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Crítica: Planeta dos Macacos - A Guerra

Matt Reeves fecha esta trilogia de maneira bastante satisfatória, não devendo nada quanto espetáculo e quanto história, fazendo jus ao rico material da qual se originou, provando que mesmo em uma grande produção repleta de exigências comerciais, é possível dar às imagens significados bem mais interessantes do que se imaginava.
Crítica: Planeta dos Macacos - A Guerra

Desde quando o cinema se iniciou como linguagem, os teóricos, se baseando no estudo da semiótica em outras artes e a aplicando às obras cinematográficas, notaram que toda imagem captada por uma câmera e absorvida por um expectador passa por um processo de significação. Simplificando, equivale dizer que algo que é filmado e transmitido, automaticamente ganha um discurso a mais do que simplesmente aquele do objeto real.

Quando o cineasta Franklin J. Schaffner foi incumbido de realizar a primeira adaptação da obra literária Planeta dos Macacos, do escritor francês Pierre Boulle, certamente se viu diante de um material rico em significados. Se beneficiando de uma obra original repleta de alegorias, a versão cinematográfica de 1968 foi um marco na ficção científica e trazia uma história que funcionava muito bem como uma narrativa popular sem jamais desperdiçar seu potencial temático. Aliás, potencial que, novamente, vem sendo explorado com frescor e eficiência nesta nova trilogia iniciada em 2011. Fechando um arco dramático poderoso que envolve uma orgânica construção de protagonismo, iniciada há dois filmes, Planeta dos Macacos: A Guerra encerra não só a história de César e sua revolução, mas, também, extrai um ótimo resultado moderno ao unir uma história densa com um entretenimento de qualidade.

Na terceira e última parte da história, César (Andy Serkis) já é reconhecidamente um grande líder e se torna um símbolo para a revolução símia e uma crescente ameaça para um impiedoso coronel (Woody Harrelson) e seus soldados, que têm o único objetivo de caçar os macacos incessantemente. Agora, a guerra está em seu auge e César terá de enfrentar os humanos e, sobretudo, seus conflitos internos a fim de impedir a derrota definitiva de sua raça.

Se fiz questão de incluir “conflitos internos” na descrição deste novo longa, é por causa de sua notável abordagem em relação aos seus principais personagens. Afinal, essa nova saga sempre entendeu que sua trama só seria tão convidativa o quanto seus personagens fossem inspiradores. Se no primeiro filme o núcleo da história dividia tempo entre a família adotiva humana de César e sua trajetória de descoberta, nas continuações, passamos a acompanhar e torcer cada vez mais para os símios; mais importante, passamos a nos importar com eles. Sendo humanos ou não, os protagonistas da trilogia são uma prova de que é possível trabalhar o fenômeno da identificação enquanto se tem uma forte base de personagens.

E aqui eles se revelam o maior trunfo não só do filme, mas de toda a saga. Jamais soando apenas como dispositivos para alavancar a trama, assim como acontece com alguns personagens humanos, os macacos são “criaturas” multifacetadas, sensíveis e determinadas. Munidos de características que observamos em nossos semelhantes, mas sem deixar de adaptá-las para as nuances não humanas, os macacos ganham nossa total identificação, mesmo sendo, aparentemente, bem diferente de nós. É essa grande capacidade de instigar empatia no expectador, através da figura de animais que julgamos inferiores em nossa realidade, que faz com que os humanos sejam a ameaça a ser derrotada e o inimigo a ser decifrado. O maior mérito deste e dos outros filmes é mudar a ótica de uma espécie para a outra fazendo com que as semelhanças se revelem mais evidentes do que pensávamos.

