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Estreou Há 10 Anos: 007 - Cassino Royale

O livro Cassino Royale, lançado por Ian Fleming em 1953, foi a história de estreia de James Bond, um dos agentes secretos mais famosos da literatura e o mais popular do cinema

O livro Cassino Royale, lançado por Ian Fleming em 1953, foi a história de estreia de James Bond, um dos agentes secretos mais famosos da literatura e o mais popular do cinema. Apesar de não ter sido a primeiro livro a ser adaptado para as telonas (o primeiro foi 007 Contra o Satânico Dr. No, em 1962), ele já havia sido adaptado em 1967, porém, como uma obra fora do cânone oficial da franquia. A adaptação em questão, foi uma produção de comédia bem problemática, tendo nada menos que CINCO diretores creditados, entre eles John Huston; e atores como Peter Sellers, Orson Welles, Ursula Andress, Deborah Kerr e um jovem Woody Allen no elenco.

Desde o fracasso de crítica dos últimos filmes protagonizados por Pierce Brosnan, O Mundo Não é o Bastante e Um Novo Dia para Morrer, uma vigorosa reestruturação da franquia 007 se fazia necessária. Afinal, Brosnan não demonstrava mais o potencial que havia apresentado em Goldeneye; os roteiros traziam tramas cada vez mais esdrúxulas (o “raio da morte” de Um Novo Dia para Morrer é risível); as sequências de ação apostavam em um pastiche que só seria aceitável na exagerada fase de Roger Moore; já as bond-girls continuavam a ser uma péssima representatividade do gênero feminino (concordemos que a franquia, desde sua criação, nunca havia sido um exemplo de feminismo).

A ideia romantizada de um agente secreto criado nos moldes da Guerra Fria não fazia mais sentido numa época em que o cinema de ação e espionagem trazia o estilo austero, seco e fatalista dos filmes de Jason Bourne.

Quem teve a ideia inicial de readaptar a história de 1953 para as telas dos cinemas nos anos 2000 foi ninguém menos que Quentin Tarantino. O diretor almejava criar uma obra que não necessariamente seguisse a ordem e acontecimentos dos filmes anteriores (assim como em Nunca Mais Outra Vez, protagonizado por Sean Connery em 1983). O filme traria de volta Pierce Brosnan como protagonista, além de Samuel L. Jackson como Feliz Leiter e Uma Thurman como Vesper Lynd. O longa seria filmado em preto-e-branco e focaria mais em um estilo noir que em sequências de ação. Porém, problemas do diretor com a produtora da franquia 007, e com sindicato de diretores, inviabilizaram o projeto.

Apesar da problemática anterior, a ideia de criar um reboot da franquia tomando a história original de James Bond na literatura foi mantida. O roteiro do filme ficou a cargo dos roteiristas Neal Purvis e Robert Wade, também responsáveis pelos ruins O Mundo Não é o Bastante e Um Novo Dia Para Morrer. Paul Haggis, famoso na época por ter dirigido e roteirizado o vencedor do Oscar Crash – No Limite, também entrou no time de roteiristas. A direção do filme trouxe Martin Campbell novamente ao comando após o sucesso do reboot anterior: Goldeneye; apesar de o diretor declarar que só aceitou o cargo porque não tinha nenhum outro projeto em vista.



Já a escolha do novo James Bond foi extremamente controversa, já que muitos fãs não aprovaram a escolha de Daniel Craig como o agente, mesmo o ator já tendo provado boa presença física e atuação em longas como Nem Tudo é o que Parece. Inclusive, Hugh Jackman havia recusado o papel quando lhe oferecido.

Apesar de todas as más expectativas do público acerca do retorno do querido personagem (roteirista duvidosos, diretor desinteressado e protagonista mal recebido), 007 – Cassino Royale foi aclamado tanto pela crítica quanto pelo público (o maior da franquia até então), sendo considerado por muitos, inclusive esse que vos escreve, como o MELHOR filme de James Bond.

