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Lista Interativa – Os Filmes de Edgard Wright

Edgar Wright, o cineasta que possui uma criatividade ÍMPAR, e que presenteou os cinéfilos do mundo inteiro com a Trilogia Sangue e Sorvete (ou Trilogia Cornetto, como também é conhecida); onde se incluem Todo Mundo Quase Morto, Chumbo Grosso e Heróis de Ressaca.
Lista Interativa #4 – Os Filmes de Edgard Wright

Abril é um mês muito especial meus amigos Loucos por Filmes. No dia 18 nós comemoramos o aniversário de Edgar Wright, o cineasta que possui uma criatividade ÍMPAR, e que presenteou os cinéfilos do mundo inteiro com a Trilogia Sangue e Sorvete (ou Trilogia Cornetto, como também é conhecida); onde se incluem Todo Mundo Quase Morto, Chumbo Grosso e Heróis de Ressaca.

Apesar dos PÉSSIMOS títulos nacionais, cada um dos filmes dessa trilogia brinca de forma inteligente, e respeitosa, com um gênero específico do cinema, e consequentemente seus filmes mais famosos. E apesar de Shaun of the Dead já ser um clássico indiscutível, Hot Fuzz e The World’s End demonstram que aquele primeiro grande longa de Wright não foi apenas uma tacada de sorte. Além disso, Wright também dirigiu Scott Pilgrim Contra o Mundo, baseado na cultuada revista em quadrinhos de Brian Lee O‘Malley.

Considerado como perfeccionista por aqueles que trabalham com ele, Edgar Wright tem como maiores influências longas como Um Lobisomem Americano em Londres, Corra, Lola, Corra; Os Caçadores da Arca Perdida, Dirty Harry, The Evil Dead, Três Homens em Conflito, Fervura Máxima e Arizona Nunca Mais. Assim como Quentin Tarantino, Brian de Palma, Martin Scorsese e John Carpenter (só para citar alguns exemplos), Wright é um apaixonado por cinema que usa seu conhecimento sobre a sétima arte para se fazer “autor” e criar sua assinatura pessoal. O diretor britânico também sempre traz em seus filmes um tom cômico que remete a Monty Phyton e os trabalhos do autor Douglas Adams (O Guia dos Mochileiros da Galáxia).

Wright possui uma veia autoral tão forte em seu cinema que, mesmo após passar anos desenvolvendo o filme do Homem-Formiga para a Marvel, ele foi afastado da produção por motivo de “diferenças criativas”, apesar de ainda ter recebido crédito de roteirista. Na verdade, o estúdio queria garantir sua estética e narrativa “padrão” e totalmente comercial, não querendo apostar na visão particular e desafiadora que Wright estava propondo. Ou seja, a Marvel quis continuar fazendo mais do mesmo, e deixou de presentear seus fãs com um produto de revista em quadrinhos do mesmo cineasta que trouxe ao mundo Scott Pilgrim Contra o Mundo. Bola fora da Marvel! Wright também escreveu o roteiro de As Aventuras de Tintin, dirigido por Steven Spielberg.

Criando uma parceria criativa nos roteiros com o amigo e ator Simon Pegg (o Scotty da nova fase de Star Trek), Wright começou seu trabalho de direção na TV, dirigindo episódios para seriados como Spaced e Asylum. Apesar de Shaun of the Dead ser seu primeiro grande filme lançado nos cinemas, Wright já havia dirigido um curta-metragem em 1993 (Dead Right) e um longa independente em 1995 chamado A Fistful of Fingers. Ambos não tiveram lançamento comercial, embora o último possa ser encontrado como “extra” em algumas edições de Hot Fuzz em DVD.

Apesar de nunca ter sido um GRANDE sucesso nas bilheterias, Edgar Wright sempre foi muito bem reconhecido pela crítica, ganhou fama e respeito pelos fãs do cinema fantástico e ainda angariou uma legião enorme de fãs que cultuam suas obras. O cineasta já ganhou 10 prêmios internacionais por sua direção e trabalhos em roteiros, tendo sido indicado a outros 28 prêmios, incluindo BAFTA Awards, Saturn Awards, Empire Awards e o Online Film Critics Society Awards.

No Brasil, nós que somos fãs do diretor sempre fomos desafortunados. Nenhum dos filmes da Trilogia Sangue e Sorvete chegou aos cinemas das terras tupiniquins; enquanto Scott Pilgrim Contra o Mundo só foi exibido em alguns cinemas selecionados em São Paulo e Rio de Janeiro, já que foi um fracasso de bilheteria nos EUA. De qualquer forma, todos os filmes do diretor chegaram em home video; além de seu mais novo filme, Em Ritmo de Fuga, estar tendo bastante publicidade nas redes sociais aqui no nosso país.

Em comemoração ao aniversário de Edgar Wright no mês de abril, e aos 10 anos de lançamento que Chumbo Grosso está completando agora em 2017, nós de Loucos por Filmes pedimos para vocês, nossos queridos leitores, que escolhessem seu filme preferido do diretor.

A enquete contou com 3270 votos dos frequentadores do site. Para o desempate de filmes que receberam a mesma quantidade de votos, foi utilizada uma média das notas que os filmes receberam no “Rotten Tomatoes” e no “IMDb”.

