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Especial King Kong: Revisitando as Versões do Rei dos Macacos

Kong: A Ilha da Caveira, diferente dos filmes anteriores, assume sua aura de filme de aventura “B” e aposta em uma história cheia de ação e “porradaria” entre criaturas bizarras.
Especial King Kong: Revisitando as Versões do Rei dos Macacos

Nesse início de março de 2017 estamos vendo mais uma versão do gorilão gigante mais famoso da sétima arte chegando aos cinemas. Kong: A Ilha da Caveira, diferente dos filmes anteriores, assume sua aura de filme de aventura “B” e aposta em uma história cheia de ação e “porradaria” entre criaturas bizarras. O filme ainda adota uma estética cheia de cores saturadas embaladas por filme de guerra contemporâneos (Apocalipse Now é referência óbvia) e uma trilha sonora pop dos anos 1970 que agradará a muitos.

No entanto, cada versão de Kong possui seu valor especial e refletem a própria época em que foi construído. Se na década de 1930 ainda havia muito mistério no mundo a ser temido e descoberto; nos anos 1970 a onda de manifestações sócio-políticas estava em alta; sendo que várias delas atacavam o capitalismo desenfreado. Já no início dos anos 2000 já havia sido desenvolvido um pensamento influente, e importante, sobre as liberdades animais, e a senciência dos vertebrados. Inclusive, se formos refletir sobre o mundo atual em que vivemos, onde a cultura pop tomou conta das relações humanas, e os filmes blockbusters são basicamente sobre super-heróis, robôs e aventuras espaciais (sem desmerecer nenhum filme), é natural que Kong: A Ilha da Caveira não exiba nenhuma das altas pretensões temáticas dos filmes anteriores.

Em relação à própria arte, cada filme teve seu papel importante. Principalmente o clássico de 1933, que quebrou imensas barreiras e serviu de exemplo para os avanços técnicos de som, trilha sonora e efeitos especiais no cinema. Porém, a versão de 1976 também avançou no campo da maquiagem e efeitos especiais; enquanto o filme de Peter Jackson foi mais um passo decisivo para a instauração dos efeitos visuais baseados em rotoscopia.

Portanto, para comemorar o lançamento do divertido Kong: A Ilha da Caveira, nós da equipe Loucos por Filmes fizemos uma revisão sobre todas as principais versões anteriores do gorilão para o cinema. Na análise foram consideradas apenas as três versões clássicas principais do gorilão, desconsiderando sequências, animações e filmes mais obscuros que colocavam o personagem contra algum outro monstro (como King Kong vs. Godzilla de 1962).

1 – King Kong (Idem, 1933) de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack

King Kong é um clássico inestimável do gênero fantástico e da sétima arte como um todo. Preservado no National Film Registry, essa obra oriunda da Era de Ouro de Hollywood é um reflexo do contexto social no qual viviam os estadunidenses da época (ainda na Grande Depressão de 1929) e o modo como a humanidade, até então, enxergava a natureza e a vida selvagem. Produzido pelo “gigante” produtor David O. Selznick, o nome por trás de obras-primas como ...E O Vento Levou e Rebecca – A Mulher Inesquecível, esse longa de 1933 ainda marcou história no âmbito de efeitos visuais e trilha sonora.

Criados por Willis O’Brien, os efeitos visuais baseados em stop motion (que serviu de inspiração para toda a carreira de Ray Harryhausen), além de truques de proporção e sobreposição de imagens são IMPRESSIONANTES ainda nos dias de hoje, principalmente se considerarmos a tecnologia disponível da época. As movimentações e interações de Kong com as outras criaturas da Ilha da Caveira são arquitetadas com uma ferocidade que ajuda a tornar tudo mais factível. A briga de Kong com um T-Rex ou com um salamandra gigante, por exemplo, são hábeis em nos trazer a intensidade do momento pelo detalhismo como foram criados os movimentos de cada criatura, seu design apurado (incluindo a textura diferenciada de cada uma) e suas reações frente aos atores (com destaque para as expressões faciais de Kong) e às outras criaturas selvagens.

