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Critica: Aves de Rapina - Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa

O foco excessivo do roteiro em Arlequina prejudica as demais integrantes do grupo-título, mesmo que sua estrutura não linear de dois atos
Aves de Rapina - Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa

Arlequina não é mais a primeira-dama do crime de Gotham City. Seu namorado, o Coringa, a quem se refere como Pudinzinho, rompeu o relacionamento entre os dois. Tão insana e dona de um senso de humor sádico como o do ex-companheiro, não há ninguém no mundo como a antiga psiquiatra do Asilo Arkham, como ela mesma afirma em uma cena de Aves de Rapina - Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa (Birds of Prey (and the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn), 2019), agora determinada a se desvincular do Palhaço do Crime, provar e reconhecer o seu valor. O problema é que este término também colocará sua cabeça a prêmio, uma vez que suas decisões imprevisíveis a fizeram colecionar uma numerosa lista de desafetos no submundo da cidade. Entre eles, está Roman Sionis (um maníaco Ewan McGregor), também conhecido como Máscara Negra, dono de uma boate e um entusiasta na arte de esfolar rostos. Para salvar sua pele, Arlequina voluntaria-se para encontrar um precioso diamante, o qual se encontra com a jovem ladra Cassandra Cain (Ella Jay Basco). Juntam-se a ela nesta jornada, indiretamente, a policial Renee Montoya (Rosie Perez), a cantora Dinah Lance (Jurnee Smollett-Bell) e a mercenária Caçadora (Mary Elizabeth Winstead).

Ainda que esteja inserido no mesmo universo de Esquadrão Suicida (2016), o filme da diretora Cathy Yan é infinitamente mais vivaz e definitivamente mais coeso do que o longa-metragem de David Ayer jamais poderia ter sido. O fracasso criativo daquele projeto se ajusta às necessidades narrativas desta obra, e Yan e a roteirista Christina Hodson são hábeis ao não permitirem que as menções ou aparições, ainda que veladas, do (pavoroso) Coringa de Jared Leto se tornem mais chamativas ou relevantes que a história da protagonista, mostrando-o apenas por sua silhueta e adotando-o unicamente no ponto de partida da premissa dramática.

Visualmente, a concepção do design de produção de K.K Barrett aposta em tons carregados de vermelho, rosa, verde e branco, construindo cenários que refletem, em maior ou menor grau, o estado emocional dos personagens, destacando-se o apartamento de Arlequina e a galeria de Roman, atingindo, por fim, o ápice na textura e escolha de objetos que constituem o playground particular da personagem central, no qual o clímax da narrativa é ambientado. São justamente estas sequências do terço final que despertam atenção positiva no público: bem coreografadas, montadas e filmadas, as sequências de ação são realizadas com empolgação palpável e exploram ao máximo as possibilidades do espaço cênico, tornando-se menos estimulantes quando finalizadas em slow-motion, que, mesmo mantendo o bom nível de entretenimento, revelam-se esteticamente triviais.

E é exatamente isso o que, no fim das contas, este longa-metragem realmente é: uma peça descompromissada de entretenimento, ancorada em uma trama banal e que não se leva a sério. Nascida para interpretar a personagem no Cinema, a australiana Margot Robbie contribui para esta tonalidade despojada e injeta uma admirável quantidade de carisma em Arlequina, constituindo-se como o principal chamariz da produção. A atriz aparenta maior convicção e conforto ao encarnar a psicopata psicodélica, entregando um trabalho consistente que se deve não só à entrega corporal (no entanto, sem os exibicionismos próximos do sexismo vistos em sua incursão anterior), mas também à sensibilidade de enxergar uma mulher repetidamente abusada pelas figuras autoritárias que surgiram ao longo de sua existência.

Porém, o foco excessivo do roteiro em Arlequina prejudica as demais integrantes do grupo-título, mesmo que sua estrutura não linear de dois atos (sim, dois: apresentação e resolução) confira algum dinamismo à metragem. Ainda que se insurjam em determinado momento contra a repressão masculina que as solapa, Renee e Dinah/Canário Negro têm poucos detalhes de sua vida pregressa trabalhados ao longo da narrativa e apresentam transformações dramáticas íngremes: enquanto a primeira passa por uma jornada de autoconfiança e entendimento sobre sua relevância, a segunda empreende um caminho ligeiramente decepcionante ao ser privada de um conflito direto com o vilão da trama, além de ter seu componente racial sublimado. O caso é mais grave com a jovem Cassandra Cain, que mesmo em posse do MacGuffin, é utilizada mais para a consolidação do arco de Arlequina do que para o seu próprio. E se a Caçadora, interpretada sob medida pela sempre ótima Mary Elizabeth Winstead, demora a ser integrada ao enredo, ao menos, garante seus próprios flashbacks, possui muita presença e encontra um equilíbrio bem-vindo entre seriedade e comicidade. Ironicamente, a dinâmica homoerótica psicótica entre Roman e Victor Zsasz (Chris Messina) ganha contornos mais significativos justamente pela abordagem levemente sutil do texto e das atuações de ambos os atores.

Ademais, as constantes menções à emancipação (vocábulo que, não à toa, encontra-se no título do longa) e à dominação de homens em posições de poder em relação às mulheres apresentam efeito duplo: evidenciam a proposta e o teor feminista do caminho percorrido pelas personagens, mas, devido ao tratamento ostensivo dos diálogos, acabam diluindo o impacto do desfecho, simplificam a importância política e subtraem qualquer possível substância argumentativa da empreitada. Assim, por mais que evite colocar mulheres umas contras as outras em confrontos físicos sensacionalistas e seja muito espirituoso vê-las golpeando homens brutos com tamanha bravata (mais ainda para a parcela feminina da plateia), Aves de Rapina parece mais preocupado em oferecer o pão e circo ao espectador. Considerando o passado recente da DC Comics no Cinema, é satisfatório e feérico. Mas, por vezes, comedido e inócuo.



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