O trabalho do diretor Matt Reeves (Planeta dos Macacos: O Confronto) vai, portanto, na direção de despertar nossa sensibilidade quanto aos conflitos de César e seus semelhantes. A julgar pelo subtítulo do filme, tem-se a impressão que o filme foca nas batalhas em si, mas o fato é que o diretor prefere que acompanhemos os conflitos internos gerados pelos embates morais das duas espécies. Em certo momento, por exemplo, os símios são obrigados a decidir o destino de uma criança humana sobrevivente de uma batalha – a sequência, aliás, faz uma ótima rima temática com o primeiro filme, quando o cientista Will Rodman (James Franco) se vê compelido a tomar conta de um César apenas bebê; agora, já adulto, ele se vê numa situação bem semelhante, apesar de estar sob um grau muito maior de pressão psicológica. Num outro momento, é interessante observar como os macacos, agora evoluídos (na biologia, a expressão não é sinônimo de “melhores”, e sim de “modificados”), se veem diante de sentimentos como traição, perda e pena, os transformando, novamente, num reflexo muito semelhante de nós mesmos.

Claro que para a nossa total identificação, é impossível não reverenciar o trabalho excepcional da Weta Digital. Com uma evidente evolução (aqui sim é “melhora”) em relação ao filme de 2011, todos os macacos do longa são absolutamente críveis, não só não sua movimentação, mas, principalmente, nas expressões faciais. Elogiar o trabalho de Andy Serkis já é chover no molhado, portanto, basta estender suas qualidades aos outros atores que trabalham com a captura de movimentos: em contraposição ao seu tamanho, Maurice é interpretada por Karine Konoval com expressões doces, quase maternas (mesmo sendo macho, o que contrariava meu achismo desde 2011); no alívio cômico, Steve Zahn confere uma inocência aliada ao humor que transforma Macaco Mau num ótimo personagem; e o próprio Serkis, que continua fazendo com que César seja um protagonista emocionalmente tridimensional, cujos conflitos são todos identificáveis sem que haja necessidade de exposição. Como se não bastasse, além da movimentação, a textura dos símios digitais ganham um realismo admirável, desde a perfeição nas gotas de chuva interagindo com os pelos até a naturalidade nos rostos, cujas expressões poderiam ser confundidas com uma maquiagem prática.

Com todas as qualidades técnicas, este 3º filme da saga poderia correr o risco de ser apenas visualmente interessante, o que não acontece devido à sobriedade na direção de Watts e ao bom trabalho do roteiro de Mark Bomback, com a colaboração do diretor. Como dito antes, o filme acerta em não transformar a jornada final dos macacos em um filme puramente de ação, mas, também, em manter o necessário na sua profundidade em questionamentos relevantes, similares àqueles vistos há quase 50 anos. Além de trabalhar muito bem em tornar personagens e uma trama distópica num exercício de empatia, ainda nos questionamos acerca da própria natureza humana em relação às classes que considera inferiores, além de refletir sobre o instinto violento e intolerante do homem com outras espécies, e com a própria. Não só as camadas na história, mas a iconografia também se revela forte, o que fica evidente, por exemplo, na gradativa construção da imagem de César como um messias futuro em meio a um cenário que copia os campos de trabalhos forçados de nossa própria história.

A sensibilidade de Reeves com a câmera e com o tom, num bom equilíbrio entre a urgência e a emoção, juntamente com o roteiro, que se desenvolve bem em grande parte do filme, tornam este tão bom quanto o 2º (e superiores ao 1º). Infelizmente (asseguro que não chega a estragar o filme), no 3º ato, algumas soluções soam apressadas e um pouco inverossímeis – o desfecho, do qual não darei nenhum spoiler, traz uma ideia interessante acerca das camadas da guerra, mas também recorre a quase um deux ex machina (uma solução conveniente) durante algumas sequências importantes. Quanto ao foco no vilão, apesar de Woody Harrison transbordar carisma, nossa atração pelo personagem acaba esbarrando na pressa, e ainda que o Coronel evoque ameaça e frieza calculada, sua história depende muito mais de uma série de exposições do qualquer outro aspecto.

Porém, nada disso faz com que Planeta dos Macacos: a Guerra não seja um ótimo filme. Matt Reeves fecha esta trilogia de maneira bastante satisfatória, não devendo nada quanto espetáculo e quanto história, fazendo jus ao rico material da qual se originou, provando que, mesmo em uma grande produção repleta de exigências comerciais, é possível dar às imagens significados bem mais interessantes do que se imaginava.

Divulgaí

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