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Crítica: De Canção em Canção

O roteiro de Terrence Malick, apesar de seguir os mesmos passos de seus últimos filmes, é uma leve surpresa.

“Ame ou odeie”. Lembrando as reações de Amor Pleno, Cavaleiro de Copas e A Árvore da Vida, o cineasta Terrence Malick pode ser bem definido por essa frase. Um diretor fora dos eixos hollywoodianos que busca alcançar o elo perfeito entre cinema e sensibilidade, com ares modernos de poesia. Um diretor que por buscar sua própria originalidade, um tanto ousada, tem seu cinema visto por muitos como “vazio”. Mas que na verdade, é bem pelo contrário.

De Canção em Canção, o mais novo longa-metragem de Terrence Malick, (re)utiliza a mesma fórmula dos filmes anteriores. Cenas fragmentadas, vozes em off, movimentos de câmera “chicote” e elenco reforçado. Em seu lançamento em 2011, A Árvore da Vida foi aclamado por muitos e conquistou muitos prêmios. Seus próximos dois filmes não foram tão sortudos assim, talvez por caírem na mesma mesmice, foram facilmente esquecidos (ou ignorados). Há uma característica extremamente importante em A Árvore da Vida, que se assemelha à De Canção em Canção. Mas não é um fator explícito. Está escondido nas entrelinhas do filme (e não do roteiro). E é nada menos do que o sentimento. Se A Árvore da Vida retratava o ciclo natural, a família e origem da vida de forma intensa, De Canção em Canção é sobre a vida, o amor, os arrependimentos, os descobrimentos e as coisas momentâneas de forma, novamente, intensa.

A dinâmica e espontaneidade entre os personagens do triângulo amoroso principal são essenciais para as cenas “soltas” e fragmentadas, cuja transição de cada uma é inteligentemente montada, resultando em arcos específicos. A ingênua Faye (Rooney Mara), o ambicioso Cook (Michael Fassbender) e o prodígio BV (Ryan Gosling) são os protagonistas dos ensaios do filme, atuando ora juntos, ora separados. A sintonia entre os atores é primordial para a naturalidade das cenas, todos confortáveis em seus papéis. A montagem e edição, paradoxalmente executadas de maneira complexa e simples, são cruciais para as cenas transmitirem o que desejam. Além disso, constroem a estrutura do filme, que ao todo, é belíssima. As vozes em off, transmitindo os pensamentos dos personagens, são carregados de reflexões sobre a vida com um leve quê de poesia – ajudando o espectador a se aproximar cada vez mais de cada um, a se identificar com a ousadia de um, a se enojar com a ganância de outro. As breves, porém, marcantes, presenças de Natalie Portman como Rhonda e Cate Blanchett como Amanda merecem destaque por seu impacto na personalidade de dois personagens.

A fotografia, executada pelo premiado Emmanuel Lubezki (O Regresso, Birdman e Gravidade), prioriza a luz natural – principalmente, em horas onde a luminosidade é forte, como os raios do sol e o céu bem azulado – parar destacar a naturalidade da trama. Os movimentos de câmera “chicote”, onde a câmera age num vaivém constante, buscam o efeito de proximidade entre os personagens e o espectador. A trilha sonora que, obviamente, não poderia decepcionar, é maravilhosamente delicada. Contando com música clássica e canções desde Bob Dylan até The Stooges, a trilha eclética segue o fluxo dos arcos fragmentados e sua compatibilidade é impressionante, levando a uma excelente ambientação. Além de participações especiais de Patti Smith, Florence Welsh, Iggy Pop e Lykke Li.

O roteiro de Terrence Malick, apesar de seguir os mesmos passos de seus últimos filmes, é uma leve surpresa. A fragmentação da história é uma característica que afasta muitos espectadores. E para não perder o “rumo” para o qual essa se destina, é preciso de muito cuidado. Felizmente, De Canção em Canção não tropeça e tem seu roteiro muito bem amarrado, que conduz sutilmente os diálogos “soltos”. A excelente direção de Malick neutraliza todas as características (principalmente as técnicas) e as unem como uma só, deixando um filme amplo e compacto ao mesmo tempo.

No fim, o novo longa-metragem de Terrence vai dividir opiniões novamente. Talvez por seu final subjetivo ou por colocar em prática (novamente) a originalidade do diretor. Sua história, partindo agora para o lado moderno, mas buscando as questões mais antigas da vida, não contam apenas um “lado”. Contam vários lados. Diferentes, novos, feios, nostálgicos. Como se determinadas partes da vida de cada personagem fosse uma canção diferente – buscando a playlist mais eclética possível. Sendo assim, De Canção em Canção se molda como um filme experimental, focado em regressões sobre a vida (e tudo mais), colocado de canção em canção.

Divulgaí

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