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Especial Grindhouse: Revisitando o Universo "Exploitation" de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez

Em abril de 2017, a experiência cinematográfica Grindhouse, idealizada pelos parceiros Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, está completando 10 anos.
Especial Grindhouse: Revisitando o Universo "Exploitation" de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez

Em 06 de abril de 2017, a experiência cinematográfica Grindhouse, idealizada pelos parceiros Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, está completando 10 anos. Mesmos sendo uma pena que os brasileiros, e vários outros públicos ao redor do mundo, não tenham tido a experiência de ter visto o projeto conforme sua concepção original, ainda devemos enaltecer o lançamento de dois filmes incrivelmente divertidos como Planeta Terror e À Prova de Morte.

Mas se engana quem acha que Grindhouse foi o primeiro filme da dupla Tarantino/Rodriguez que seria uma homenagem ao cinema exploitation dos anos 60, 70 e 80; já que 10 anos antes (em abril de 1996) foi lançado nos cinemas estadunidenses o sensacional Um Drink no Inferno.

A história da amizade entre os dois cineastas é longa. Segundo rumores, os dois se conheceram no Festival de Sundance em 1992, quando Tarantino apresentou o seu clássico Cães de Aluguel e Robert Rodriguez o cult El Mariachi. Ambos sairiam laureados do festival, tendo sido lançados ao “hall” dos jovens cineastas mais promissores do momento. Porém, não era apenas o talento na direção, e o sucesso repentino com filmes sensacionais, que ambos tinham em comum. Tarantino e Rodriguez se encontraram parceiros como dois cinéfilos que AMAM o cinema fantástico (ficção científica, terror, fantasia) de décadas anteriores; além de filmes trash e exploitation.

Exploitation, aliás, se refere a filmes de terror, ação, aventura, eróticos, em sua maioria “bagaceiros”, do fim dos anos 60, 70 e 80 que exploravam, sem sutileza nenhuma, temas diversos como sexo (Sexploitation), estereótipos negros urbanos 70’s (Blaxploitation), nazismo (Nazixploitation), dentre outros. Além disso, alguns estudiosos também consideram dentro do exploitation filmes giallo (filmes italianos de assassinato e mistério, como a Trilogia dos Animais de Dario Argento), slashers (filmes de assassinos mascarados, como Banho de Sangue e Sexta-Feira 13 popularizaram), histórias de estupro e vingança (como A Vingança de Jennifer), presídios de mulheres (Women in Cages, de Roger Corman), faroestes italianos (Django), filmes de artes marciais (como os de Bruce Lee) e VÁRIOS outros.

Não é novidade para ninguém que Quentin Tarantino sempre foi um GRANDE entusiasta desse tipo de cinema. Na verdade, seus filmes são recheados de referências à estética e narrativa do exploitation, apesar de o diretor sempre utilizar isso de forma inteligente para criar uma aura cool e moderna. No cinema de Tarantino, há filmes de gângsteres violentos (Cães de Aluguel, Pulp Fiction – Tempo de Violência), filmes de samurais (Kill Bill – Vol. 1), filmes de faroestes italianos (Kill Bill – Vol. 2), blaxploitation (Jackie Brown e Django Livre) e tudo mais.

Assim como Martin Scorsese trabalha incessantemente na restauração de grandes clássicos do cinema, Tarantino faz o mesmo pelos filmes B. Na verdade, como sempre foi “rato de locadora”, o diretor é MUITO obcecado por esses filmes, chegando a realizar vários festivais abertos ao público para exibir “pérolas” do cinema B e exploitation de seu próprio acervo. Inclusive, o diretor trabalha também para que vários desses filmes sejam relançados e ganhem mais reconhecimento do público, através do selo Quentin Tarantino Presents.

Robert Rodriguez sempre deixou claro em seu cinema pré-Um Drink no Inferno (El Mariachi, Revanche Rebelde e A Balada do Pistoleiro) que sempre teve predileção pelo estilo de ação dinâmico de filmes de justiceiros B (como Desejo de Matar de Charles Bronson) e até a atmosfera de spaghetti westerns. Fora que o diretor sempre deixou claro para todos que tem como grandes ídolos cineastas como John Carpenter.

O termo Grindhouse vem a partir dos cinemas que exibiam esse tipo de filme trash e exploitation. Verdadeiros “pulgueiros”, os cinemas grindhouse se localizavam sempre em bairros ruins e não tinham uma clientela muito “refinada”, digamos assim. Pelo preço de um ingresso, os frequentadores desses cinemas assistiam a dois filmes, um atrás do outro, com inclusão de trailers antes de cada filme. Essa exibição dupla de filmes possui um histórico que iniciou nos anos 30; como forma das salas de exibição da época renderem mais dinheiro em plena Grande Depressão dos EUA.

O mais interessante, é que não havia uma coerência entre os longas exibidos, por exemplo, você poderia assistir um filme de artes marciais no começo e, logo depois, um filme de terror de canibais, ou um pornô(!). Além disso, quase sempre as películas dos filmes se encontravam em péssimas condições de conservação, com vários riscos e “queimaduras” sendo projetados. Estes “machucados” na película resultavam na necessidade de recortes (literalmente) dos frames; e muitas vezes as cenas acabavam em uma ordem desconexa – o que resultava em incongruências na montagem e no som. Algumas vezes, rolos inteiros de filmes ficavam faltando, o que deixava os espectadores se perguntando o que havia acontecido na história nos últimos 20 minutos de filme (!!). O mais engraçado, é que o próprio cinema exibidor já informava aos espectadores, antecipadamente, através de um letreiro na tela, que o filme apresentaria de rolos (!!!).

Tarantino e Rodriguez já haviam trabalhado juntos na razoável antologia de contos Grande Hotel, porém, a parceria dos dois cineastas para replicar a aura dos filmes Grindhouse que tanto adoravam veio pela primeira vez com Um Drink no Inferno. Apesar de não ter sido um projeto tão complexo e visionário quanto o posterior Grindhouse, Um Drink no Inferno foi a seu próprio modo uma experiência de dois filmes em um (no caso, um filme de gângsteres e outro de terror) com a estética exploitation. O resultado foi uma bilheteria muito maior que esperavam inicialmente, tanto quanto a aceitação pela crítica especializada. Considerado um dos melhores filmes de terror dos anos 90, Um Drink no Inferno pegou a todos de surpresa, já que na primeira metade dessa década, o cinema de horror se encontrava em uma decadência gigantesca. Falarei mais detalhadamente sobre esse período enquanto estivar analisando o filme.

Dez anos depois daquele sucesso, Tarantino e Rodriguez iniciariam as filmagens do ambicioso projeto Grindhouse. A proposta era que cada um dos cineastas filmassem um filme de pouco mais de uma hora cada, Rodriguez faria um filme de zumbis (almejado por ele há vários anos) e Tarantino faria um filme de perseguição automobilísticas (dos quais o diretor é fã). Enquanto isso, trailers de filmes falsos, seguindo a estética exploitation, seriam filmados por outros diretores para serem exibidos antes e entre os filmes. Eli Roth (que vinha do sucesso de O Albergue, produzido pelo próprio Tarantino) e Edgar Wright (oriundo do GENIAL Todo Mundo Quase Morto) foram convidados pelos diretores para filmarem dois dos trailers. Rob Zombie, que encontrou os diretores na premiação do finado Scream Awards e havia lançado seu melhor filme, Rejeitados pelo Diabo, pediu para fazer outro dos trailers do projeto, já que também é fã de exploitations. O quarto trailer seria feito pelo próprio Robert Rodriguez, enquanto o quinto foi escolhido através de um concurso realizado pelos cineastas na conferência South by Southwest (SXSW), à procura de cineastas independentes que se afeiçoassem pelo estilo. O escolhido acabou sendo o iniciante Jason Eisener.

