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Crítica: O HOMEM DE AÇO

o homem de aço
“- O que significa esse ‘S’ no seu peito? “- Não é um ‘S’, no meu planeta significa ‘esperança’.”
Não sou um grande entendedor de histórias em quadrinhos, mas, já li alguns exemplares sobre diversos heróis e pesquisei sobre a mitologia em torno deles – muito em função dos filmes adaptados de suas aventuras. Com base nesse parco conhecimento posso afirmar: nenhum herói é mais desinteressante do que o Super-homem e sua amplitude de poderes.
Ora, é difícil estabelecer qualquer ligação com a história de um herói que parece nunca colocar a vida em risco, podendo mesmo mudar o curso de rotação da Terra com a velocidade de seu voo. Dito isso, é interessante constatar que o maior defeito dos filmes do herói nas telonas era exatamente nunca parecer tratar de um ser superpoderoso. Convenhamos, um humano careca com mania de grandeza não era exatamente um desafio para o Super, não é mesmo? Sendo assim, o filme de 1978 e mesmo Superman – O Retorno se tornavam filmes limitados exatamente por limitar os poderes de seu protagonista – e vejam bem, digo isso sem em momento algum desmerecer os méritos cinematográficos das duas produções.

Após dizer isso, o primeiro passo ao comentar O Homem de Aço, retomada do herói nas mãos de Zack Znyder e Christopher Nolan (respectivamente, responsáveis por Watchmen e a trilogia O Cavaleiro das Trevas) é dizer que dessa vez sim, podemos constatar a real dimensão do poder contido no Super-homem.

O Super-homem é também Kal-El, um dos últimos sobreviventes do planeta Krypton, enviada à Terra por seu pai, Jor-El, antes do planeta ser alvo de um golpe de estado do general Zod. O planeta então é devastado, restando apenas os dois e alguns seguidores de Zod como sobreviventes. Crescendo como filho adotivo de uma família do interior dos Estados Unidos, Kal-El assume a identidade de Clark Kent e aprende sob os cuidados de Jonathan Kent a esconder seus poderes, incompreendidos pelas pessoas da Terra. Porém, quando o general Zod e seu exército chegam ao nosso planeta buscando reerguer sua raça sob os escombros de nossa civilização, Kal precisa assumir seu posto como o homem de aço, defensor e herói dos seres humanos.

Interpretado com seriedade por Henry Cavill, o Super-homem visto aqui é um ser deslocado em seu meio, ainda não habituado ao conceito de um alter-ego. Kal pode até assumir a identidade de Clark Kent, mas, em sua essência, existe apenas um kryptoniano superpoderoso. Dito isso é interessante observar um herói tido desde seu início como símbolo do “bom mocismo” deixar-se tomar pela raiva e destruir meia cidade em um combate com seu rival, matando milhares de pessoas por descuido durante a luta. Sim, Super-homem resgate a mocinha, ajuda famílias indefesas, mas, ele ainda é um homem dividido e sem controle total de seus poderes. Dessa forma, não seria de se estranhar se em uma eventual continuação, o protagonista saísse do planeta com medo do que seus poderes podem fazer com a população terrestre – claro que isso pode ser descartado ao observarmos o herói assumindo seu posto como repórter do Planeta Diário, mas, não deixa de ser um bom exercício de imaginação.

Por outro lado, ao castrar o herói de seu lado humano, o perde a identificação do público, já que o problema mencionado no começo deste texto se torna patente: o protagonista se torna poderoso demais e todas as tentativas de criar-se um drama em torno de ameaças às pessoas próximas ao personagem são sabotadas por anteciparmos que ele sempre vai resolver a situação – diferente dos filmes do homem-morcego, por exemplo, onde todos pareciam correr perigo, inclusive o herói.