Nesse 21º filme da franquia, James Bond (Daniel Craig) se torna o agente 007 e ganha uma missão de investigação de terroristas que culmina em um jogo de pôquer contra um banqueiro criminoso, Le Chiffre (Mads Mikkelsen), no mundialmente famoso Cassino Royale. Caso Le Chiffre perca a partida isto desmontará sua organização. Mas para esta tarefa o agente 007 terá a companhia da sagaz Vesper Lynd (Eva Green), enviada por M (Judi Dench) para acompanhá-lo na missão.

O roteiro do filme conseguiu renovar a “persona” do agente secreto romântico que James Bond carrega de uma forma moderna, realista e “bruta” sem perder o refinamento e a elegância que essa figura sempre teve. Os três roteiristas foram sábios ao introduzir o filme com uma passagem que nos apresenta a personalidade do protagonista enquanto testemunhamos sua “promoção” a agente “00” (com permissão para matar).

A partir de então, a trama central do filme se desenrola de uma forma sempre a impulsionar o desenvolvimento do personagem e seu crescimento dentro do ofício, seja errando ou acertando. Sempre trazendo diálogos espirituosos (os momentos entre Bond e Vesper Lynd ou M. são destaques), os roteiristas evitam a exposição excessiva de informações, focando em um plot simples, mas nunca simplista.

O trabalho de Daniel Craig como o agente inglês impressionou a todos que duvidavam de sua capacidade, inclusive, sendo considerado como um James Bond à altura do interpretado por Sean Connery (na minha opinião, até melhor). Trazendo uma força viril e intensidade pulsantes, Craig é capaz de esbanjar elegância como o personagem ao mesmo tempo que despe essa “máscara” e nos mostra um Bond que briga, machuca, sua e não se importa em perder o glamour se isso for necessário para suas tarefas.



Craig nunca nos faz desconfiar de sua força física e fôlego para ação (a cena de perseguição parkour em Madagascar é antológica). O modo ágil como Craig se movimenta em cena traz um ar de autenticidade a um agente secreto do seu nível. Ao mesmo tempo, sua expressão sempre sóbria e impassível, mas com um ar de enigma, é essencial para demonstrar a racionalidade e inteligência do personagem.

Implementando algumas nuances até então inéditas em James Bond, Daniel Craig conseguiu levar o personagem além do que os atores anteriores haviam realizado. A ironia presente nas piadas e diálogos de Bond são cortantes (o primeiro encontro com Vesper simboliza isso), bem como seu senso de humor ácido se eleva ao negro em determinados momentos (há uma cena de tortura no filme que se torna tão agonizante quando engraçada).

O senso de humor negro de Bond, aliás, vai de encontro ao sadismo com que o personagem revela ao ver alguns de seus rivais sendo mortos (reparem no sorriso do agente ao fim da cena do aeroporto), rivalizando com outros em que ele exibe apenas uma neutralidade fria. Não poupando o personagem de passar por várias emoções diferentes, os roteiristas ainda o tornam mais caro aos espectadores ao colocá-lo em um relacionamento amoroso que perturba sua racionalidade e distanciamento emocional. A profundidade dramática do filme traz alguns dos melhores momentos de À Serviço Secreto de Sua Majestade e Permissão para Matar.

Além de um protagonista mais forte e complexo que dos longas anteriores, Cassino Royale também trouxe a melhor Bond-girl da franquia. Encarnada com muita expressividade e beleza por Eva Green, Vesper Lynd tem uma inteligência e atrevimento que rivaliza com a de James Bond, não aceitando se sujeitar à “masculinidade” do parceiro (a decisão das roupas que cada um vestirá no cassino é uma sacada genial). Apesar de os roteiristas apostarem em uma dinâmica inicial de “te odeio, mas te amo” já antiga na sétima arte, os embates dialógicos do casal são sempre irônicos e perspicazes, tendo Lynd vencedora na maioria das vezes.

Assim como Bond salva Lynd em determinados momentos, o contrário também ocorre; sendo refrescante também observar como Lynd tem um poder superior ao agente em determinados aspectos, sendo respeitada por tal, mesmo que a contragosto. A personagem é construída com tanto respeito, que é tocante ver a delicadeza do momento em que Bond acalenta Lynd após uma situação de morte e brutalidade, sem precisar tocá-la com segundas intenções (algo que era quase uma regra na franquia anteriormente).



