade Bourne), o filme acompanha o ritmo e, de certa forma, a própria personalidade do protagonista. Usando uma abordagem que aposta na agilidade da montagem – o filme é repleto de rápidas sequências que saltam no tempo para servir como uma espécie de gag visual – e num aspecto de câmera que flerta com o documental através de uma câmera sempre móvel e de pequenos microzoons, Liman transforma sua obra em um quase conto tragicômico observado por lentes que parecem estar sempre o seguindo na espreita, como se todos ali soubessem estar participando de um grande mockumentary (embora a escolha acabe, eventualmente, causando caos visual nas sequências muito dinâmicas). Nesse sentido, o filme é eficiente em apostar no entretenimento pelo humor despreocupado com a realidade e sem medo de brincar com as personas de figuras como agentes da CIA, FBI, xerifes e até ex-presidentes (há uma aparição muito divertida que faz piada com George W.Bush).

O problema é que isso tudo faz com que nossa atenção como expectador dependa do quanto somos envolvidos pelas situações absurdas e pelas reviravoltas na trama. Apesar de ser carismático, não é possível dizer que nos importamos muito com os rumos do protagonista. Dependemos bem mais da trama do que dos personagens e, teoricamente, não há nada de errado nisso. O problema é que o longa não consegue manter suas principais qualidades durante todos os seus 115 minutos (além de tender a repetir informações o tempo todo), o que acaba criando um espaço que vai se tornando aborrecido entre os 1º e 3º atos. O resultado é um filme que se equilibra relativamente bem entre seu humor e seu absurdo, mas que acaba sendo esquecido pouco tempo depois da sessão.

Feito na América não tem a intenção de retratar, é verdade, um drama sobre a época do auge dos carteis e de sua guerra com os governos (e outros carteis), ou sequer estudar grandes personagens e figuras icônicas da época; quer apenas divertir com inconsequência (como o bom cinema de entretenimento), mesmo sobre um tema tão obscuro e complexo como este. Por isso, apesar de não ser nenhuma obra-prima, temos o cinema, que nos faz acreditar, por duas horas, que aquilo tudo estava mais para o Barry Seal de Tom Cruise do que o Escobar da vida real. 

Divulgaí

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