Adotando uma estrutura episódica, prejudicada pela montagem problemática de David Brenner, O Homem de Aço perde seu ritmo sempre que se entrega aos flashbacks do passado do protagonista, onde ao invés de tornarmo-nos mais íntimos da personalidade do herói, unicamente perdemos o interesse, custando a recuperá-lo. Da mesma forma, ao escolher retratar um número excessivo de personagens “importantes”, o filme se compromete sempre que precisa desviar o foco do Super-homem para algum coadjuvante, chegando ao cúmulo em duas ocasiões onde todos os problemas da montagem são evidenciados: no primeiro, uma colagem rápida retrata a procura de Lois Lane por informações sobre Clark Kent, momento que devido ao recurso adotado, faz a busca parecer durar menos de um dia e não exigir o mínimo esforço da repórter, quando sabemos ser o completo oposto. Em outro momento, durante o terceiro ato, em meio ao explosivo combate de Zod e Super-homem, somos forçados à acompanhar o drama de Perry White e alguns colegas, com o protagonista simplesmente esquecido pelo montador.

E já que mencionei os coadjuvantes, sou obrigado a dizer que poucos são os personagens que justificam sua presença no longa. Amy Adams, uma das atrizes mais talentosas de sua geração se vê presa à uma personagem que resume-se ao interesse amoroso do herói, vivendo um romance forçada pelo roteiro, desesperado por uma âncora humana para a narrativa. Já Laurence Fishburne pouco pode fazer com seu Perry White, personagem que resume-se a desviar a atenção no confronto final do filme. E se Kevin Costner utiliza-se seu pouco tempo em tela para tornar Jonathan Kent uma quase bússola moral para o homem de aço, com seu olhar bondoso, mas, inspirador de respeito, Diane Lane pouco faz como sua esposa, uma personagem tão desnecessária como a mãe kryptoniana de Kal.

Russel Crowe torna seu Jor-El um personagem digno e de forte presença cênica, bastando aparecer em cena para conferir peso dramático à um filme que carece disso. E se Crowe não é o grande destaque do longa, isso deve-se ao fato do vilão Zod ser daqueles que a simples existência engrandece qualquer herói.

Interpretado por Michael Shannon - claramente divertindo-se com a caracterização over do personagem – o general Zod é um personagem de complexidade shakesperiana: nascido com o destino de proteger krypton a todo custo, o militar sabe reconhecer seus atos cruéis e genocidas, mas, não conhece outra maneira de viver se não para estabelecer novamente a vida de seu povo. Dessa forma, vê-lo afirmar que não passa um dia sem lembrar do momento em que tirou a vida de Jor-El emociona como nenhum ato do protagonista consegue.

Tecnicamente, porém, o filme impressiona. A trilha de Hans Zimmer, de pesados acordes acerta ao descartar o tom fantasioso utilizado por John Willians nos filmes mais antigos, conferindo uma atmosfera de urgência bem-vinda ao filme. Da mesma forma, os efeitos visuais são de cair o queixo – a capa utilizada pelo Super-homem é de uma beleza única – e a escala alcançada pela ação vista em O homem de aço deixaria Michael Bay e Rolland Emmerich extasiados: cidades devastadas pelo impacto dos corpos dos personagens, explosões, voos ultra-realistas, tudo contribui para o espetáculo proporcionado por Zack Snyder.

E por falar no diretor, seu trabalho atrás das câmeras surge bem mais contido do que em suas obras anteriores. Não há aqui a profusão das tomadas em slow motion vistas em 300 e Watchmen ou mesmo os desconcertantes planos que focam a anatomia dos personagens. Por outro lado, a câmera tremula e o excesso de cortes atrapalha a compreensão das cenas de ação, onde não raramente ficamos sem entender ao certo o que está acontecendo e com quem. Claro que o senso estético de Znyder continua apurado e a composição de certos quadros – o primeiro voo do herói, com a Terra ao fundo ou o plano que mostra Clark ainda garoto com uma capa vermelha às costas – impressiona por sua beleza.

Ganhando pontos por iniciar de forma satisfatória um universo cinematográfico passível de ser melhor explorado futuramente e em conjunto com outros personagens, O homem de aço pode até não ser o grande filme que muitos esperavam, mas, ao menos há a chance de uma eventual continuação o ser.


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