Portanto, peguem seu taco de críquete, coloquem músicas do “Sex Bom-Omb” na playlist, garantam bastante cornettos e encontrem um pub estratégico para se proteger do apocalipse! A retrospectiva da carreira de Edgar Wright começa agora!


4 – Chumbo Grosso (Hot Fuzz, 2007)

10% dos votos

Todo Mundo Quase Morto fez tanto sucesso depois que foi lançado que seria inevitável Edgard Wright e Simon Pegg seguirem com o mesmo estilo de paródia frenética e divertida de gêneros famosos. Na verdade, a intenção inicial seria criar outro filme com Shaun, Ed e os demais personagens de Shaun of the Dead envoltos com outro tipo de monstro. Cogitaram até a utilizar vampiros, dando o título para a sequência de From Dusk Till Shaun, alusão clara a From Dusk Till Dawn (Um Drink no Inferno). Porém, a dupla de roteirista achou que seria repetitivo apostar no viés do terror novamente, preferindo investir em gêneros diferentes.

Como resultado, três anos após o lançamento de Shaun of the Dead estreou a sequência Hot Fuzz, que trazia de volta Simon Pegg e Nick Frost como uma dupla protagonista que parodiam, desta vez, o cinema policial e de ação; desde Perseguidor Implacável até Bad Boys II.

Da mesma forma que no filme anterior, o roteiro de Hot Fuzz não se apenas sustenta na paródia de cenas e momentos de filmes de ação famosos. Wright e Pegg têm sabedoria para criar uma trama que sirva para apresentar e desenvolver seus personagens, tornando-os caros ao espectador e criando um vínculo de empatia forte. E é justamente essa credibilidade e carinho que temos por aquelas figuras que mantém nosso interesse pelo mistério que ronda o filme. E daí vem outro aspecto importante da narrativa, já que os roteiristas acertam ao apostar em uma trama policial tão absurda quanto as vistas em longas como Comando para Matar e Stallone Cobra, contrastando com a genuinidade dos personagens principais como uma forma de humor bastante efetiva.

A começar pelo protagonista vivido novamente por Simon Pegg, que leva sua profissão tão a sério que não consegue deixar de ser crítico e autoritário nem em sua vida pessoal – reparem na inesperada reação de sua namorada (ponta de ninguém menos que Cate Blanchet) quando descobre que ele será transferido. Pegg aposta em expressões duras e intimidadoras para o Oficial Angel, que parece evocar o trabalho de Edward Woodward (que, inclusive, atua em Hot Fuzz) no clássico cult O Homem de Palha; até porque a trama de suspense do filme lembra bastante a sensação de conspiração dessa obra. Angel tem a arrogância e trejeitos presunçosos de detetives famosos da literatura como Sherlock Holmes e Hercule Poirot, o que garante muito humor, já que ele é colocado em situações ridículas no vilarejo em que trabalho, como a impagável busca do ganso perdido.

A extrema seriedade com que Angel age em seu ofício também gera uma divertida sátira com a personalidade “padrão” de policiais de filmes de ação, já que personagens como Riggs (Mel Gibson) de Máquina Mortífera e Chance (William Petersen) de Viver e Morrer em Los Angeles nunca foram profissionais corretos e exemplares.

Nick Frost tem a oportunidade de escancarar da forma mais honesta o papel do aprendiz. Sempre com um entusiasmo que beira o infantil, o “pequeno” Danny ganha nossa simpatia tanto pelo bom coração (o modo atencioso como tenta enturmar Angel é adorável) quanto pelo modo como vangloria o parceiro e sua profissão. Não à toa, Danny é viciado em filmes policiais e de ação, como Caçadores de Emoção e Bad Boys II, o que denuncia sua mente sonhadora e contrasta com sua rotina patética.

Mas não somente a dupla de atores brilha novamente com sua química sempre hilária, como também os coadjuvantes. Enquanto Timothy Dalton (o ex-007 mais subestimado) acerta em cheio na atuação canastra (com direito a bigodinho de Dick Vigarista e sorrisinho sarcástico), Jim Boradbent (que assim como Dalton, teve o papel escrito especialmente para ele) traz sua persona de sabedoria agradável para nos surpreender. Já a dupla de detetives interpretada por Paddy Considine (que também esteve em Heróis de Ressaca) e Rafe Spall (Prometheus) roubam a cena por apresentarem uma versão debochada, “suja” e divertidamente irritante de Dupont & Dupond, os dois detetives do universo de Tintin. Não deixem de prestar atenção, também, na ágil e engraçada participação de Martin Freeman, Steve Coogan e Bill Nighy como os três superiores de Angel, no início do filme.

Como não poderia deixar de ser, a direção de Edgar Wright continua tão precisa quanto no filme anterior. Desde o início do filme, quando aposta em uma montagem digna de trailer de filme de ação (com direito a uma narração “dramática”), o diretor usa seu estilo de humor frenético cheio de timming para brincar com os filmes que referencia. É engraçado ver como Wright utiliza a montagem desconexa, com fotografia granulada e flares famosos de Tony Scott em momentos inapropriados (como ao registrar boletim de pequenos infratores). Além disso, o diretor ainda ironiza a rotina policial daquele pequeno vilarejo ao utilizar cortes rápidos e zooms no melhor estilo Sam Raimi, o que se limita ao momento de arrumação para ir embora da delegacia (!). E a trilha sonora de David Arnold (007 – Cassino Royale) ainda acentua o ridículo das situações, ao sempre apostar em tons emocionantes e trágicos para situações pífias, como a apreensão das armas de um fazendeiro com um dialeto próprio (outra ótima pidada).