O filme foi lançado nos cinemas dos EUA conforme havia sido planejado: os dois filmes com estética de película envelhecida e sequências cortadas; defeitos de montagem e som propositais; mesmos atores interpretando papéis diferentes (o elenco é INCRÍVEL); produção que mimetizasse uma pobreza de recursos, mas com muita imaginação; e toneladas de gore, violência e carga sexual. Os filmes foram exibidos um após o outro, com os trailers falsos entrecortando-os. Infelizmente, o projeto se revelou um fracasso de bilheteria (arrecadou apenas US$25 milhões para um orçamento de US$53 milhões), apesar das críticas majoritariamente positivas (o filme possui 83% de aprovação no “Rotten Tomatoes”).

Grindhouse concorreu a 15 prêmios ao redor do mundo, tendo vencido sete deles. O filme foi nomeado a Melhor Filme de Horror, Melhor Atriz Coadjuvante (Rose McGowan) e Melhor Maquiagem no badalado Saturn Awards em 2007. Já no Golden Schmoes Awards o longa venceu os prêmios de Filme Mais Subestimado do Ano, Melhor Filme de Horror e Melhor Trilha Sonora.

Com o insucesso comercial do filme em seu país de origem, as distribuidoras estrangeiras resolveram lançar os filmes separadamente, afinal, o conceito Grindhouse não era algo muito conhecido fora dos EUA. No Brasil, por exemplo, Planeta Terror foi lançado somente em novembro de 2007, enquanto isso, À Prova de Morte chegou aos cinemas TRÊS anos depois, em julho de 2010. Inclusive, o seguimento de Tarantino só foi lançado nos cinemas por causa do recente sucesso de seu filme posterior, o já clássico Bastardos Inglórios, de 2009. Reparem no absurdo, o filme de Tarantino só chegou aos cinemas brasileiros DEPOIS de seu projeto seguinte.

De qualquer forma, os brasileiros puderam, ao menos, acompanhar ambos os filmes na telona. Eu, por exemplo, tive a oportunidade de assistir Planeta Terror no cinema; uma experiência inesquecível.

Portanto, para comemorar os 20 anos de Um Drink no Inferno e os 10 anos de Grindhouse, nós do Loucos por Filmes fizemos uma matéria especial para analisar cada um dos três filmes, além dos trailers falsos; explanando suas referências, estética, homenagens e influências. Portanto, preparem a pipoca, conectem uma metralhadora ao corpo, encham uma série de camisinhas com água benta, evitem botecos que fiquem abertos “do anoitecer ao amanhecer”, cuidado com gás tóxico “zumbificante” e arranquem partida em um Dodge Challenger 70’s. Afinal, o cinema Grindhouse de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez te trará algumas das experiências cinematográficas mais divertidas de sua vida.

ATENÇÃO: O artigo tratará apenas dos filmes exploitation em que Tarantino e Rodriguez trabalharam como parte criativa em CONJUNTO. Portanto, mesmo que longas como Kill Bill e Machete sejam fiéis ao exploitation, eles não serão analisados no presente texto.


Parte 1 - Um Drink no Inferno (From Dusk Till Dawn, 1996) de Robert Rodriguez


Após a “Era de Ouro” dos filmes de terror durante os anos 80, onde todos os subgêneros famosos de décadas anteriores foram desenvolvidos com homogênea competência; a primeira metade dos anos 90 fez o gênero declinar. Apesar de algumas pérolas terem sido lançados nessa época (Drácula de Bram Stoker, Frankenstein de Mary Shelley, Entrevista com o Vampiro, O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger, a refilmagem de A Noite dos Mortos Vivos, Fome Animal, A Metade Negra, Demônios da Noite, À Beira da Loucura, Uma Noite Alucinante 3), o cinema de terror havia perdido o fôlego e se apoiava, majoritariamente, em sequências de sucessos das décadas anteriores.

Até o lançamento de Pânico em 1996 (que revigorou o gênero com uma inteligência pós-modernista), quem era fã de terror precisava se contentar com inúmeras sequências pouco inspiradas como Jason Vai pra o Inferno: A Última Sexta-Feira, Brinquedo Assassino 3, Hellraiser 4: A Herança Maldita, Colheita Maldita 2: O Sacrifício Final, Cemitério Maldito 2, Criaturas 3, A Volta dos Mortos Vivos 3, Leatherface: O Massacre da Serra Elétrica 3, Halloween 6: A Última Vingança, O Pesadelo Final: A Morte de Freddy Krueger e VÁRIOS outros longas sem imaginação que tentavam chupar até o osso da criatividade dos filmes originais.

Neste contexto, o lançamento de Um Drink no Inferno em 1996 foi um sopro de esperança para os fãs de terror, já que a primeira parceria no gênero fantástico entre Quentin Tarantino e Rodriguez pegou a todos de surpresa pela inteligência insuspeita do roteiro de um filme de vampiros, e a direção vigorosa e referencial ao cinema exploitation.

O roteiro do filme foi escrito por Tarantino após um “trato” que ele havia feito com seu amigo Robert Kurtzman, maquiador da famosa empresa de maquiagem e efeitos especiais KNB (Kurtzman-Nicotero-Berger). O trato era o seguinte: pelo trabalho de maquiagem realizado por Kurtzman em Cães de Aluguel (em especial, a cena da orelha), Tarantino precisaria retribuir o favor escrevendo um roteiro de um filme de vampiros a partir de um argumento do maquiador. A ideia de Kurtzman, que revelou mais tarde ter se baseado no divertido cult 80’s Vamp – A Noite dos Vampiros, era a de um bordel cheia de prostitutas vampiras.

Tarantino começou a trabalhar no texto ao mesmo tempo que estava escrevendo Pulp Fiction – Tempo de Violência, porém, só terminou o roteiro após seu clássico máximo ter sido finalizado. A intenção do cineasta era criar um filme de vampiros com a estética trash, cheio de gore e ação que fosse um contraposto aos últimos filmes vampirescos românticos de sucesso do cinema, como Entrevista com o Vampiro e Drácula de Bram Stoker. Inclusive, Tarantino fornecia entrevistas dizendo que Um Drink no Inferno era um “filme sobre vampiros filhos da puta que mereciam morrer!”. Além disso, um dos slogans do filme era “Muitos Vampiros. Nenhuma Entrevista”.

Decidido a focar apenas na escrita, Tarantino desistiu de dirigir o filme. O cineasta chegou a oferecer a direção a Robert Kurtzman, que não se achou apto para o desafio. Em conseguinte, grandes nomes do momento se interessaram pela direção do terror, incluindo Tony Scott (que já havia dirigido um roteiro de Tarantino em Amor à Queima-Roupa, além de um filme de vampiros clássico dos anos 80, Fome de Viver) e Renny Harlin (com experiência em terror por A Hora do Pesadelo 4 – O Mestre dos Sonhos, e ação, como em Duro de Matar 2). No entanto, Tarantino ofereceu a direção ao seu parceiro Robert Rodriguez, pelo vínculo que possuem através do amor cinéfilo pelo exploitation.