Aliás, os diretores Cooper e Schoedsack (ambos experientes em documentários sobre a vida selvagem) conseguem engrandecer ainda mais os efeitos criados para o filme ao criarem planos panorâmicos belíssimos que exploram a selva opressora da ilha (como as matas densas da cena de introdução de Kong) e da caverna do personagem título. Esta última aliás, possui tantas camadas e barreiras diferentes que se torna quase um filme 3D. Os diretores ainda conseguem aproximar mais aquelas criaturas, e sua periculosidade, do verossímil, ao criar alguns quadros que trabalham a sobreposição de imagem de forma impactante, como o plano sequência que acompanha o cineasta Carl Denham em longo do torso de uma colossal criatura após abatê-la.

A fotografia (feita a oito mãos!) utiliza um contraste forte entre o preto e o branco, conseguindo criar um clima de suspense a todo momento; resultando em imagens tão elegantes (quanto em um film noir) quanto assustadoras (como na bela fotografia noturna da Ilha da Caveira). O caráter de fantasia ameaçadora da fotografia é principalmente visto no momento em que os homens vão resgatar Ann em uma selva cheia de perigos.

Embora tenha um primeiro ato fraco, principalmente pela falta de desenvolvimento de personagens mais interessante, o diretor mantém muito bem o ritmo do filme do segundo ato em diante. Toda a sequência da Ilha da Caveira aliás, nos deixa sempre na beirada da poltrona esperando pelo próximo animal selvagem gigantesco que atacará os personagens humanos. Apropriadamente em escala GRANDIOSA, as criaturas são animalescas e ameaçadoras no nível que a urgência do filme exige (reparem nas ações violentas da criatura jurássica do lago), criando uma ótima combinação com as florestas cheias de plantas ostensivas, reentrâncias soturnas, aguadas duvidosas e declives assustadores.

Já o som do filme é outro triunfo da sétima arte. King Kong foi o primeiro filme a criar três faixas diferentes de som (diálogos, efeitos sonoros e músicas). Os efeitos sonoros, aliás, merecem aplausos pela criatividade envolvida. Cada criatura possui uma sonoridade particular, e isso intensifica a credibilidade das mesmas de forma singular (deem especial atenção ao trabalho de som inventivo realizado na luta de Kong com o T-Rex). Além disso, essa foi a primeira vez que vimos uma trilha sonora original temática (crédito de Max Steiner) em um grande fundo; em que as melodias tocadas são integrantes das imagens.

No entanto, esse clássico não está livre de algumas críticas, embora algumas delas seja, claramente, retrato de seu tempo. A protagonista Ann Darrow (a assustadiça Fay Wray) é uma personagem extremamente passiva e desinteressante (durante todo o segundo e terceiro ato, a atriz se limita a ficar histérica). Encontrada em uma situação humilhante, todos os acontecimentos de sua vida são guiados através de decisões de homens. Aliás, há uma breve cena em que Kong, claramente, a toca com conotações sexuais, e a trilha sonora do filme implementa alguns tons bem-humoradas incabíveis, e até desrespeitosos, no momento.

Da mesma forma, a visão que os diretores trazem sobre a natureza selvagem e seus animais é extremamente antropocentrista. Não há nenhum vislumbre de ideia de que os “homens” estavam errados em adentrar aquela ilha e interferir cruelmente naquele ecossistema. A questão de Kong ser capturado e levado para exposição na “civilização” nunca é questionada como um ato desumano. Ele é retratado apenas como uma fera que merece ser explorado e pronto. Mas como disse anteriormente, todos esses fatores são reflexos de seu tempo, afinal estávamos na década de 1930!

Geralmente aparecendo entre os 10 filmes mais importantes do cinema fantástico, King Kong já possui mais de 80 anos de existência e continua tão impressionante quanto em seu lançamento. Obrigatório para qualquer cinéfilo.

*O Filme possui uma sequência lançada no mesmo ano do original, intitulada O Filho de Kong, também dirigida por Ernest B Schoedsack.