A fotografia de Jess Hall, que também trabalhou em Grindhouse, também é inteligente ao apostar em um tom frio e impessoal, com poucas cores, para retratar a cidade grande no início do filme, em contraste com as cores mais quentes e agradáveis que vão ganhando vida à medida que Angel vai ganhando um escopo emocional maior.

Wright, como GRANDE fã de horror, não deixa de fazer suas referências ao gênero aqui também, já que as cenas de assassinato utilizam filtros de cores vibrantes (como vermelho e azul) que remetem à estética de Mario Bava e Dario Argento; bem como o gore, os planos detalhes nas armas e os zooms nos rostos apavorados das vítimas. Há até uma brincadeira com os temas de sci-fi dos anos 50 (quando uma BIZARRA morte ocorre próximo a uma igreja) e com Christine – O Carro Assassino, com as canções sugestivas que tocam no rádio do carro de Skinner (Timothy Dalton).

Sempre adepto à metalinguagem como recurso narrativo, Wright acerta ao, por exemplo, utilizar cenas de Bad Boys II e Caçadores de Emoção para comentar as próprias situações do filme de forma muito irreverente. Aliás, as frases de feito no estilo Duro de Matar (“Yippee-ki-yay, mother fucker!”) não poderiam faltar aqui, e ganham uma sátira HILÁRIA em um diálogo em que os protagonistas, em meio a um tiroteio, discutem quais seriam mais cabíveis naquelas situações. Sem contar que Wright não deixa piscar os olhos para a plateia ao utilizar marcas registradas de outros diretores, como a câmera circular angulada de Michael Bay ao redor dos heróis, e até o slow motion com pássaros voando ao redor, assim como John Woo.

Caracterizando o protagonista com óculos aviador e palito de fósforo na boa no melhor estilo Stallone Cobra, Hot Fuzz reserva um amontoado de ação nervosa no último ato, trazendo tudo que tem direito. Desta forma, não faltam os saltos laterais com tiros, planos detalhes de cartuchos caindo, explosões, perseguições de carro e até um personagem pulando na frente do outro para salvá-lo de um tiro. Tudo com um tom cartunesco que lembram, em momentos, as comédias paródicas de Mel Brooks, como O Jovem Frankenstein, Banzé no Oeste e S.O.S. – Tem Um Louco Solto no Espaço.

Hot Fuzz foi outro enorme sucesso de bilheteria, o filme rendeu $80 milhões de dólares para um investimento de £8 milhões. O filme concorreu a 10 prêmios mundiais, tendo vencido o de Melhor Filme de Comédia no Empire Awards UK e National Movie Awards UK.

Quase chegando a genialidade de Shaun of the Dead, Hot Fuzz continuou a Trilogia Sangue e Sorvete com a irreverência, inteligência e dinamismo do cinema de Edgar Wright. Poucas vezes uma paródia foi tão divertida.

IMDb: 7,9/10. Rotten Tomatoes: 91%.


Dica de outro filme de comédia/ação com Nick Frost: Ataque ao Prédio (Attack the Block, 2011) de Joe Cornish.


3 – Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pilgrim vs. The World, 2010)

20% dos votos

O primeiro trabalho de Edgar Wright que não é baseado em uma criação própria, e sim uma série de HQs escritas por Brian Lee O’Malley, traz a energia, a irreverência e o frenesi habitual do diretor. Scott Pilgrim Contra o Mundo é daqueles filmes, assim como Guerra nas Estrelas, De Volta para o Futuro e Kill Bill, já nasceram para compor mais uma página da enciclopédia de Cultura Pop.

O terceiro grande longa-metragem de Edgar Wright, na verdade, pode ser considerado, ironicamente, o “filme de videogame” mais bem realizado do cinema, já que o diretor adaptou os ícones da estética e linguagem de games para o cinema de forma eficiente em sua narrativa, como nenhum outro filme havia feito; talvez apenas o excelente Terror em Silent Hill. Afinal de contas, as franquias Mortal Kombat e Resident Evil, Super Mario Bros, Street Fighter, Doom – A Porta do Inferno, D.O.A. – Vivo ou Morto, O Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo, Warcraft – O Primeiro Encontro de Dois Mundos e até o recente Assassins Creed, sempre se equivocaram ao adaptar a linguagem, ou até mesmo ao privilegiar a ação sobre o roteiro. Isso sem contar as infames obras “cometidas” pelo alemão Uwe Boll, que fez o desserviço de adaptar House of the Dead e Alone in the Dark, com uma incapacidade vergonhosa de esmero artístico.

