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Crítica: A Torre Negra

O filme é demasiadamente pretensioso apenas por sua imagem prévia e não deixa que sua grandiosidade fale por si só, pelo contrário, ele força ela – resultando em um filme que tenta ser mais do que aquilo que ele de fato é.
Crítica: A Torre Negra

Stephen King disse uma vez que sua saga de oito livros, A Torre Negra, era seu maior trunfo, sua obra prima. Até então, ninguém havia ousado em adaptar tal grandiosidade literária para as telas de cinema, por se tratar de uma história extremamente comprida e desenvolvida – o que certamente seria um grande desafio transformar em um filme, e consequentemente, conseguir espaço para uma nova franquia cinematográfica em uma indústria saturada delas. Adotando o mesmo nome – e sem algum indício de que haverá sequência no título –, o longa-metragem ganha a difícil missão de introduzir um novo mundo e adere uma posição ambígua: tenta roteirizar a narrativa para que todos, tanto os fãs do livro de King quanto quem nunca leu, entendam e aproveitem a história. E com uma duração demasiadamente curta, o filme tropeça em suas próprias pernas pela pressa excessiva e acaba justamente quando começa a explorar mais seu universo.

É importante lembrar que o longa-metragem de Nikolaj Arcel (O Amante da Rainha e Kongekabale) foi apresentado mais como uma sequência aos livros de King do que uma adaptação propriamente dita, há inúmeros elementos diferentes e até personagens essenciais da obra literária que não aparecem na cinematográfica. Misturando elementos da fantasia, horror e ficção apocalíptica, A Torre Negra tem uma vasta narrativa para ser explorada – mas infelizmente, isso ficou para os próximos filmes.

Existem vários mundos e universos, e todos são protegidos pela Torre Negra, que permanece no centro de todos. Caso essa torre seja destruída, milhares de monstros sobrenaturais irão invadir os mundos, um por um, transformando tudo em escuridão e fogo. No Mundo Médio, alternativo ao mundo normal, existe um feiticeiro que quer destruir a Torre, causando assim um total caos. O Homem de Preto (Matthew McConaughey) é um mestre em magia, líder dos homens sem rosto e quem pretende causar a desordem entre os mundos. A fim de protege-la, existe Roland Deschain (Idris Elba), o último Pistoleiro de uma antiga ordem de regimento rigoroso – o principal inimigo do feiticeiro e imune aos seus truques de mágica. No mundo normal, Jake Chambers (Tom Taylor) é um garoto comum que mora com sua mãe e padrasto no Brooklyn, e que constantemente tem sonhos que envolvem o Mundo Médio e o seu, o Mundo-Chave. Desacreditado por todos, ele passa a desenhar tudo o que vê em seus pesadelos para montar o quebra-cabeça que lhe é mostrado em fragmentos, até que de repente, ele começa a manifestar poderes psíquicos.

A Torre Negra é a literal introdução ao mundo e aos personagens; o problema é que ele leva essa ideia ao pé da letra. Devido à imensa carga narrativa do livro, era preciso uma explicação coerente e bem estruturada para introduzir a trama e envolver todos os espectadores – os que já são fãs dos livros e aqueles que ainda não os leram – e fazer ninguém ficar perdido no meio do longa-metragem. No entanto, são tantas explicações que deixam a introdução do filme mais longa do que deveria, e excessivamente truncada e repetitiva. São dois terços de pura explanação e quando o longa-metragem finalmente engrena, a solução é rapidamente encontrada e realizada, caindo em um perigoso clichê. O roteiro, escrito por quatro pessoas – Nikolaj Arcel (também diretor do filme), Akiva Goldsman (Eu Sou a Lenda), Anders Thomas Jensen (Men & Chicken) e Jeff Pinkner (A Quinta Onda) –, é mal estruturado e isso se torna o grande vilão para a narrativa se tornar cansada e reiterada.

Há uma incômoda construção rasa de personagens, impedindo uma aproximação sentimental maior do espectador – não familiarizado com os livros – e a narrativa acaba por deixar Roland, um dos personagens centrais do livro, como coadjuvante para abrir espaço para focar no pequeno Jake. Idris Elba acaba perdendo muito de sua importância por isso, mas não decepciona com sua atuação. Matthew McConaughey tem um ar perfeito para vilão, e como o Homem de Preto ele consegue retratar um personagem misterioso e poderoso – o problema é que não há uma construção que ousa ir além disso. As cenas do Pistoleiro em ação são visualmente impressionantes e os truques de mágica do Homem de Preto são muito interessantes – os elementos mais fortes apresentados por eles.

O dinamarquês Nikolaj Arcel realiza uma boa direção, conseguindo sintonizar os elementos da obra original em sua adaptação para as telas. Ele consegue construir cenas clássicas de um filme de ficção, sem perder o toque da narrativa. A fotografia de Rasmus Videbæk (O Amante da Rainha e Desajustados) é cuidadosa, os tons de cores da paleta são levemente escuros e possuem um contraste inteligente ao alternar entre os dois mundos. Sua cinematografia é dinâmica com takes regulares, prezando altamente enquadramentos simples.

A trilha sonora é um elemento que não deu certo, composta de músicas sem originalidade, enjoativas e excessivas em certos momentos – configurando-se bem desnecessárias. O término da luta entre o Pistoleiro e o Homem de Preto ao som de uma música clichê de vitória é uma das várias más escolhas da trilha. A montagem final é um pouco excessiva, com muitos cortes desnecessários nas cenas de luta – não tardando para cansar. Há referências sutis a outros filmes do Stephen King, como um letreiro antigo com os dizeres “Pennywise” de It – A Coisa e uma foto do Hotel Overlook de O Iluminado aparece em cima da mesa do psiquiatra de Jake, vários easter eggs interessantes e que prestam uma homenagem à teoria de que todos os livros do autor estão interligados.

O filme é demasiadamente pretensioso apenas por sua imagem prévia e não deixa que sua grandiosidade fale por si só, pelo contrário, ele força ela – resultando em um filme que tenta ser mais do que aquilo que ele de fato é. A Torre Negra é um filme que consegue entreter e completar apenas um propósito da adaptação: introduzir um novo mundo. O (grande) problema é que ele emperra aí, quando poderia ter sido muito mais. Além de cair em erros bobos como má construção de personagens e um desfecho “fácil” demais. Em uma franquia não pode – e nem deve – existir um filme-ponte, realizado apenas com o intuito de criar bagagem para o próximo filme, ainda mais se tratando na representação de uma obra grande e com tanta informação narrativa como a de Stephen King. Inevitável não pairar o gosto amargo de que poderia ter sido muito melhor.


Divulgaí

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