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Crítica: O Homem Invisível

O Homem Invisível é um thriller competente, tecnicamente prodigioso (especialmente se comparado ao exíguo orçamento de sete milhões de dólares) e satisfatório como exercício de gênero.
O Homem Invisível

Se a Disney/Marvel possui no catálogo heróis como Tony Stark, Capitão América e Guardiões da Galáxia, e a Warner/DC traz Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha, a Universal, por outro lado, tem um acervo ligeiramente incomum para o cinema do século XXI: monstros, que foram especialmente populares e lucrativos para o estúdio nas décadas de 1920 a 1940. As tentativas de revitalizar suas imagens para uma plateia contemporânea foram do escapismo simpático (os dois primeiros A Múmia) a um entretenimento tétrico (Van Helsing- Caçador de Vampiros, Drácula – A História Nunca Contada e A Múmia, desta vez, com Tom Cruise estrelando), com resultados de bilheteria variando do funcional ao frustrante.

O Homem Invisível (The Invisible Man, 2020) representa o primeiro – e até agora único – acerto criativo da empresa neste filão de revisitas ao horror clássico. Uma reimaginação do romance de H.G Wells que se apropria do título homônimo do filme dirigido por James Whale em 1933, o qual trouxe Claude Rains como o personagem-título, a produção comandada pelo diretor australiano Leigh Whannell (dos incontáveis exemplares da franquia Sobrenatural e da distopia Upgrade) é hábil ao investir na mescla entre o contemporâneo e o futurista, também se ancorando na construção atmosférica dos melhores suspenses.

Se antes o foco da história estava na grande descoberta científica, agora, o enredo gira em torno de Cecilia Kass (Elisabeth Moss), uma mulher que vive um relacionamento abusivo com Adrian (Oliver Jackson-Cohen), um brilhante (e riquíssimo) cientista. Disposta a retomar sua independência, Cecilia elabora um bem-sucedido plano de fuga, no qual é auxiliada pela irmã, Alice (Harriet Dyer) e refugia-se na casa de um amigo de infância, James (Aldis Hodge), um policial. No entanto, uma surpresa é anunciada: Adrian cometeu suicídio e deixou a Cecilia uma parte de sua imensa fortuna, a qual ela terá total direito caso não cometa nenhum crime, nem seja declarada mentalmente insana. Porém, estas condições se tornarão difíceis de cumprir, uma vez que Cecilia ainda sente a presença de Adrian, que, apesar de morto, parece assombrá-la com potência maior.

Em uma postura contrária àquela adotada em seus trabalhos mais conhecidos, nos quais se amparava no uso de jump scares e em uma temática descaradamente paranormal, Whannell conduz a narrativa com articulação elegante e procedimentos metódicos que sempre justificam seu uso: os momentos assustadores surgem emoldurados em silenciosas panorâmicas e planos de conjunto, durante os quais uma considerável gama de informações cênicas está ocorrendo, mas que, por não estarem enquadrados por quadros mais fechados, demandam atenção redobrada do espectador. A construção de tensão também ser creditada ao excepcional desenho de som, que, seguindo a mesma abordagem de Um Lugar Silencioso (2018), necessita do grande realce sonoro dos objetos de cena.

Ao alterar o foco narrativo do homem para a mulher, Whannell, que também assina o roteiro, prodigioso na distribuição dos índices (pistas), ainda que estes não sejam particularmente surpreendentes, traz uma preocupação social evidente à trama. O horror sentido por Cecilia, a quem Elisabeth Moss encarna com todas as fibras possíveis, envolve um elemento realista-fantástico, porém, a motivação por trás disto só com que o subtexto se eleve: a invisibilidade física representa o eco das memórias e traumas criados pelo abusador na mente da protagonista, condicionada a viver em uma paranoia constante, esperando o momento em que será recapturada e retornará ao seu calvário doméstico. Outro dispositivo do enredo, o qual não será revelado por tratar-se de um spoiler, revela a urgência deste retrato, no qual uma mulher encontra-se constantemente privada de encontrar uma paz (e uma autonomia básica) individual pelos caprichos de um homem inadvertidamente insistente.

Pecando unicamente pela trilha sonora ligeiramente excessiva de Benjamin Wallfisch, por pequenos furos diegéticos e pelo pouco aproveitamento de cenas cotidianas entre Cecilia e Adrian, O Homem Invisível é um thriller competente, tecnicamente prodigioso (especialmente se comparado ao exíguo orçamento de sete milhões de dólares) e satisfatório como exercício de gênero. A ironia é a de que este é um filme de monstro no qual a verdadeira bestialidade se manifesta através das ações e caráter humanos.



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