Se Eva Green nos entrega uma Vesper Lynd inesquecível em sua sagacidade, força e personalidade multifacetada, Judi Dench traz uma M. mais furiosa do que nunca. Da mesma forma, Mads Mikkelsen faz de Le Chiffre um vilão ameaçador por criar um contraponto entre a imagem icônica (lágrimas de sangue) e sua dicção refinada com tom monocórdico. Os detalhes da “bomba de asma” e alguns dizeres (“- Que desperdício!”) ajudam a humanizar o vilão. Destaque também para Jeffrey Wright (o Bernard de Westworld) como Felix Leiter, personagem do cânone original da franquia.

Apesar de Martin Campbell não ter se entusiasmado muito com a chance de realizar outro filme da franquia James Bond, ao menos ele demonstrou um profissionalismo exemplar. Juntamente como o montador Stuart Baird (veterano de filmes de ação como Máquina Mortífera e Duro de Matar 2), Campbell consegue ser intenso em todas as sequências de ação do longa. Entre momentos grandiloquentes (a sequência do aeroporto), e outros mais simples (a luta nas escadarias do cassino), Campbell demonstra domínio sobre a mise en scène e mantém o espectador ciente da geografia do local e da movimentação dos personagens.

Ademais, a criatividade exibida na “coreografia” das sequências de ação é espetacular, com destaque para a longa, e tensa, perseguição em Madagascar, que rivaliza com os melhores momentos de ação de True Lies. Os efeitos e edição de som são detalhistas o bastante para dar atenção aos sons mais simples e tornar mais realistas até os momentos mais “cinematográficos”. Aliás, o realismo bruto que o diretor implementa à ação do filme (como nas primeiras mortes executadas por Bond) é o que mantém as sequências de ação com o pé no chão.

Respeitando o charme que sempre permeou a franquia, Campbell e o diretor de fotografia Phil Méheux (que já haviam trabalhado juntos em A Máscara do Zorro) exploram o calor, as cores e a claridade de todas as paisagens dos locais por onde os personagens viajam de uma forma estonteante, bem como da rica direção de arte dos ambientes internos (reparem no contraste da sofisticação convidativa do apartamento de M. com o sufocamento das cores escuras do iate de Le Chiffre).

Já o preto e branco saturado com contraste intenso, que marca a introdução do filme, já denota o tom mais maduro, e até sombrio, que marcará essa nova fase de James Bond; sendo hábil ao estilizar a frieza do personagem título e ir de encontro aos créditos iniciais do filme que investem em símbolos de morte e ação, e não em silhuetas femininas (que também era uma regra nos longas anteriores).



Não só eficaz nas sequências de ação, Campbell também exibe uma inteligência insuspeita para criar tridimensionalidade e desenvolvimento de personagens com sua câmera. Como exemplo, em determinado momento, Bond vê uma personagem morta indiretamente por sua investigação, e Campbell mantém o enquadramento em zoom in até que o personagem desvie o olhar e percebamos seu incômodo. Já nos jogos de pôquer, assim como nas ações de investigação de Bond à campo, Campbell soube alternar os momentos de fluidez de câmera, com outros de primeiríssimo plano, para criar tensão e surpresa ao espectador, sempre nos passando sensação de urgência e agilidade.

A trilha sonora de David Arnold é eficiente em utilizar o tema clássico com parcimônia e potencializar a classe e intensidade do filme, bem como, a música-tema de Chris Cornell, "You Know My Name", consegue trazer um tom de fúria que combina com a personalidade explosiva e impulsiva do “novato” James Bond nesse filme.

O filme ganhou 26 prêmios ao redor do mundo e concorreu a outros 39, inclusive Melhor Filme Britânico e Melhor Ator no BAFTA Awards. Custou em torno de US$ 150 milhões e arrecadou US$ 600 milhões no mundo todo.

Mesmo após 10 anos de seu lançamento, Cassino Royale permanece sendo um filme com a mesma força que exibiu em seu lançamento: um filme de ação explosivo, com um inteligente roteiro, personagens interessantes e momentos de emoções complexas embalado em elegância cara ao personagem. Foi a reinvenção intensa que a mais longeva franquia do cinema precisava, e merecia.

Divulgaí

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