Sim, Scott Pilgrim Contra o Mundo traz a estética de quadrinhos de forma espirituosa, como ao repartir os quadros para mostrar eventos diferentes e até ao usar letreiros com comentários irônicos a respeito das cenas. Wright faz um trabalho tão progressista quanto Ang Lee no subestimado Hulk e as Irmãs Wachowski no também subestimado Speed Racer. E a grande diferença de todos esses talentosos diretores é fundir organicamente os elementos de outra linguagem ao cinema. Confira, por exemplo, como Wright utiliza divisão de quadros deslizando sobre a tela como se fossem páginas de quadrinhos sendo passadas, no momento que Scott está dentro de um ônibus após terminar um relacionamento, e explica uma mudança de sentimentos do protagonista com criatividade e simplicidade. Ou até as “placas” que pipocam na tela para caracterizar cada um dos personagens, nos apresentando-os com humor, e criando um link divertido com as “fichas de poderes” de lutadores de games como Mortal Kombat. Aliás, todo o universo gamer absurdo do filme pode ser descrito como uma mistura das lutas de Street Fighter com o entusiasmo inocente de Super Mario Bros.

E para compor esse grandioso universo, nada mais justo que personagens “maiores que a vida”; e Scott Pilgrim é um deles. Controlador do seu próprio mundo, Pilgrim domina a narrativa com muita segurança, sendo o único capaz de quebrar a quarta-parede, comentar as “placas” de outros personagens e interagir com as onomatopeias. Sempre sonhando acordado como Joel Goodsen do cult Negócio Arriscado, Pilgrim coordena as cenas como o Pernalonga fazia em suas animações. O problema é que o personagem deveria ter a presença magnética e confiante do Ferris Bueller de Mathew Broderick, com a ingenuidade dos personagens geeks de Anthony Michael Hall nos filmes de John Hughes; e Michael Cera não tem o talento suficiente para carregar toda essa personalidade. Com um bom timming cômico, o ator não se priva de apostar em expressões constrangedoras (“Bread makes you fat!?”), e até convencer nas cenas de luta (MUITO!). Porém, Cera não tem o carisma necessário para que compreendamos porque Ramona Flowers se interessou por ele.

Por falar nela, Ramona Flowers é uma personagem tão emblemática e poderosa que é capaz de dominar o filme mesmo quando não está em cena. Com um estilo indie cool, que por motivos óbvios se assemelha à figura da apaixonante Clementine de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, a Ramona de May Elizabeth Winstead (do excelente Rua Cloverfield, 10) exibe uma pose de autoconfiança invejável, apesar de não utilizar disso para sobrepor às outras pessoas (“Achei que você fosse cool demais para chega na hora”). E se seu cabelo exprime sua impulsividade, com o passar do filme Winstead consegue quebrar aos poucos a “muralha” e acrescentar tons mais emocionais e delicados à personagem, nos convencendo de seu sentimento por Scott e como ela sente por ele ter que lutar tanto para ficar com ela.

Mas assim como qualquer outro filme de Edgar Wright, todo o elenco de apoio chama atenção pelo talento. Ellen Wong (da refilmagem de Natal Sangrento) sempre rouba a cena com sua adorável Knives Chau, sendo uma interpretação tão doce (os olhares marejados e apaixonados são de partir o coração) que diminui ainda mais a empatia por Scott. E se a carismática Anna Kendrick explora bem o papel de fofoqueira cínica irmã de Scott (reparem no “nojinho” com que ela dá um cutucão em Ramona em certo momento), Aubrey Plaza (do bom Sem Segurança Nenhuma) gera risadas como a estressadíssima Julie (os olhos arregalados são idênticos às HQs). Já a “oscarizada” Brie Larson cria a caricatura perfeita de dominatrix Envy Adams, enquanto Alisson Pill (Meia-Noite em Paris) nunca deixa de nos surpreender com suas expressões hilárias como Kim. Sem contar que os “super-heróis” Chris Evans e Brandon Routh se divertem horrores como dois dos “ex malvados” de Ramona.

Assinando o roteiro em conjunto com Michal Bacall (das divertidas novas versões de Anjos da Lei), Wright nunca perde as oportunidades de desenvolver seus personagens principais. É clara a estrutura coming-of-age de Scott Pilgrim, envolvendo seu amadurecimento pessoal e valorização dos relacionamentos a cada momento que um novo “Ex Malvado” aparece em cena, e Scott e Ramona aprofundam seus diálogos.

Mas sem perder o tom de aventura fabulesca humorada (sem faltar até um narrador dramático), o que realmente chama a atenção em Scott Pilgrim é a energia INSANA com que o diretor comanda sua história. Desde a abertura 8-bit da Universal, até a contagem regressiva do final, o filme adota um clima cartunesco digno de Tex Avery que aproveita piadas de todas as fontes possíveis. Com sua tradicionais cortes rápidos e montagem dinâmica, Wright nos impressiona pela sua linguagem metalinguística surtada, que vão desde fade outs por interruptores acionados, até cortes secos com elementos do cenário que substituem o restante da fala de um personagem. As onomatopeias (há um “love” digno da lagarta azul de Alice no País das Maravilhas) e letreiros espirituosos, brilham na tela assim como nos quadrinhos. Bem como, Wright arquiteta seus planos e efeitos visuais de modo a comentar, com uma piscadela de olho, as emoções dos personagens, como no “Continue” entre Knives e Scott em determinado momento, além do gelo se derretendo aos pés de Ramona enquanto ela patina.