Dica do monstro de stop-motion: Godzilla, O Monstro do Mar (Godzilla, King of the Monsters!, 1956) de Ishiro Honda e Terry Morse.


2 – King Kong (Idem, 1976) de John Guilhermin

Com produção do influente Dino de Laurentiis (responsável por obras icônicas do cinema fantástico como Barbarella, Flash Gordon, Duna e os filmes de Conan), a versão de 1976 de King Kong tentou revitalizar o clássico de 1933 para os dias “atuais”. Talvez embalado pelos filmes políticos e documentais que começaram a surgir após o sucesso de Easy Rider – Sem Destino (inspirado na contracultura), o produtor apostou em uma trama que incluía comentários críticos à ganância de grandes corporações e uma relação um pouco mais complexa entre Kong e Ann Darrow (aqui Dwan). Apesar das intenções progressistas, o filme acabou sendo sabotado por um roteiro mal escrito.

O roteirista Lorenzo Semple Jr (que já havia trabalhado com Dino de Laurentiis em Três Dias de Condor) contextualiza a trama de King Kong com boas ideias. A expedição que vai até a Ilha da Caveira, por exemplo, deixa de ser com intuito cinematográfico para se tornar uma viagem de navio-cargueiro de uma multinacional petrolífera em busca de um poço de petróleo. Uma mudança de tom adequada ao intuito do filme, instigando a ganância capitalista das grandes empresas modernas sobre a aura mítica e fantasiosa que os anos 1930 permitiam. O detalhe da jaula de Kong ser encapada pela figura de uma bomba de gasolina da marca da expedição é um toque de gênio.

De mesma forma, a mudança do herói da história de um viril capitão de navio (na década de 30) para um estudioso universitário ambientalista (o sempre carismático Jeff Bridges) também é uma boa sacada. Além disso, a intenção do roteirista de criar uma personalidade mais rebuscada para Kong é algo que merece palmas. Diferente da fera selvagem e animalesca adequada ao filme original, o Kong visto aqui demonstra emoções e sentimentos um pouco mais complexos, principalmente em relação a protagonista Dwan (a estreia de Jessica Lange no cinema); e nos momentos em que se vê capturado. Um tipo de sensibilidade à senciência animal que não havia no longa clássico.

Porém, o modo como é trabalhado a relação de Kong e Dwan é um dos problemas do filme. Até o momento final (adequadamente em uma das torres do World Trade Center), os sentimentos de Kong por Dwan são basicamente de desejos sexuais (!). O gorila gigante claramente olha, e toca, a protagonista com segundas intenções e com viés malicioso. Notem com atenção na fetichista cena em que Kong dá um banho em Dwan em uma gigante cascata natural. E quando chega o fim, o filme nos quer passar uma emoção trágica entre os dois personagens que simplesmente chega brusca, já que não havia sido trabalhada de forma inteligente, ou mesmo respeitosa. Portanto, a relação dos dois acaba se tornando apenas um caso perturbador de Síndrome de Estocolmo (afinal, se Dwan sentia tanto por Kong, porque concordou em participar daquele show?).

Em contrapartida, a decisão de criar momentos de revolta e melancolia de Kong durante a viagem para Nova York merece atenção especial. Esses momentos são decisivos para que consigamos sentir um pouco de empatia pela criatura, mesmo após ela ser retratada como uma “predadora sexual”.

Em relação à protagonista, a Ann Darrow do original era histérica e passiva, porém era uma garota que batalhava com honestidade por sua sobrevivência financeira. Já a Dwan desse longa de 1976 é um péssimo retrato das mulheres. Com um intelecto limitado (em muitos momentos ela fala e age como criança, como quando chega na praia) e reações imbecis (a brincadeira de “morde e assopra” com Kong em determinado momento é risível), Dwan é sempre retratada com roupas mínimas, que exploram o corpo de Jessica Lange, como se estivesse em um longa soft-porn. O diretor Guilhermin ainda toma a péssima decisão de fazer uma montagem em que ela anda pelo navio buscando olhares maliciosos e assobios dos tripulantes masculinos como um prêmio por sua beleza. Lange, infelizmente, fica muito limitada para criar uma personagem minimamente interessante. O que é uma pena, já que a época em que o filme foi feito era inundado por reflexões sobre igualdade de direitos femininos. Mas afinal, era o que se poderia esperar de um filme produzido por um empresário que negou o papel a Meryl Streep (sim, ELA) por achá-la “feia” demais. Sorte de Meryl.

