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Crítica: O Estranho que Nós Amamos

A direção de Sofia Coppola é incrível, se configurando em um dos melhores momentos da diretora. A densidade com que são construídas as cenas é impressionante e a leveza com que é carregada a trama, além da sintonia entre os atores, é verdadeiramente fascinante.
Crítica: O Estranho que Nós Amamos

Após quatro anos desde seu último longa-metragem, Sofia Coppola retorna ao cinema com uma refilmagem de O Estranho que Nós Amamos, de 1971. A diretora nunca foi de se prender a um estilo e fazer disso sua marca – como Quentin Tarantino, por exemplo –, e sempre deixou isso bem claro em seus filmes. Encontros e Desencontros, Maria Antonieta, As Virgens Suicidas, Um Lugar Qualquer e Bling Ring são filmes muito contrastantes e que buscam enfoques diferentes, então era no mínimo curioso imaginar o que ela faria com um remake em suas mãos. Sofia Coppola se tornou a segunda mulher a vencer o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes 2017 por sua refilmagem – a primeira foi a diretora russa Yuliya Solntseva, com A Epopeia dos Anos de Fogo, em 1961 –, com uma de suas melhores direções já apresentadas (se não, a melhor).

Em plena Guerra Civil, o cabo John McBurney (Colin Farrell) – um soldado da União – é ferido em combate e acaba desertando da guerra, se escondendo sozinho em um bosque. Até que Amy (Oona Laurence), uma das alunas de um internato para mulheres liderado pela Miss Martha Farnsworth (Nicole Kidman) e Edwina Morrow (Kirsten Dunst) – do lado dos Confederados –, o encontra e oferece refúgio para ele se curar. O soldado se recupera, mas ao mesmo tempo, causa alvoroço entre as meninas da casa, despertando a paixão de algumas – o que vai resultar em situações intensas.

O filme não é uma refilmagem completamente fiel ao livro ou segue os mesmos passos que a primeira adaptação cinematográfica tomou, o que o torna mais próximo da diretora – que além de dirigir, produziu e escreveu o excelente roteiro. A grande característica de O Estranho que Nós Amamos é a construção gradativa da narrativa, onde o filme poderia facilmente ser dividido por três atos com pequenas reviravoltas, se equilibrando em uma história poderosa de época abordando as relações humanas levadas ao ápice, algo que a diretora sempre conseguiu abordar de maneira fascinante em seus trabalhos prévios. O pensamento inicial do espectador em relação ao filme, será extremamente diferente do final, graças à estruturação cuidadosa do roteiro de Coppola. E a forma que as personagens são abordadas é metódica por mostrar como são multifacetadas, surpreendendo por tamanhas camadas de complexidade.

A tensão – tanto sexual, quanto psicológica – são abordadas de maneira intensa, prezando elementos visuais sem depender tanto dos diálogos. A diretora abre, de maneira inteligente, espaço para o uso de simbolismos, como pequenas analogias – como a queda do lustre, quando uma simples corda arrebentada demonstrava como um simples ato é capaz de destruir até mesmo algo tão organizado e aparentemente intocável. A abordagem de época se apoia em uma ótima escolha de figurinos (poucos, porém muito apropriados) e em uma fotografia escura de Philippe Le Sourd (O Grande Mestre e Sete Vidas), um pouco ofuscada por fortes feixes claros de luz nas cenas no quarto do soldado, que incomodam o enquadramento visual. Sua cinematografia preza planos levemente amplos, sobretudo o primeiro plano, sem se focar em detalhes e buscando um enfoque diretamente nas pessoas.

A direção de Sofia Coppola é incrível, se configurando em um dos melhores momentos da diretora. A densidade com que são construídas as cenas é impressionante e a leveza com que é carregada a trama, além da sintonia entre os atores, é verdadeiramente fascinante. Nicole Kidman como a rígida líder do internato feminino, Miss Farnsworth, é a grande atuação do filme, logo ao lado de Colin Farrell como o cabo McBurney. As facetas de ambos são cruciais para certos momentos intensos da trama – tanto raivosos, como frios. Kirsten Dunst não fica para trás e entrega uma atuação competente, já acostumada a ser dirigida por Coppola. Ellen Fanning como uma das alunas, Alicia, está levemente ofuscada em segundo plano – tendo poucos momentos. A montagem por Sarah Flack (Encontros e Desencontros e Maria Antonieta) é limpa e objetiva, com cortes na medida e prezando takes relativamente longos. A trilha sonora, composta pela banda indie Phoenix, apresenta poucas músicas – todas instrumentais – que se encaixam perfeitamente em cada momento em que foi colocado.

A cada vez que Sofia Coppola anuncia um filme, é normal se surpreender com o que a diretora vai produzir. Ela já trabalhou com uma cinebiografia de uma rainha polêmica, com as crises existenciais de duas pessoas no Japão e sobre adolescentes cometendo roubos na casa de famosos em Hollywood. Sempre é uma surpresa e o resultado nunca é algo decepcionante. A diretora consegue trabalhar com diversos elementos diferentes, sem nunca perder sua originalidade e sua sensibilidade em retratar as relações humanas de forma simples e única. Seguindo uma linha esteticamente linda e estruturalmente perfeita, O Estranho que Nós Amamos certamente entra nos melhores filmes de Coppola – e nas melhores refilmagens já feitas.


Divulgaí

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