Demonstrando completo domínio sobre sua narrativa, Wright ainda nos entrega algumas das lutas mais surtadas que já veremos nos cinemas. Além de criar uma expectativa a partir de zooms rápidos e planos detalhes nos rostos dos atores (como uma versão debochada de Sergio Leone), o diretor entrega coreografias que nunca deixam de nos surpreender pela criatividade. Com um ritmo cartunesco intenso, cada uma das sequências de ação possui uma característica inventiva de destaque. Seja pelo uso de armas absurdas (como um martelo gigante), monstros e dragões formados por energia sonora (!) e até uma versão satírica da luta de Neo contra os Smiths “virais” de Matrix Reloaded, o filme nunca deixa de nos remeter ao lado mais divertido dos games, com direito até a vilões mortos se transformando em moedas. Mas o grande destaque vai mesmo para a impagável luta musical estilo Bollywood.

Todo o visual do filme também é digno de nota, que aposta certeiramente em uma fotografia com cores vivas bem marcadas e alegres (louros para Bill Pope, do FANTÁSTICO Homem-Aranha 2); além de um figurino com estilização forte para seus personagens, um pouco indie, um pouco hipster mas sempre cool e moderno.

Incompreensivelmente, o filme foi um fiasco nas bilheterias. Par um orçamento de $60 milhões de dólares, o filme arrecadou pouco mais da metade nos EUA. Em contrapartida, o filme foi quase uma unanimidade entre os críticos e especialistas. O filme chegou a ganhar 17 prêmios internacionais, tendo concorrido a mais 58. Dentre os prêmios que ganhou, estão o de Melhor Diretor no Empire Awards UK, Melhor Filme Experimental pelo Internet Film Critic Society e Melhor Filme Comédio ou Musical pelo Satellite Awards.

Contando com o bom humor, carisma, ritmo alucinante e emoção características do diretor, Scott Pilgrim Contra o Mundo tem tudo o que precisa para defender seu posto de cult; além de um estilo pop marcante inesquecível.

IMDb: 7,5/10. Rotten Tomatoes: 81%.


Dica de outro filme de “boy meets girl” com humor e estilo irreverente: Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, 1977) de Woody Allen.


2 – Heróis de Ressaca (The World’s End, 2013)

20% dos votos

O fim da Trilogia Sangue e Sorvete de Simon Pegg e Edgar Wright volta ao gênero fantástico e brinca com as ficções científicas sobre dominação mundial alienígena que fizeram tanta fama nos anos 50. Com um humor quase anárquico tão interessante quanto dos outros filmes, The World’s End também não deixa de trazer “coração” para sua história, engrandecida ainda pelo carisma de todo o elenco.

O roteiro escrito por Pegg e Wright pega as versões adultas dos personagens juvenis dos filmes de John Hughes (principalmente Mulher Nota 1000 e Curtindo a Vida Adoidado) e os coloca em um universo fantasioso e ameaçador que parece uma mistura de Vampiros de Almas e As Esposas de Stepford.

Da inspiração de John Hughes a introdução do filme já condena. Filmado com uma fotografia granulada e insaturada idealmente nostálgica, The World’s End aposta em um protagonista que vivia o colegial como Ferris Bueller, e tinha em sua companhia amigos tão especiais quando os de Conta Comigo. Sem conseguir amadurecer e superar que a melhor fase de sua vida já passou, Gary King (Simon Pegg) se propõe a reunir seus antigos conhecidos e voltar à sua cidade natal, para que eles possam refazer um antigo ritual de diversão e bebedeira. Quanto chegam lá, toda a população parece ter mudado de personalidade, assim como os clones alienígenas que Jack Finney criou e gerou clássicos como Vampiros de Almas e Invasores de Corpos (1978).

Tão inteligente quanto o roteiro de Shaun of the Dead, The World’s End utiliza da dominação alienígena das pessoas e locais da cidade natal como forma de metaforizar a estranheza que sentimos ao rever pessoas e locais de nossa infância e juventude após amadurecermos e levarmos nossa vida independente em outro local. Para tal, a dupla de roteirista se utilizam de simbolismos sagazes, como o detalhe da “Starbuckização” dos pubs funcionarem como a falta de individualidade da vida adulta. Além é claro, de apresentar e desenvolver personagens que fazem com que nos importamos com suas preocupações.

O protagonista Gary King já revela uma interessante mudança de “paradigma” da trilogia. Se em Shaun of the Dead e Hot Fuzz Simon Pegg sempre interpretava o personagem mais maduro e responsável, aqui ele faz o papel inverso. E é fácil notar como um personagem é bem escrito, e seu ator tem o carisma necessário para leva-lo adiante, quando uma figura tão infantil, machista e preconceituosa quanto Gary ganha nosso carinho. Wright é hábil ao retratar as expressões de repulsa e (má) admiração dos personagens às piadas ofensivas e estúpidas de Gary. E Simon Pegg sabe dosar a eloquência nas falas de Gary para denotar que a figura é, na verdade, mais ingênua que má intencionada (como no momento que segue Sam ao banheiro). As expressões de Pegg denotam solidão e sofrimento por trás de uma falsa segurança, o que nos faz sentir pena pela figura, e consequentemente, empatia.