John Guilhermin, saído dos recém-sucessos de Inferno na Torre e Morte Sobre o Nilo, toma algumas boas decisões visuais. O diretor já tinha experiência em filmes de selva anteriormente (dirigiu vários longas sobre Tarzan), e trabalha com detalhes o ambiente dos nativos da ilha, principalmente por fazer planos abertos superiores e panorâmicas que nos revelam a dimensão assustadora do paredão que separar a tribo da selva adiante. Juntamente com o diretor de fotografia Richard H. Kline (de clássicos como Jornada nas Estrelas: O Filme e A Fúria), Guilhermin trabalha as cores dos ambientes naturais para criar belas imagens. Destaque para a escuridão iluminada pelas chamas das tochas presentes no ritual de sacrifício da tribo (que exala uma sensação sufocante necessária ao momento) e até a aurora laranjada após a determinada noite, que é coerente com o “fogo” presente anteriormente. Sem contar a beleza plástica do momento de Kong e Dwan na cascata.

Apesar de belas imagens, o diretor não implementa um ritmo bastante irregular ao seu filme, o que faz com que o espectador fique cansado em vários momentos. Culpa também do roteiro arrastado, que é capaz de criar um momento romântico de jantar à luz de velas mesmo após Kong estar solto em Nova York (!). E é uma pena que não vejamos outras criaturas da ilha travarem uma luta com os humanos e o gorila gigante, com exceção de uma gigantesca, e desinteressante, serpente.

Não devemos nos esquecer de dar o devido valor aos efeitos visuais e maquiagem do filme. A equipe liderada por Carlo Rambaldi (o criador do E.T. e de efeitos de vários filmes de Dario Argento) faz um excelente trabalho com a maquiagem de Kong, e com as gigantescas próteses mecânicas de seus braços e mãos. Possibilitando algumas expressões faciais melhor definidas, o trabalho de maquiagem de Kong foi um avanço que rendeu à equipe um Oscar especial de efeitos especiais. O próprio Rick Baker (o mago da maquiagem) que trabalhou nos movimentos e na maquiagem de Kong. Em contrapartida, os efeitos baseados em sobreposição de imagens são um pouco mais problemáticos, principalmente na cena final de Kong envolto por helicópteros.

Ao fim, King Kong se revela uma releitura com algumas boas ideias que precisariam de um refinamento. A nossa sorte é que Peter Jackson absorveu o que havia de bom aqui para trabalhar de forma mais inteligente em sua obra-prima superior do gorilão gigante.

*O filme teve uma (malfadada) sequência lançada 10 anos depois, intitulada King Kong 2, também dirigida por John Guilhermin e com uma jovem Linda Hamilton no elenco.

Dica do monstro mecânico dos anos 1970: A Terra que o Tempo Esqueceu (The Land That Time Forgot, 1976) de Kevin Connor.


3 – King Kong (Idem, 2005) de Peter Jackson

A versão que Peter Jackson criou para a história fantasiosa do gorilão mais famoso do cinema junta tudo que havia de melhor nas duas primeiras versões. Do longa de 1933 o diretor pega a grandiosidade daquela jornada para nos apresentar a um universo selvagem inominável, cheio de aventura, ação e suspense. Já da refilmagem de 1976, Jackson captura a ideia da relação mais emocional entre Ann Darrow e Kong (mal utilizada naquele filme) para inspirar emoções e sentimentos genuínos no espectador. Um grande feito que só o homem por trás da trilogia O Senhor dos Anéis poderia ter realizado.