A escalação dos atores, entretanto, foi bem mais fácil. Harvey Keitel (de Cães de Aluguel e Pulp Fiction, mas que já era renomado desde os anos 70 trabalhando com Martin Scorsese), já era parceiro de Tarantino desde o início de carreira. Inclusive, foi Keitel um dos principais financiadores de Cães de Aluguel. Já Juliette Lewis (em alta desde que foi indicada ao Oscar por sua excelente performance em Cabo do Medo), era amiga de Tarantino desde a produção de Assassinos por Natureza, que o próprio Tarantino renega, apesar de ser um GRANDE filme de Oliver Stone. Enquanto isso, o próprio Tarantino iria interpretar Richie, um dos irmãos bandidos protagonistas do filme.

Já a escalação do protagonista Seth foi mais complicada. Vários atores que já haviam trabalhado com Tarantino antes foram considerados: Tim Roth, Steve Buscemi, Michael Madsen e até Cristopher Walken. O roteirista ofereceu o papel a John Travolta quando ele ainda estava escrevendo o roteiro, porém o ator preferiu trabalhar em Pulp Fiction. Como Tarantino já havia dirigido um episódio do famoso seriado dos anos 90 ER: Plantão Médico, o cineasta ofereceu o papel a George Clooney como uma possível piada irônica; enquanto no seriado o ator interpretava um médico que salvava pessoas em situação de emergência, no filme ele interpretaria um personagem que enviaria pessoas para a emergência (!!). Lembrando que Clooney não era, até então, o GRANDE astro que é hoje, e inclusive já havia trabalhado em filmes trash como A Volta dos Tomates Assassinos e De Volta à Escola de Horrores. Um Drink no Inferno foi sua primeira grande oportunidade nos cinemas.

A melhor sacada de Um Drink no Inferno é o modo como Tarantino conduz seu roteiro. Possivelmente influenciado pelas sessões duplas dos antigos Grindhouses, o roteirista cria dois filmes em um: a primeira metade é um filme fatalista de ação sobre a fuga de dois irmãos criminosos; a segunda metade é um filme de vampiros brutal com tudo que os fãs de filmes B têm direito. E como EXCELENTE roteirista que é, Tarantino usa a primeira metade do filme para apresentar e desenvolver seus personagens com muito talento e dignidade, o que se torna essencial para que torçamos por eles quando o horror chegar e o filme ganhe uma nova dimensão de diversão.

A cena inicial do filme, aliás, pode figurar entre as introduções de filmes mais impactantes do cinema, ao lado de sequências iniciais de filmes como Pânico, Halloween – A Noite do Terror e Instinto Selvagem. Com diálogos intensos que ajudam a ditar a urgência da situação (a discussão sobre os possíveis sinais dados a um policial nos fazem ranger os dentes de tanto nervoso), Tarantino trabalha, com sutileza, a personalidade de cada um dos bandidos. Enquanto Richie (Tarantino) apresenta uma clara delinquência e impulsividade (é claro que o personagem fala mentiras para suprir um certo desejo de confusão e carnificina), Seth (Clooney) se apresenta como uma postura muito mais segura, autoritária e “profissional”, apesar de não medir esforços para proteger seu irmão. Tarantino é certeiro em causar uma estranheza no espectador ao colocar Richie se referindo apenas a Clooney, e não aos outros personagens; além de não poupar os espectadores dos atos cruéis dos personagens, contrapondo o carisma dos atores.

Em conjunto com o ótimo texto, o diretor Robert Rodriguez trabalha sua câmera e montagem de forma tão dinâmica quanto já estava acostumado em El Mariachi e A Balada do Pistoleiro. Além de criar closes no rosto dos atores para criar gradativamente com cortes secos para criar um estilo cool com os diálogos de Tarantino (“Everbody be cool! You. Be cool!”), o diretor também sabe trabalhar a montagem dinâmica para imprimir mais tensão à situação através das ações simultâneas (como a discussão de Seth e Richie paralela à abertura de um cofre). Já a cena sem cortes em que há uma explosão ao fundo e os protagonistas discutindo à frente como se nada estivesse acontecendo é hábil ao demonstrar a atmosfera divertida de ação do filme, além da personalidade ousada dos irmãos Gecko.

Após a sequência inicial sensacional, o filme segue apresentando os planos dos Gecko em paralelo à apresentação da família Fuller, o pai Jacob (Keitel) e os filhos Kate (Lewis) e Scott (o novato Scott Liu). Sabendo acompanhar a inteligência na criação dos personagens de Tarantino, Rodriguez maneja as imagens para ambientar os espectadores. Reparem como ele varia entre zooms in e out, nos rostos de Kate e Jacob, durante um diálogo emocionalmente doloroso durante um café da manhã; variando entre falas de maior intimidade e outras de distanciamento entre os parentes. Notável também são as câmeras subjetivas desconfortáveis que Rodriguez usa entre Richie e sua refém; culminando na montagem em flashes de uma “cena do crime” enquanto Rodriguez faz um longo plano no rosto atônito de Seth, substituindo suas palavras e interpretando, em imagens, o choque do protagonista.

Se Seth e Richie se mostram personagens MUITO interessantes, seus intérpretes fazem justiça ao texto. George Clooney tem um carisma natural caro aos astros da “Era de Ouro” de Hollywood, como Cary Grant. Encarando todos os outros personagens com um ar sisudo e seguro, migrando de atos cruéis a outros de empatia (como na conversa íntima com Jacob), Clooney traz para Seth uma dignidade insuspeita, conseguindo tornar aquela figura assassina estranhamente carismática. Já Quentin Tarantino oscila um pouco mais, afinal um personagem psicopata como Richie é bem mais difícil de simpatizar. O cineasta é genuíno ao demonstrar o carisma de Richie por aquela família, apesar de parecer um pouco caricato nos momentos de confronto (como ao discutir com seu irmão na primeira cena).

Harvey Keitel, sempre excelente, transforma Jacob em uma figura trágica através das feições sutis de cansaço em seu rosto. Além de transparecer muita simplicidade, Keitel tem uma postura exausta que transparece uma grande carga emocional, digna de seu passado. Notem a forma fatalista como ele conversa com os irmãos Gecko após se encontrarem pela primeira vez, desafiando-os com os olhos justamente por não se importar com seu próprio destino. Já Juliette Lewis demonstra química com todo o resto elenco, chamando a atenção por singelos momentos de comédia, como ao tomar uns “tragos” no Titty Twister.

Como destaque negativo está interpretação apática de Scott Liu. Como destaque positivo está o veterano Michael Parks (Twin Peaks) como o Texas Ranger Earl McGraw. O personagem ficou tão interessante na pele de Parks, com uma postura de experiência sábia e cínica, que retornou para vários outros filmes dos cineastas, incluindo À Prova de Morte, Planeta Terror e os dois Kill Bill.

A fotografia de Guilhermo Navarro (parceiro de Rodriguez) consegue trazer um tom de crueza realista fiel à estética exploitation; em adição a cores fortes de amarelo e bege que acentuam o ambiente desértico em que os personagens se encontram.

E se depois de Tarantino e Rodriguez nos ambientarem no clima de filmes de ação de gangsteres violentos, na vibe exploitation 70’s, é quando os personagens chegam no boteco Titty Twister que as coisas mudam de figura; e que um novo filme começa a ser projetado naquele “cinema Grindhouse”.