Já Nick Frost convence muito como o personagem maduro pela primeira vez, apostando em uma expressão rígida que esconde um grande ressentimento por Gary que só não é maior que seu carinho pelo amigo. Martin Freeman (O Bilbo da trilogia O Hobbit, e o Arthur Dent do subestimado O Guia do Mochileiro ds Galáxias) demonstra tanta simpatia quanto Paddy Considine (Chumbo Grosso), conseguindo manter o mesmo nível de humor frenético que os colegas veteranos. Já Eddie Marsan (V de Vingança) rouba alguns momentos para si com o adorável e frágil Eddie; enquanto Rosamund Pike (antes de ser a Garota Exemplar) faz de Sam uma mocinha que é dona de si.

O roteiro ainda cria vários diálogos sagazes que conseguem misturar com talento as discussões de vida pessoal que engrandecem a relação dos personagens, aos eventos fantásticos da trama do filme; com destaque para a cena de discussão entre quatro personagens, escondidos em uma edificação, que mistura a famosas cenas do “teste” de O Enigma de Outro Mundo e do cult Prova Final. O roteiro também traz elementos clássicos de sci-fi, como os robôs similares ao de As Esposas de Stepford, uma estátua-robô gigante que remete ao Gort de O Dia em que a Terra Parou (1951); e até uma espécie de holograma do líder dos alienígenas (com voz do impagável Bill Nighy) que funde de forma divertida o HAL 9000 de 2001- Uma Odisseia no Espaço e o Pensador Profundo de O Guia do Mochileiro das Galáxias.

Com sua tradicional montagem frenética que nunca perde o timming cômico (reparem na gag dos copos de cerveja se enchendo), Edgar Wright comanda o ritmo do filme com um fluxo sempre constante de empolgação. Nas cenas de ação o diretor aposta em planos-sequência que fazem a câmera “passear” entre os oponentes e as lutas com coreografias tão absurdamente divertidas quanto de Scott Pilgrim Contra o Mundo; adequadamente acompanhadas de uma trilha sonora com fortes batidas tecno. Sem contar que o diretor utiliza o tom de conspiração cínica, visto pelos planos nas expressões ameaçadores dos habitantes da pequena cidade, de uma forma propositalmente nada sutil como nos igualmente humorados Grito de Horror e Calafrios.

The World’s End ainda possui excelente trabalho de efeitos especiais. Enquanto o efeito de luzes “Lo Pan” (Os Aventureiros do Bairro Proibido) dos robôs exacerba a ameaça do arrepiante plano final de Invasores de Corpos, os fluidos azuis e as desmontagens dos robôs criam uma boa versão cartunesca da famosa cena da revelação do androide de Alien – O 8º Passageiro. Há até a referência rápida ao visual pós-apocalíptico steam-punk que Mad Max popularizou nos anos 80.

Visualmente, o filme exibe bastante coerência. O figurino de Guy Speranza (Trilogia O Cavaleiro das Trevas) utiliza detalhes em azul que denunciam as cores marcantes dos robôs, combinando também com tons de iluminação azulados e até os flares que tomam conta da tela à medida que a situação fica mais ameaçadora.

O filme representou o fim da Trilogia Cornetto, sendo que cada filme possuiu seu sabor específico. O sabor de morango (vermelho) em Shaun of the Dead simboliza o sangue em profusão e gore que marcam os filmes de zumbis. O sabor baunilha (azul) simboliza a polícia em Hot Fuzz. Já o sabor menta (verde) de The World’s End seria para simbolizar a cor tradicional dos marcianos em sci-fi clássicas.

O filme concorreu a 27 prêmios ao redor do mundo, tendo vencido cinco delas, incluindo Melhor Filme Britânico no Empire Awards. Apesar de não ter sido tão bem-sucedido em bilheterias quanto Hot Fuzz, o filme ainda foi bastante lucrativo, rendendo pouco mais de $46 milhões para um investimento de $20 milhões.

Fechando a Trilogia Cornetto com todo o carisma, energia, risadas e sentimento que Simon Pegg e Edgar Wright oferecem, The World’s End só deixa de amargo o vazio no coração dos fãs, por não saberem quando testemunharão outra colaboração ÉPICA da dupla.

IMDb: 7/10. Rotten Tomatoes: 89%.


Dica de outra comédia de alienígena com Simon Pegg e Nick Frost: Paul – O Alien Fugitivo (Paul, 2011) de Greg Mottola.


1 – Todo Mundo Quase Morto (Shaun of the Dead, 2004)

50% dos votos

Shaun of the Dead é uma carta de amor que Edgar Wright e Simon Pegg escreveram para o cinema de George A. Romero.

Se engana quem acha que o filme é uma sátira aos filmes clássicos de Romero. Não é. Wright e Pegg não estão a fim de criarem comédia pastelão no estilo do trio ZAZ (como os divertidos Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu!, Top Gang ou Corra que a Polícia Vem Aí!), que faziam chacota com filmes blockbusters da época. Muito menos apostarem em piadas rasas e “humor de banheiro” que a franquia Todo Mundo em Pânico fazia; que praticamente só geravam alguma graça para quem já conhecia os filmes satirizados.