A começar pelo roteiro de Fran Walsh, Philippa Boyens e do próprio Peter Jackson, essa terceira versão de King Kong consegue dar muito mais importância e multidimensionalidade a seus personagens que nenhum das versões anteriores conseguiu. A primeira metade do filme é inteiramente focado em explorar aquelas personalidades, bem como suas dinâmicas, para que, após a ação iniciar, possamos ter uma ressonância mais emocional de todo o conflito.

Inicialmente, Carl Denham, com certeza, é um dos personagens mais interessantes da obra. Encarnado com o toque de humor característico de Jack Black (em um de seus melhores desempenhos), o cineasta exibe, ao mesmo tempo, uma paixão intensa pelo seu ofício e pelo desconhecido, nos encantando pelo seu esforço em tornar sua visão concretizada (sua crença em Ann Darrow é quase palpável). No entanto, ao mesmo tempo, Denham não se priva em enganar outras pessoas, e cometer atos antiéticos, para conseguir o que quer; se tornando o verdadeiro “monstro” do filme à medida que é tomado por pensamentos mais egoístas. Graças a bons diálogos que unem o humor à caracterização do personagem (“Vamos terminar o filme por ele e doar o lucros para sua esposa e filhos”), o roteiro consegue não demonizar o personagem, deixando os outros integrantes da história definirem isto de acordo com suas reações (“Ele tem grande talento em destruir as coisas que ama”). Aliás, Jack Black está PERFEITO no papel, trazendo seu olhar intenso característico (quase insano) para enaltecer as emoções boas e ruins de Carl equilibrando o humor a seriedade.

Já o herói encarnado pelo talentoso (e sumido) Adrien Brody é desenvolvido pelo roteiro com uma sagacidade que nos surpreende. Dramaturgo e roteiristas, Jack Driscoll se apaixona por Ann através da forma como ela reage às pessoas a sua volta (reparem no sorriso sutil do personagem ao ver Darrow filmando sua primeira cena). O roteiro sabe que a grande relação de amor aqui é entre Kong e Darrow, e é inteligente ao colocar o herói Driscoll reconhecendo esse sentimento e respeitando a cumplicidade entre os dois. Brody, aliás, consegue nos convencer das ações de seu personagem ao não reagir às situações com “pose de herói”, e até ao gaguejar ao conversar com a querida Ann.

E por falar em Ann Darrow, é um alívio dizer que a personagem FINALMENTE é tratada de uma forma respeitosa e empoderadora; da forma como “a loira que fez Kong se apaixonar” realmente merece. O mérito é tanto do time de roteirista quanto da sensacional Naomi Watts. Doce e trabalhadora (reparem no carinho como trata seus colegas de teatro), Ann é uma artista sabotada pela crise econômica da época em que vive. Diferente da protagonista do filme de 1976, Ann aceita o desafio de se firmar como profissional em busca de reconhecimento ao seu talento, mas com inteligência. Afinal, o roteiro deixa claro que ela teme (e nega) ir em uma viagem de navio com desconhecido, e só aceita o convite por reconhecer o valor de um dos artistas envolvidos. Já quando confronta o gigante Kong, Ann fica, compreensivelmente, atônita e histérica, mas com o passar do tempo ela aprende a reconhecer as expressões do animal e usar suas habilidades para que haja uma relação cada vez menos ameaçadora entre os dois.

Naomi Watts, também PERFEITA para o papel, realiza um trabalho tão instigante quanto na obra-prima Cidade dos Sonhos (embora de forma não tão complexa, claro). A relação com o filme de David Lynch vem diretamente das duas personagens serem atrizes e precisarem usar seus conhecimentos para enfrentarem o cotidiano (e a ideia de ela atuar para salvar sua vida, num delicado momento de humor, é um toque de gênio). Watts é hábil ao fazer Ann encarnar uma mulher destemida ao conversar com um produtor; ao tentar fingir menos necessidade quando conversa com Carl pela primeira vez, e até ao tentar se mostrar mais poderosa ao confrontar Kong nos primeiros momentos. Desta forma, a atriz nos faz acreditar na inteligência e no talento da personagem sem nunca deixar de demonstrar extrema humildade em seus atos. Transitando entre expressões de melancolia e (tocante) deslumbramento quase infantil, Watts trabalha a delicadeza emocional de Ann e ganha o coração dos espectadores. Sem contar que as cenas em que Watts atua como Ann atuando no filme dentro do filme, nos remete claramente às expressões afetadas e trágicas de Fay Wray no clássico de 1933.