Nos ambientando naquele novo universo, o diretor Rodriguez utiliza de uma trilha-sonora EXCELENTE que abusa de blues rock e southern rock’n’roll, principalmente de bandas como ZZ Top e Tito & Tarantula. Esta última, aliás, faz presença tocando suas músicas cheias de energia naquele “inferninho”. Até a fotografia de Guilhermo Navarro se modifica, abusando de cores mais fortes e quentes (vermelho e amarelo), tornando aquele local um verdadeiro inferno.

Da mesma forma, o roteiro de Tarantino nos apresenta a personagens cada vez mais divertidos em seu absurdo para mudar o tom do filme. A começar pela caricatura Chet Pussy (Cheech Marin, da dupla Cheech e Chong), o mestre de cerimônias tão asqueroso quanto engraçado do Titty Twister, ficando famoso por seu extenso, nojento e entusiasta, discurso sobre as variedades de “pussies” do local. Marin ainda interpreta outros dois personagens no filme, um dos guardas mexicanos na fronteira, e o gangster Carlos. Enquanto isso, Tom Savini (a LENDA viva do cinema de terror) também fez história por seu Sex Machine, um motociclista com caracterização sadomasoquista que possui uma arma sugestivamente sobre a região pélvica (hilária em sua invencionice); inclusive, a arma já havia sido vista no filme A Balada do Pistoleiro. É importante citar que Sex Machine é referência direta a um personagem similar que Tom Savini já havia interpretado no clássico Despertar dos Mortos, de George A. Romero. Esse seguimento do Titty Twister também conta com a participação de Fred Willianson, um ator icônico do blaxploitation como O Chefão de Nova York e Os Guerreiros do Bronx; além do mexicano Danny Trejo (figura carimbada do cinema de Rodriguez) no papel de Razor Charlie, o barman que marcou presença em todos os filmes de Um Drink no Inferno.

Focado em trazer a fluidez dos filmes de John Carpenter (reparem no “Precint 13” da camiseta de Scott, referenciando Assalto a 13ª DP) e a energia insana de Sam Raimi, Rodriguez aplica um entusiasmo ainda mais intenso na segunda metade do filme. Para nos apresentar a insanidade daquele local de bebedeira e sexo, Rodriguez já cria um plano sequência que mostra todo aquele ambiente fumegante, ao mesmo tempo que monta o filme de acordo com o ritmo da música tocada pela banda do local. O design de produção de Cecilia Montiel (A Máscara do Zorro) aproveita ao máximo as possibilidades do ambiente do Titty Twister, criando uma arquitetura ampla, como se fosse um templo dos infernos; com arquitetura malcuidada, iluminação sombria, objetos decrépitos, com um pé direito enorme, cheio de reentrâncias sinistras (gosto especialmente dos balcões superiores das dançarinas), pinturas de parede com formas sinistras e descascadas, ambiente imundo e estátuas infernais.

Rodriguez também é responsável por criar uma das cenas mais sensuais do cinema, apresentando a dança hipnotizante da Santanico Pandemonium (Salma Hayek) ao som de “After Dark”. Na verdade, Hayek tinha fobia de serpentes, e a intérprete da personagem seria Madonna, sob o nome de Blonde Death. Porém, Hayek ficou com o papel após superar seu medo de serpentes com um terapeuta; e o nome Santanico Pandemonium foi escolhido como homenagem a um filme de terror B mexicano, Santanico Pandemonium: La Sexorcista (1975). Sem contar que Tarantino realiza seu fetiche por pés de uma forma grandiosa.

E quando o terror finalmente começa, Rodriguez não dá tempo para o espectador respirar. Da mesma forma que Sam Raimi turbina seus Evil Dead com um vigor insano, Rodriguez cria um banho de sangue que não envergonha seu mestre. Com vampiros realmente bizarros e sanguinários, Rodriguez intensifica a violência com cortes dinâmicos, trilha sonora que traz tons de cânticos satânicos como em A Profecia e os movimentos animalescos e selvagens de seus vilões. E tudo isso ao som pesado de uma banda vampiros tocando instrumentos feitos de partes do corpo humano!!!!

O diretor consegue nos fazer arrepiar de medo daqueles vampiros, como na cena silenciosa que acompanha um vampiro desmembrado se rastejando até uma vítima; ou até o plano externo do Titty Twister à frente de uma gigante lua e totalmente tomado por morcegos. Ao mesmo tempo, o diretor nos diverte com os embates absurdos. Dentre elas, destaca-se o uso do chicote de Sex Machine (que referencia o videogame Castlevania); a morte de um vampiro sobre uma mesa de sinuca (reparem onde os olhos daquela caveira irão parar) e até na transformação BIZARRA de um vampiro em um monstro. Deve-se destacar o trabalho de maquiagem e efeitos especiais intencionalmente toscos e exagerados (reparem nos derretimentos dos vampiros), que exibem uma criatividade digna da falta de recursos de produções B. As figuras vampirescas adotam um tom realmente grotesco, com olhos esbranquiçados, carrancas enrugadas e demoníacas (como os demônios de Uma Noite Alucinante 2), além de bocarras absurdas que remetem aos vampiros de A Hora do Espanto.

Tão sanguinolento e despudorado quanto o terceiro ato de Fome Animal, o roteiro de Tarantino ainda cria soluções inventivas e bem-humoradas acerca do método de morte dos vampiros, como ao criar “granadas” de camisinhas com água benta, uma britadeira com uma estaca em sua ponta e “arminha” de água que esguicha água-benta. Rodriguez ainda reserva uma montagem no melhor estilo Comando para Matar para mostrar os personagens se armando para uma luta. Também interessante é o momento metalinguístico em que os personagens discutem formas de se matar um vampiro aprendidas no cinema, citando o GRANDE Peter Cushing, o Van Helsing do Drácula de Cristopher Lee, da Hammer.

Ironicamente, no mesmo ano foi lançado um Bordel de Sangue, baseado no universo do seriado de terror Contos da Cripta que tratava do mesmo tema: uma “zona” cheia de prostitutas vampiras. Apesar de ser divertido, e trazer atores de filmes de vampiros clássicos, como Corey Feldman (Os Garotos Perdidos) e Chris Sarandon (A Hora do Espanto), Bordel de Sangue não chegou ao patamar de Um Drink no Inferno.

O filme concorreu a nove prêmios ao redor do mundo, inclusive venceu dois deles no Saturn Awards, de Melhor Filme de Terror e Melhor Ator para George Clooney. Já Quentin Tarantino, infelizmente, venceu um Framboesa de Ouro de Pior Ator Coadjuvante. Sucesso de bilheteria, o filme arrecadou US$ 58 milhões, somente nos cinemas, para um orçamento de US$19 milhões. Isso sem contar o mercado home vídeo.

Sem deixar de contar com a marcas registradas dos roteiros de Tarantino (como a marca de cigarros Red Apple e a lanchonete Big Kahuna Burger), Um Drink no Inferno fez tanto sucesso que possibilitou duas sequências lançadas diretamente em vídeo: Um Drink no Inferno 2: Texas Sangrento e Um Drink no Inferno 3: A Filha do Carrasco, ambos com produção executiva de Tarantino e Rodriguez. Sem contar a atual série de TV produzida para a Netflix.