A grande sacada do roteiro da dupla de amigos é criar um filme de comédia sobre um rapaz, sua namorada e seu amigo, dentro do universo de mortos-vivos que Romero criou no cinema; utilizando dessa ambientação inesperada para criar humor a partir da relação e reação dos personagens. Ou seja, os roteiristas respeitaram e homenagearam os filmes que amam, além de terem criado uma história original realmente engraçada que funciona tanto para os familiarizados com o cinema de Romero, quanto para o restante. O mesmo que John Landis havia feito em seu clássico Um Lobisomem Americano em Londres: uma comédia dentro de um universo de terror.

Com um típico humor britânico que tornou tão famosas as obras de Monty Phyton e Douglas Adams, o roteiro de Shaun of the Dead adota, desde a cena inicial, uma estrutura recheada de diálogos rápidos (típicos de comédias screwball) que tornam os personagens muito próximos de si e acentua a química entre cada um; muito influenciado pelos filmes de comédia dos Irmãos Coen. As piadas dialógicas trabalham de forma variada, e cada vez mais engraçada, a personalidade dos personagens (“Qual de vocês vadias quer outra cerveja?”), o desenvolvimento dos conflitos (“Ele não é meu pai!”), a ironia da situação (“Não é o fim do mundo!”), e as referências aos clássicos (“We’re coming to get you Barbara!”, “Join Us”). Aliás, o próprio título do filme já é uma homenagem muito engraçada e inspirada (...of the Dead).

Tão INTENSA quantos os diálogos ágeis, também é a câmera de Wright. Tendo completo domínio sobre sua narrativa, Wright consegue criar gags hilárias com seu jogo de enquadramentos, como ao introduzir inesperadamente cada um dos personagens na cena inicial, ou até ao manter a câmera fixa em um insuspeito escorregador infantil. Já sua montagem, em parceria com Chris Dickens (Paul – O Alien Fugitivo, Quem Quer Ser um Milionário?), esbanja energia ao criar transições urgentes que remetem ao trabalho de Thelma Schoomaker com os filmes mais surtados de Martin Scorsese (como Depois de Horas e O Lobo de Wall Street); reparem especialmente na bombástica passagem de noite para dia em determinado momento. Mas talvez o trabalho de montagem mais excepcional desse clássico seja quando Wright repete a mesma colagem de cenas em versões alternativas de acordo com a mudança de planos de resgate dos heróis, trazendo um ar satírico de Missão: Impossível com a idealização de um comercial de margarina (!).

O trabalho de Wright chega à GENIALIDADE em alguns momentos, como ao realizar um mesmo plano sequência que já havia feito anteriormente (quando Shaun vai ao armazém próximo de sua casa) para, não só nos apresentar ao caos instalado naquele local, como ao fazer um humor genuíno ao comentar a apatia da humanidade atual em relação ao que ocorre ao seu redor. A inteligência de Wright também é facilmente percebida pelos créditos iniciais, que ironiza o sentido de “vivacidade” ao retratar os cidadãos urbanos do dia-a-dia se “zumbificando” através de celulares, fones-de-ouvido e exaustão. Além de homenagem e cinema escapista, Shaun of the Dead também traz uma relevante crítica social; outro paralelo com o rico cinema de George A. Romero. Será que o fato de haverem zumbis naquele local realmente fez alguma diferença?

Mas Wright não realiza só um trabalho exemplar em comédia, mas também em terror. A fotografia de David M. Dunlap (House of Cards) se inicia com tons pastéis chapados e sem vida do início, que o próprio diretor revelar ter se inspirado nos longas dramáticos de Mike Leigh (Segredos e Mentiras, O Segredo de Vera Drake). Posteriormente, a paleta aposta em tons vermelho e amarelo mais quente à medida que os personagens se veem em uma situação mais ameaçadora e urgente. A urgência, aliás, também é intensificada pelo diretor através de planos mais fechados e “câmera na mão” nos momentos de ação e perigo; além de criação de quadros realmente arrepiantes ao utilizar as sombras e silhuetas dos mortos-vivos através de vidros e janelas, além da sonoridade sinistra característica. O diretor também não economiza no gore, sendo que o trabalho de maquiagem (que remete aos “olhos brancos” de Lucio Fulci) e efeitos práticos do longa não deixam nada a dever aos filmes clássicos de Romero.

Até mesmo as referências aos filmes clássicos, Wright integra com organicidade à história. Observem como a montagem frenética do preparo de Shaun para o trabalho se assemelha ao modo como Ash se arma em Uma Noite Alucinante 2. Além disso, o movimento do espelho do banheiro, revelando um personagem ao fundo, nos liga diretamente a Um Lobisomem Americano em Londres, enquanto a morte de dois importantes personagens no terceiro ato remete aos longas A Noite dos Mortos Vivos e Dia dos Mortos. E enquanto a trilha sonora da banda “Goblin” para Despertar dos Mortos é ouvida diversas vezes (inclusive no emblema durante a abertura da “Universal”), atores e diretores famosos são referenciados por diversas vezes: “Foree Electric” (Ken Foree de Despertar dos Mortos), “Landis Supermarket” (John Landis), “Fulci’s” (Lucio Fulci).