Mas o grande triunfo do roteiro, além de ter desenvolvido maravilhosamente os personagens, é a construção delicada e tridimensional da relação entre Ann e Kong. Auxiliados pela GRANDE expressividade de Andy Serkis como o gorila, o roteiro cria um desenrolar de situações que nos explica com detalhes como aquele amor foi criado. Ann compreende as expressões de Kong para reagir a suas ações, presencia um momento de humilhação do gorila e depois age de forma a demonstrar para ele que ela precisa de sua proteção; o que leva o personagem-título a confiar na mulher para demonstrar um outro lado mais emotivo (a poética cena do pôr-do-sol). E quando Ann enxerga humanidade em Kong, ela compreende suas ações em seu habitat e se afeiçoa pela simplicidade da criatura.

É maravilhoso ver como o filme respeita a evolução de pesquisas em relação à senciência animal e implementou isso organicamente à sua trama. Aliás, me recuso a referir ao Kong desse filme como “monstro”.

Da mesma forma, Serkis trabalha os olhares de Kong com detalhes impressionantes para exprimir com todas as mais profundas emoções quando o símio está se divertindo, quando ele se sente envergonhado, apreensivo, com raiva e até com melancólico (o momento no lago congelado é uma das cenas MAIS lindas do cinema do século XXI). Um trabalho de atuação que não esperaríamos menos, já que nessa época ele já havia nos presenteado com Sméagol/Gollum.

Além de um roteiro que aproveita todas suas oportunidades, o filme também é efetivo graças à direção afiada de Peter Jackson, claro. A paixão do diretor pelo clássico King Kong nunca foi surpresa. Logo no início do trash insuperável Fome Animal é possível ver que aqueles personagens estão raptando o “Macaco-rato de Sumatra” justamente da Ilha da Caveira. E Jackson não esconde suas origens de cinema B em King Kong, reconhecendo que toda aquela situação é uma aventura absurda. Desse ponto de partida, o diretor recheia o filme com detalhes caricatos divertidos como o sugestivo mapa da Ilha da Caveira e as histórias de terror acerca do local.

Aliás, o próprio design de produção de Grant Major (também de O Senhor dos Anéis) consegue transitar entre o aspecto grandioso de um filme A e a caricatura de um filme B com talento. As imagens da Nova York de época são deslumbrantes, conseguindo nos passar a impressão daquela “selva de pedra” como símbolo da civilização e urbanização humana (com várias construções, correria de pessoas, muitos carros e ruas sujas) através dos olhos da Depressão de 29. A fotografia de Andrew Lesnie (também parceiro de Jackson) usa um tom acinzentado triste coerente com a época que contrasta com uma sensação de imagem cristalina elegante de um filme clássico. Também ajuda nesse aspecto, Jackson criar uma introdução que nos ambienta naquela situação desoladora e até ao fazer um paralelo com macacos em um ZOO.

Por outro lado, à medida que o filme chega à Ilha da Caveira o filme vai ganhando cores mais variadas e pronunciadas (com destaque para o crepúsculo púrpura e róseo) que se firmam cada vez mais na ameaçadora selva da ilha, onde haverão as cenas de ação e aventura que denunciarão com diversão o lado B da história. Diga-se de passagem, a caracterização da tribo nativa da Ilha da Caveira, bem como a aldeia, é MUITO assustadora. Explorando tocas de pedras, esqueletos, caveiras, formações rochosas com formato de cadáveres e macacos na grande muralha, além de uma falta de flora marcante, o ambiente nos passa a impressão de ser inóspito e ameaçador. Além disso, os detalhes macabros dos adereços dos nativos já prenunciam sua violência.