Um Drink no Inferno 2: Texas Sangrento foi lançado em 1999. Dirigido por Scott Spiegel (roteirista parceiro de Sam Raimi em Evil Dead 2) o filme não se passa no Titty Twister e investe em uma trama criminal bem característica do universo de Quentin Tarantino (não faltando nem surf music). Apesar de sobreviver pela memória afetiva, o filme é bem ruim e com péssimos diálogos e personagens, com um clima parecido ao das fitas de ação ruins de Van Damme. Nem em relação ao terror o filme funciona, já que a caracterização dos vampiros, e seus momentos, são todos realizados sem o vigor necessário. No entanto, o filme se beneficia de uma participação rápida de Bruce Campbell (nosso eterno Ash) e do protagonismo de Patrick Stewart, o T-100 de O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final, além da aura trash divertida.

Um Drink no Inferno 3: A Filha do Carrasco foi lançado em 2000. Bem melhor que o filme anterior, o longa segue mais o estilo de ação “faroéstico” de Robert Rodriguez e se apresenta com uma fotografia mais bem realizada e momentos de terror e gore que remetem ao primeiro filme. Sendo uma prequel, o filme traz alguns personagens do filme de 1996 de forma interessante e passa bastante tempo dentro do Tetilla del Diablo, o antigo Titty Twister. Além disso, o filme ainda conta com atuação da GRANDE Sônia Braga (sim, ela mesma), que não negou nem a maquiagem bizarra de vampirona; além do excelente Michael Parks em um papel histórico de Ambrose Bierce (escritor de terror que se juntou ao grupo rebelde de Pancho Villa na Revolução Mexicana). Filme B bem divertido.

Um Drink no Inferno é uma experiência cinematográfica divertidíssima. Um filme de gangsteres e vampiros que entrou para a história e dispõe de duas mentes criativas MUITO talentosas. Um dos melhores filmes de terror dos nos 90.




Parte 2 – Planeta Terror (Planet Terror, 2007) de Robert Rodriguez

Quando Robert Rodriguez estava filmando o bom cult alienígena dos anos 90, Prova Final, ele já previu que os filmes de zumbis teriam uma retomada nos cinemas em um futuro próximo. Os últimos grandes longas de zumbis haviam sido A Noite dos Mortos Vivos (refilmagem) e Fome Animal, no começo dos anos 90. Durante uma conversa com Elijah Wood e Josh Hartnett no set do filme, ele disse que já possuía um rascunho de 30 páginas de um filme sobre mortos vivos, e que gostaria de se empenhar mais na produção do filme.

Conforme havia previsto, a partir de 2002 os filmes de zumbis voltaram à tona com o sucesso de Resident Evil – O Hóspede Maldito e Extermínio. Mas foi finalmente com Madrugada dos Mortos, em 2004, que o subgênero se fixou novamente. Arrependido de não ter realizado seu projeto anteriormente, Rodriguez encontrou em Grindhouse a oportunidade definitiva de ter seu desejo realizado. Após não ter tido uma boa experiência na direção de Prova Final, pela insistência dos produtores em limitar o estilo enérgico do diretor, Rodriguez teria liberdade criativa para desenvolver Planeta Terror (inicialmente Projeto Terror), com muita fidelidade aos clássicos trash e exploitation que tanto venera.

Com uma história que aproveita todas as oportunidades de seu absurdo, Planeta Terror pode ser descrito como uma mistura de A Noite dos Mortos Vivos, A Volta dos Mortos Vivos e Fuga de Nova York (ATENÇÃO: não confundir o clássico de George A. Romero de 1968, com A Volta dos Mortos Vivos dirigido por Dan O’Bannon em 1985). Acesse aqui se você quer conhecer mais sobre filmes de zumbis.

Toda trama envolvendo uma conspiração militar científica parece uma forma de Rodriguez homenagear a inteligente paródia de O’Bannon, que envolvia tanques com zumbis derretidos após uma experiência militar que deu errado. Planeta Terror traz mortos vivos que se transformam após entrar em contato com um gás verde sugestivo (reparem no atmosférico plano do gás se dissipando através da lua cheia), da mesma forma que a Trioxina no longa de 1985.

Aproveitando para criar sequências de ação com um festival de tiros ensurdecedores assim como no cinema de Sam Peckinpah, e explosões de sangue divertidamente exageradas, Rodriguez ainda aproveita para utilizar o canastra personagem de Bruce Willis (‘Where’s the shit!?”) como forma de brincar com o modo como os exploitations utilizavam atores famosos em seus filmes. Para atrair público para os cinemas, os cineastas utilizavam pontas de atores famosos fora da fotografia principal (já que não conseguiam pagar o salário completo), mas faziam a publicidade como se esses atores fossem parte importante da trama. O mais engraçado é que quando o filme foi lançado no Brasil, a próprio Europa Filmes fez um trailer especial, lançado nos cinemas, colocando Bruce Willis como o próprio protagonista!

Com um trabalho de maquiagem riquíssimo em sangue, pústulas, bolhas, pus, gosmas, tripas, desmembramentos e nojeiras afins (também da KNB FX), Planeta Terror afirma seu caráter splatter com orgulho. Os mortos vivos são realmente pútridos e gosmentos, elevando à enésima potência o “Tarman” de A Volta dos Mortos Vivos. Inclusive, Rodriguez não esquecer de pontuar o detalhe icônico da predileção dos zumbis por cérebro. Em soma, Rodriguez ainda cria umas versões cheias de apêndices diferentes dos zumbis (como na cena do militar interpretado por Tarantino) para referenciar as criaturas de Do Além; além de citar diretamente as cenas mais gore do cinema de George A. Romero, como o momento de evisceração do Capitão Rhodes em Dia dos Mortos. Reparem na carnificina bizarra cometida no hospital do filme. E é ótimo que Rodriguez tenha resgatado os mortos vivos lentos e insidiosos de Romero, importante para dar uma aura de decomposição para aquelas criaturas.

Tão importante quanto os zumbis bizarros, Rodriguez também ambienta o espectador em uma paisagem atmosférica que brinca com os clichês de horror. Desde a densa névoa cobrindo a paisagem noturna e que torna o luar mais sinistro (a sequência de Fergie na estrada é genial), até as fontes de luz desconexas que tornam uma floresta morta ao redor de uma cabana ainda mais sombria (como na casa de Earl McGraw, parecida à de The Evil Dead). Já as cenas em ambientes de laboratório aproveitam a oportunidade para criar aqueles computadores imensos cheios de luzes piscando que era característico do futurismo do fim dos anos 70 e 80, tanto em produções B (Criaturas) quanto A (Alien – O 8º Passageiro).

A própria trilha sonora do diretor, rica em sintetizadores e batidas “bregas” dos anos 80, é eficaz no clima cheio de empolgação do filme. Segundo o próprio diretor, ele tocava os temas compostos para O Enigma de Outro Mundo e Fuga de Nova York, para ambientar os atores com clima do filme. Baseado nas composições de John Carpenter, além do trabalho de Ennio Morricone em O Enigma de Outro Mundo, a trilha de Planeta Terror funde tons macabros trash com um rock’n’roll (o tema principal é SENSACIONAL) que mantém um ritmo constante do filme. Há até uma cena de amor do filme que homenageia, em montagem e música, uma cena semelhante de O Exterminador do Futuro. O próprio John Carpenter foi convidado por Rodriguez para compor a trilha sonora do filme, porém o mestre recusou a oferta.