Além de um roteiro e direção impecáveis, não há como não enaltecer o trabalho de todo o elenco. Primeiramente, há de se notar a FANTÁSTICA química entre Simon Pegg e Nick Frost, que criam uma dinâmica de embaraço que denota os personagens de Arthur Dent e Ford Prefect nos livros de O Guia do Mochileiro das Galáxias. Pegg, em especial, é dono de um carisma invejável, conseguindo transformar seu personagem imaturo em uma pessoa muito doce e querido aos olhos do espectador, principalmente como na vivacidade com que demonstra sua preocupação pelos amigos. Pegg angaria empatia tanto pelo humor físico afiado (a cena da cerca se tornou clássica), quanto pelos momentos dramáticos (como ao confrontar a morte de dois entes muito queridos).

Já Frost tem um trabalho um pouco mais complicado, já que seu Ed é uma figura que, pela falta de compromisso e seriedade absurdas, poderia gerar imensa repulso dos espectadores. No entanto, Frost é hábil ao demonstrar carinho e preocupação pelo amigo, mesmo que o console de uma forma peculiarmente irresponsável. Da mesma forma, Frost adota alguns trejeitos infantis (como ao indicar, embaraçado, o carro que acabou de bater propositalmente) e de humilde (como ao se rebaixar durante uma bronca de Shaun) que acaba tornando o personagem mais carismático aos nossos olhos. Ao fim, a química dos dois atores é tão efetiva, que se torna impossível não nos envolvermos emocionalmente com o filme e realmente nos importarmos com seus destinos.

Além do bromance que faria Judd Apatow, Seth Rogen e Evan Goldberg morrerem de inveja, Shaun of the Dead também cria personagens coadjuvantes particularmente hilários. A começar por Barbara, a catatônica mãe de Shaun, interpretada por Penelope Wilton (do divertido As Garotas do Calendário), que torna a personagem adorável pelo modo comedido como enfrenta o apocalipse (“Oh! Hello!”), além de fazer humor com a mesma situação (reparem em sua HILÁRIA expressão facial durante o “ensaio” de atuação como zumbi). Já Kate Ashfield (Byzantium) é inteligente ao não cair na armadilha de se tornar a namorada antipática, apostando em um tom de voz e gestos suaves que nos fazem compreender o afeto dela por Shaun mesmo durante os conflitos. Destaque também para a participação do sempre divertido Bill Nighy, que já se tornou uma lenda do cinema britânico, e a igualmente engraçada Lucy Davis, que rouba a cena sempre que pode com a “espevitada” Dianne (a cena em que ela ensina atuação é de rachar de rir).

O próprio George A. Romero adorou o filme quando o assistiu, inclusive tendo convidado Edgar Wright e Simon Pegg para fazerem uma ponta como zumbis no subestimado Terra dos Mortos. Ainda em relação ao universo do cineasta, reparem nos noticiários do filme, quando acusam uma sonda espacial de ter caído na Terra, o que seria uma das hipóteses dos mortos vivos (assim como no clássico de 1968). Além disso, o roteiro ainda faz uma brincadeira ao evitar de trazer a palavra zumbi sendo dita pelos personagens, já que o próprio Romero nunca gostou dessa denominação para seus mortos vivos. Aliás, é ÓTIMO ver que as criaturas em Shaun of the Dead são os mortos putrefatos, decompostos e lentos de Romero, e não as “latas de energético” dos filmes de Danny Boyle e Zack Snyder, como diz o próprio Simon Pegg.

Outro grande fã do filme é ninguém menos que Quentin Tarantino. Inclusive o diretor elegeu Shaun of the Dead como um dos 20 melhores filmes lançados desde 1992, quando ele lançou Cães de Aluguel. O amor de Tarantino pelo filme é tão grande que foi o motivo de convidarem Wright para dirigir um dos trailers falsos de Grindhouse. Wright até referencia Cães de Aluguel no último ato de Shaun of the Dead, quando vários personagens diferentes se ameaçam com armas enquanto o parente de um está sendo ameaçado.

O filme foi bem lucrativo nos cinemas, tendo arrecadado $30 milhões de dólares ao redor do mundo, para um investimento de apenas £4 milhões. Além de ter lançado os nomes de Edgar Wright e Simon Pegg ao estrelato mundial, o filme ainda concorreu a 33 premiações mundiais, vencendo 13 delas. Dentre as últimas, inclui-se Melhor Filme de Horror no Saturn Awards, Melhor Roteiro no British Independent Film Awards e Melhor Filme Britânico no Empire Awards.

Na mesma tradição de clássicos como A Hora do Espanto e A Volta dos Mortos Vivos, Shaun of the Dead é uma comédia em um universo de terror arquitetada de forma irreverente e com uma inteligência sempre afiada. Filme obrigatório para qualquer cinéfilo. Afinal de contas, quantas vezes você assistiu a um filme em que os personagens tentam matar um zumbi com pancadas rítmicas ao som de “Don’t Stop Me Now” do Queen!?

IMDb: 8/10. Rotten Tomatoes: 92%.


Dica de outro filme clássico de comédia que parodia/homenageia ícones do terror: A Dança dos Vampiros (The Fearless Vampires Killers, 1967) de Roman Polanski.

E aí pessoal? Qual a opinião de vocês sobre esse prolífico diretor? Deixem suas opiniões no espaço de comentários. Até a próxima Lista Interativa.

Divulgaí

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