Já o design da selva consegue dar uma dimensão gigantesca para aquela mata, como se qualquer tipo de ser vivo (flora e fauna) naquele local tivessem a mesma proporção de Kong, e fosse tão selvagem quanto. Nesse ambiente, Jackson aproveita todas as situações fantasiosas do filme original e eleva à enésima potência (a chegada ostensiva no paredão de névoa é o maior exemplo). E dá-lhe batalhas com répteis gigantes, fuga contra uma manada de dinossauros, confronto com piranhas maiores que as embarcações dos personagens em um sinistro lago, e uma luta de Kong contra TRÊS T-Rex para salvar Ann.

Jackson consegue nos divertir pela intensidade com que filme a ação, criando longos planos que nos mostram o impacto dos atos das criaturas ao mesmo tempo que movimenta sua câmera por todo o ambiente. Destaque para o trabalho realizado na cena dos T-Rex, que passa por três ambientes diferentes com ação ininterrupta. Em favor à diversão, Jackson também sabe usar o humor-negro para deixar o espectador mais apreensivo, fazendo questão de mostrar vários insetos BIZARROS gigantes atacando os personagens de forma inesperada e insidiosa, por exemplo. Aliás, o trabalho de som do filme é excepcional (vencedor do Oscar em 2006), conseguindo tornar todas aquelas criaturas horrendas ainda mais asquerosas pela sonoridade que exalam (é impossível ficar indiferente ao momento que os personagens caem em uma vala cheia de criaturas). O diretor também aproveita para fazer brincadeiras alusivas ao original, como ao focar no detalhe da cauda de um dinossauro continuar mexendo após morto, ou Kong brincar com a mandíbula de outro após abatê-lo.

Os efeitos visuais do filme (também vencedores do Oscar) devem ser destacados pelo trabalho detalhado de textura e expressão dos personagens digitais (os olhos de Kong são incrivelmente verdadeiros) e pela imaginação ao criar o design de todos aqueles monstros. Sem contar no trabalho penoso que deve ter sido criar todos os ambientes diferentes, e incrivelmente realistas, de toda aquela ilha.

A trilha sonora de James Newton Howard auxilia o diretor a ditar o tom do filme sem chamar a atenção para si mesmo. O compositor alterna bem entre momentos de suspense grandioso e outros mais emocionais, sendo especialmente efetivo no modo como intensifica as batidas da música do ritual de “oferenda” a Kong para dar mais urgência à situação.

É verdade que Jackson se estende além do necessário. A relação entre o Sr. Hayes (Evan Parke) e Jimmy (Jamie Bell) é desnecessária, além de o terceiro ato se estender um pouco mais que deveria nas câmeras lentas. Porém, Jackson ao menos contrabalanceia esses erros ao cria uma boa montagem de paralelismo que nos surpreende pelo destino de Ann e a apresentação de Kong. Há referências divertidas como a do livro “O Coração das Trevas”, e até a brincadeira de mudar nossas expectativas na relação entre Ann e o capitão Englehorn (Thomas Kretschmann) na primeira cena. Além disso, o diretor fornece o espaço necessário para que haja um maior envolvimento emocional de Ann e Kong naquele trágico final. O filme não teria o mesmo valor sem todo seu sentimento.

Enfim, a versão de Peter Jackson para o clássico de 1933 não é só uma homenagem como também uma melhoria em vários aspectos. É um filme dramático que consegue nos fazer acreditar em um sentimento verdadeiro entre dois personagens completamente díspares; nos divertir com ação e aventura “absurdas” no meio do caminho, e ainda nos fazer chorar por aquele que deveria ser o “monstro”.

Uma obra-prima que nunca deve ser esquecida.

Dica do monstro do século XXI: Cloverfield - Monstro (Cloverfield, 2008) de Matt Reeves.


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