Em acordo com o exploitation, a fotografia de Rodriguez abusa dos grãos maiores, acusando uma estética mais suja e grosseira, sem perder as cores fortes daquele universo fantasioso urgente, com uso de filtros verdes, amarelos e vermelhos. Os efeitos especiais que mimetizam riscos, queimados e “machucados” na película dão um efeito nostálgico, principalmente nos momentos de maior tensão, como no confronto de Dakota e Dr. Block no hospital. A brincadeira do “rolo perdido” também é incluída em um momento oportuno, que cria uma piada narrativa com o entusiasmo do momento.

Assim como em Um Drink no Inferno, o diretor parece se divertir MUITO com seus personagens absurdos. Desta vez, temos como protagonista uma go-go dancer atrevida e independente, Cherry Darling (Rose McGowan, experiente como scream-queen em Pânico); que é introduzida da mesma forma que Santanico Pandemonium. Em determinado momento, a personagem perde uma perna, que é substituída por uma metralhadora (!!), fazendo parceria ao revólver peniano de Sex Machine no longa de 1996. Já o herói El Wray (Freddy Rodriguez, impagável) é construído com um persona tão segura e misteriosa quanto Snake Plissken em Fuga de Nova York, inclusive em seu passado misterioso e lendário. Também é interessante reparar que El Wray é o nome do reduto ao qual os Irmãos Gecko estão fugindo em Um Drink no Inferno, criando uma ponte mítica entre os dois filmes.

Também se destaca a volta do xerife Earl McGraw (Michael Parks), marca do universo Tarantino/Rodriguez; desta vez, apresentando sua poderosa filha, a Dra. Dakota Block (Marley Shelton, do ruim slasher pós-Pânico, O Dia do Terror). Papel feito especificamente para Shelton após ela ter trabalhado com Rodriguez no sensacional Sin City – A Cidade do Pecado, Dakota é uma personagem forte e determinada. O diretor aproveita a beleza e os grandes olhos da atriz para criar imagens icônicas da estranheza do rosto borrado da personagem; criando um dos melhores cartazes do filme. Já seu marido, o Dr. Block de Josh Brolin (o eterno irmão mais velho d’Os Goonies), traz um tom de médico louco grotesco assim como o Dr. Hill de Re-Animator – A Hora dos Mortos Vivos.

Com todo um elenco homogeneamente divertido no exagero e cheio de expressões nada sutis, Planeta Terror traz participações especiais de Tom Savini (dispensa apresentações) e Carlos Gallardo (o Mariachi original) como os policiais humoradas do xerife interpretado pelo eterno Kyle Resse, Michael Biehn; responsável por frases de efeito hilárias. Sem contar a participação de Jeff Fahey (Anatomia de um Assassino) como o simpático J.T. e Quentin Tarantino no papel do personagem mais asqueroso do filme.

Cheio de ação absurda, Rodriguez cria algumas das cenas mais icônicas do cinema fantástico do século XXI, sempre com sua montagem dinâmica e câmera ágil. Não somente é divertido ver Cherry Darling dando todas suas piruetas e disparando sua metralhadora a bordo de uma Harley Davidson com pose de Rambo, como também é inventivo o modo que Rodriguez faz da especialidade de Dakota (anestesia) para empoderá-la. Ainda por cima, o diretor mimetiza a sequência de perseguição do fim de Fuga de Nova York ao criar uma solução para situação de sítio à la A Noite dos Mortos Vivos. Já a sequência final na base militar extrapola tanto as explosões nonsense quanto seria necessário para um filme com essa proposta. Também envolventes no tom nostálgico, são os closes abruptos e planos detalhes dramáticos que Rodriguez realiza, como na atmosférica cena em que o diretor transita entre os olhos tensos de Dakota e uma terrível seringa empunhada por Dr. Block.

Destituído de necessidade de ser “sério” como obras como Guerra Mundial Z e Eu Sou a Lenda, Planeta Terror é um filme que se orgulha de estar ao lado de obras como Demons – Filhos das Trevas, A Coisa, A Noite dos Arrepios e até os filmes de Lucio Fulci. São todos filmes que sublimam a falta de recursos com criatividade, aproveitam o absurdo de seus universos e focam em criar uma diversão escapista intensa.

Planeta Terror é admirável em sua sinceridade, e vigoroso na sua proposta. Muito mais divertido do que tinha direito de ser.

Parte 3 – À Prova de Morte (Death Proof, 2007) de Quentin Tarantino

Em uma entrevista, Quentin Tarantino afirmou que desde 1992, quando estreou como diretor em Cães de Aluguel, não houve nenhum filme que tivesse uma perseguição automobilística realmente impressionante. Segundo o diretor, com exceção de O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final, e a sequência da autoestrada em Premonição 2, o uso de CGI em excesso tirou muito da veracidade e intensidade das perseguições de carro.

De certa forma, o diretor estava correto. Já que há muito tempo não se via nas telonas cenas de ação envolvendo fuga de carros tão emocionantes quanto as vistas no clássico vencedor do Oscar Operação França ou no policial 80’s Viver e Morrer em Loas Angeles, ambos do GRANDE diretor William Friedkin. E com a intenção de prestar sua homenagem a filmes como 60 Segundos (o original de 1974), Fuga Alucinada e The Wraith – A Aparição, Tarantino desenvolveu a ideia de À Prova de Morte, um filme slasher onde o assassino é um misógino ex-dublê de filmes B que aniquila suas vítimas através de colisões de carros.

Diferente de Robert Rodriguez, que criou um autêntico “filme ruim” exploitation de corpo e alma, Tarantino trapaceia um pouco no seu projeto; afinal de contas, o diretor e roteirista é MUITO inteligente. Mais que um filme de perseguições automobilísticas SENSACIONAIS, o filme de Tarantino é um símbolo do empoderamento feminino no clima dos longas dos anos 70 de Pam Grier, em um gênero em que as mulheres, na grande maioria das vezes, nunca foram bem retratadas.

Com um excelente, e BELO, elenco feminino, Tarantino cria suas personagens através de diálogos sobre música, sexo, bebidas, drogas e pregando peças umas nas outras com uma naturalidade e desenvoltura ao qual elas nunca tiveram a chance em pornochanchadas como Porky’s, A Primeira Transa de Jonathan e O Último Americano Virgem. Todas a garotas possuem seu espaço e exibem diferentes personalidades. Mas assim como em todos os seus filmes, Tarantino parecer criar diálogos espirituosos e cool sobre “nada”, enquanto utiliza os mesmos para desenvolver suas personagens e levar a trama adiante. Desta forma, conhecemos a indomável Jungle Julia (Sydney Tamiia Poitier, filha do GRANDE Sydney Poitier), a materna e doce Abernathy (Rosario Dawson, a poderosa Gail de Sin City) e a impassível Kim (Tracie Thoms, de Looper) como uma forma de retratar personagens femininas negras icônicas de longas blaxploitation como Coffy e Foxy Brown.

Utilizando recursos metalinguísticos a seu favor, como sempre, Tarantino já brinca com a manipulação de películas nos antigos Grindhouses ao inserir um frame modificando o título do filme (que seria Thunderbolt, originalmente). Também são feitas brincadeiras acerca de falhas na colagem de frames (como na repetição de falas no início do filme) e interrupção abrupta de trilha e efeitos sonoros, com destaque para a inclusão do tema romântico que Pino Donnagio compôs para Um Tiro na Noite, nas cenas de Jungle Julia ao celular. Na verdade, À Prova de Morte já causa uma estranheza nostálgica pelos créditos iniciais, com letreiros desenhados em amarelo forte, em fontes saudosistas.

A própria fotografia do filme é um recurso narrativo importante para os acontecimentos. Enquanto a primeira metade apresenta a estética “lavada” e crua dos anos 70 (sem faltar os riscos e “machucados” projetados na película); a segunda metade apresenta cores mais fortes, estética moderna e película limpa. Para quem viu a conclusão de cada uma das metades, sabe que a fotografia acompanhou a evolução das personagens que estão sendo retratadas, e a forma como lidarão com o mesmo assassino.

Além disso, a carga de valorização do poder feminino já pode ser conferida desde o quadro em que o diretor enfoca Jungle Julia deitada em um sofá na mesma posição que Brigitte Bardot, em uma imensa fotografia na mesma sala. Reparem, em especial, os vários cartazes de filmes clássicos e B sobre mulheres poderosas, espalhados pelo boteco de comida mexicana em determinado momento. A própria câmera de Tarantino trabalha o belo copo de suas atrizes transcendendo o fetiche, utilizando ângulos baixos e planos detalhes (principalmente de pés, claro) que endeusam suas personagens e as torna quase intocáveis (mesmo ao focar os glúteos de Jungle Julia durante uma longa sequência). O foco no imenso cabelo selvagem da mesma personagem também é um toque especial.

Em contrapartida, os homens do filme são retratados em segundo plano, como Tarantino faz questão de “esconder” o namorado de Arlene (Vanessa Ferlito) atrás do corpo da mesma enquanto ela dança com sua amiga. O que nos leva ao assassino Dublê Mike, interpretado pelo lendário parceiro de John Carpenter, Kurt Russell. Par o papel, foram considerados outros atores, incluindo Mickey Rourke, Sylvester Stallone, Ving Rhames e até John Jarrat (o assassino australiano do assustador Wolf Creek – Viagem ao Inferno). Russel já se apresenta com uma caracterização que denuncia o estilo saudosista brega do personagem, enquanto seu porte e modo de falar contradizem a “breguice” através de uma auto-confiança que deixa o personagem, ao mesmo tempo, patético e ameaçador. A cena em que o Dublê Mike confronta “Butterfly” é genuína em traduzir o estranho fascínio que a mulher criou por aquela figura.

Com uma cicatriz no mesmo olho em que utilizava um tapa-olho estiloso quando encarnou Sanke Plissken em Fuga de Nova York e Fuga de Los Angeles, Kurt Russell também adota um tom cínico caipira divertido para o personagem, como se fosse uma versão infernal de Jack Burton (Os Aventureiros do Bairro Proibido). O personagem, inclusive, é chamado de Frankenstein, personagem de um filme cult de corridas dos anos 70, chamado Corrida da Morte – Ano 2000. Há um momento em especial, em que o ator sabiamente quebra a quarta parede, quando olha para a câmera e dá um sorriso maquiavélico antes de um assassinato em massa. Ciente que À Prova de Morte é um filme sobre o poder das mulheres, Russel também exibe um bom timming cômico ao refletir medo e pavor de algumas delas após uma retribuição violenta, principalmente ao mimetizar gritos estridentes de “mulherzinha” em um momento específico.

Sem perder o clima de mistério e terror, Tarantino consegue criar uma atmosfera macabra em determinados momentos, como ao utilizar uma rilha sonora sinistra (que Ennio Morricone criou para o cinema de Dario Argento) ao criar quadros onde Mike observa suas vítimas em seu carro (como se fosse a Sra. Voorhees espreitando nas matas de Crystal Lake em Sexta-Feira 13). Além disso, a cena do primeiro assassinato trabalha idealmente a silhueta daquele carro assassino em meio a bruma de uma estrada sombria. Aliás, a cena da colisão é um dos assassinatos em massa MAIS INACREDITÁVEIS que você verá em qualquer filme. Tarantino utiliza sua técnica narrativa de mostrar o mesmo acontecimento através de pontos de vista diferentes (como no clímax de Jackie Brown) de uma forma que se torna cada vez mais chocante enquanto é repetida. Realmente, é de uma sequência gore de tirar o fôlego.

Já no segundo seguimento, além de criar uma cena de café-da-manhã que se torna a versão feminina da cena similar de Cães de Aluguel, Tarantino arquiteta uma longa sequência de perseguição que deixa nossos nervos à flor da pele. Além de citar as cenas de ação do clássico Mad Max, ao trazer um ambiente árido igual ao daquele universo pós-apocalíptico, a cena de ação traz vários planos sequências, praticamente nenhum efeito digital e um trabalho GENIAL da atriz Zöe Bell (verdadeira revelação). A carismática atriz, aliás, começou no cinema como dublê, inclusive de Uma Thurman em Kill Bill. Em À Prova de Morte, a corajosa Bell se arrisca no capô de um carro, em auto velocidade, sem proteção, enquanto outro carro a persegue com colisões. E a câmera de Tarantino acompanha tudo em altíssima velocidade, com um tom quase documental, que torna urgência e periculosidade da situação quase insuportável de acompanhar. A sequência é MUITO intensa e emocionante justamente pelo controle de Tarantino em sua montagem, já que a maior parte dos outros diretores criariam inúmeros cortes rápidos e câmera "chacoalhando".

Contando com os icônicos carros vistos nos clássicos Bullit e Corrida Contra o Destino, À Prova de Morte ainda brinca com o universo compartilhado Gridhouse, trazendo de volta os personagens Earl McGraw e seu filho (originalmente de Um Drink no Inferno 1 e 2), além da furiosa Dakota Block de Planeta Terror. Reparem também em Rose McGowan (a Cherry Darling) interpretando outra personagem em À Prova de Morte, enquanto as loucas Babysitter Twins de Planeta Terror (Elise e Electra Avellan) também marcam presença aqui.

Como curiosidades: a cena de lap dance de Abernathy ficou faltando na versão original de Grindhouse, como forma de brincar com os “rolos perdidos” daqueles antigos cinemas. Além disso, a música “Down in Mexico” seria utilizada originalmente na dança sensual de Santanico Pandemonium em Um Drink no Inferno, que acabou sendo “After Dark”. A jukebox do bar em que o próprio Tarantino interpreta o dono, idealmente antiquada em sua arquitetura de madeira, neons e cartazes antigos, é do próprio diretor. Aliás, a seleção musical do filme, além dos temas incidentais (destaque para "The Last Race") é ÓTIMA, cheia de rock e folk dos anos 60 e 70; com "Baby It's You, de Smith, marcando o filme completamente.

Com um elenco homogeneamente formidável (a química entre as atrizes é indiscutível), À Prova de Morte concorreu a seis prêmios ao redor do mundo. Inclusive, o filme foi exibido na mostra competitiva do Festival de Cannes. Um grande feito.

À Prova de Morte é capaz de agradar tanto os fãs de exploitation quanto os fãs de filmes “sérios” de Tarantino. É o diretor continuando a revalidar o cinema bagaceiro dos anos 70 para plateias do mundo todo.

Parte 4 – Prevues of Coming Attractions:

Machete de Robert Rodriguez

O diretor Robert Rodriguez alega que quis fazer com Machete uma versão de James Bond mexicano. Com um clima de ação descerebrada e violenta IMPAGÁVEL (a metralhadora acoplada na Harley Davidson é sensacional), o próprio protagonista Machete de Danny Trejo (que se tornou seu maior papel no cinema) parece uma mistura de Chuck Norris em Braddock – O Super Comando com o Cobra de Sylvester Stallone, e isso em um filme de ação tosco produzido pela famigerada Cannon (produtora B de American Ninja e Invasão USA).

O trailer ainda conta com frases tão bregas quanto a ação exploitation tem direito, com destaque para: “He knows the score; he gets the women and he kills the bad guys!”. Bem como, a prévia não poupa flashes de nudez gratuita que não faltavam a esse tipo de filme, além de sangue jorrando a partir das ações do herói e seu “facão”. Para melhorar ainda mais, o trailer já nos apresenta a coadjuvantes divertidíssimos, como o padre matador interpretado por Cheech Marin (“Deus tem piedade...eu NÃO!”).

Rodriguez realizou um longa-metragem de Machete em 2010, além de uma sequência em 2013, Machete Kills. Apesar de divertidos, nenhum dos filmes conseguiu fazer justiça à prévia criada para Grindhouse, mesmo se levarmos em consideração a participação de nomes como Steven Seagal, Robert De Niro, Antonio Banderas, Mel Gibson e Charlie Sheen brincando com estereótipos.


Mulheres Lobisomens da SS (Werewolf Women of the S.S.) de Rob Zombie

Rob Zombie sempre deixou claro em seu cinema, desde o esquisito A Casa dos 1000 Corpos, que sempre teve apreço pelo cinema exploitation dos anos 70. Pessoalmente, não é um cineasta que eu tenha apreço, já que ele DESTRUIU o clássico Halloween – A Noite do Terror com sua infame refilmagem e sequência; mas ao menos ele tem Rejeitados pelo Diabo em seu currículo.

Nesse trailer, ele trabalha uma vertente do exploitation voltada para os experimentos científicos secretos dos nazistas, como em Ilsa – She Wolf of the SS. A história seria sobre um plano secreto de Hitler para criar uma raça de super-mulheres, transformando-as em lobisomens. A prévia faz alusão ao cult bizarro Grito de Horror 2, ao trazer Sibyl Danning como um lobisomem com a maquiagem tão divertida quanto naquele filme; além de colocar Bill Moseley num papel tão surtado quanto o de Chop Top do, também bizarro, O Massacre da Serra Elétrica 2.

Por outro lado, o trailer parece mais um emaranhado de cenas sem conexão fundamentada, apesar dos efeitos especiais saudosistas (a transformação do lobisomem em meio à fumaça é tão terrivelmente boa que lembra os piores momentos de Grito de Horror 3) e da boa ambientação na neve. Mas a melhor parte fica para a participação de Nicolas Cage como Fu Manchu, não dispensando a risada diabólica e os letreiros bregas.


Não Faça Isso! (Don’t) de Edgar Wright

Juntamente com Thanksgiving, Don’t é o trailer de Grindhouse mais divertido. Edgar Wright (que é britânico) cria seu trailer no estilo dos filmes de terror europeus da década de 70 e 80, utilizando os filtros de cores saturadas de longas como Banho de Sangue (Mario Bava) e Mansão do Inferno (Dario Argento); além de mutilações, crianças bizarras, olhos vazando e tom satanista caros ao cinema de Lucio Fulci, principalmente Terror nas Trevas.

O trailer ainda faz uma brincadeira com ambientação em um antigo castelo em local desértico e macabro, como as nostálgicas produções da Hammer (produtora inglesa famosa pelo Drácula de Cristopher Lee) e da Amicus (produtora, também inglesa, famosa por antologias de terror, como A Casa que Pingava Sangue). Wright cria uma colagem de cenas com clima de alucinação e rituais grotescos que é realmente arrepiante.

O nome Don’t se refere a um filão de filmes de terror da época que tinham “Don’t” no título: Don’t Go Into the Woods (Perigo na Floresta), Don’t Go Into the House (Chamas do Inferno), Don’t Answer the Phone. A repetição do termo “Don’t” remete ao trailer do slasher 70’s Torso, em que a palavra era repetida diversas vezes seguidas. Também podemos ver similaridades com o trailer do slasher clássico Chamas da Morte/A Vingança de Cropsy, em que as cenas de morte e terror eram congeladas em frame enquanto o locutor repetia o título do filme. Sem esquecer a participação de Nick Frost e Simon Pegg (a dupla da Trilogia Sangue e Sorvete) como dois maníacos abomináveis.


Dia de Ação de Graças (Thanksgiving) de Eli Roth

Segundo o diretor Eli Roth, para quem era fã de slasher e viveu durante a década 80, sempre que chegava alguma data comemorativa havia uma expectativa sobre um novo filme de terror temático. Afinal de contas, Halloween marcou época, e abriu as portas para slashers como Sexta-Feira 13, Dia dos Namorados Macabro, O Dia das Brincadeiras Mortais (Dia da Mentira), Natal Sangrento, Réveillon Maldito, A Morte Convida para Dançar (Formatura) e vários outros. Porém, nunca houve nenhum slasher que se passasse no Dia de Ação de Graças.

Absolutamente, Thanksgiving é o trailer mais engraçado de Grindhouse. Com uma locução quase inaudível para denotar um tom soturno, Eli Roth cria pequenos momentos de comédia a partir das situações exageradas dos filmes slashers. O plano da facada “dramática” no tradicional peru assado do feriado remete ao coração sangrento de Dia dos Namorados Macabro; enquanto o ataque na passeata junta tantos atores ruins em cena tentando demonstrar desespero que torna a situação HILÁRIA. E os policiais provando o sangue do cadáver para comprovar que era realmente sangue é de rachar de rir (reparem na participação de Michael Biehn).

E como não poderia deixar de ser, como todo em slasher, há nudez e sexo gratuitos na prévia de Thanksgiving (a cena de decapitação durante um sexo oral é impagável). Com atores reaproveitados das filmagens de O Albergue II, Thanksgiving também não deixa de fornecer uma caracterização “estilosa” ao seu assassino, assim como Harry Warden em Dia dos Namorados Macabro.


O Mendigo com Uma Escopeta (Hobo With a Shotgun) de Jason Eisener

Eleito por Tarantino e Rodriguez como o melhor dentre inúmeros outros trailers falsos realizados por jovens cineastas e fãs de exploitation, Hobo With a Shotgun é, de todos, os que mais celebra o “mal gosto” do exploitation. Possivelmente pelo caráter amador das cenas, o filme parece ter sido feito por um discípulo de John Waters (o lunático por trás de Pink Flamingos).

O filme trabalha com base na ação violenta e exagerada, assim como em Machete, trazendo um protagonista justiceiro que toma atitudes tão drásticas e insanas quanto o personagem de Charles Bronson em Desejo de Matar em uma sociedade tão crua e bruta quanto o das gangues de Warriors – Os Selvagens da Noite. Todos os atores do filme estão tão caricaturais quanto a prévia merece, com destaque para o raivoso protagonista, que lembra um sub-Dennis Hooper em Veludo Azul.

Jorrando sangue, o trailer não deixa de criar situações nada sutis envolvendo as ações do “herói”, mostrando-o matando, desde pedófilos vestidos de Papai-Noel até policiais corruptos que abusam de prostitutas. O trailer foi transformado em um longa-metragem, em 2011, estrelado por ninguém menos que Rutger Hauer, ator de filmes icônicos como Blade Runner – O Caçador de Andróides, O Feitiço de Áquila, Conquista Sangrenta e A Morte Pede Carona.




Divulgaí

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