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Crítica #2: Aves de Rapina - Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa

Mais do que um filme sobre mulheres, e sim um filme feito por mulheres, Aves de Rapina consegue ser efetivo em sua proposta justamente devido ao olhar feminino que o norteia.
Aves de Rapina - Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa

Parando para pensar, é muito estranho percebermos que até 2017 não havíamos tido nenhum filme protagonizado por uma mulher nos dois grandes universos cinematográficos de super-heróis (DC e Marvel). Esse caminho foi inaugurado sob a direção de Patty Jenkins e protagonizado por Gal Gadot: o bem-sucedido Mulher-Maravilha, que despertou no público e na indústria do entretenimento a atenção para a importância da representatividade feminina nesse segmento do cinema.

Seguida de forma não tão eficaz pela Marvel (com seu insosso, superficial e decepcionante Capitã Marvel), a DC/Warner segue firme em sua proposta de solidificação do protagonismo feminino nas telonas. Para tanto, este ano será dedicado especificamente a figuras femininas do DCEU (Universo Estendido da DC). Além do retorno da poderosa amazona no seu novo filme solo (Mulher-Maravilha 1984, com estreia prevista para 4 de julho), a DC/Warner já inicia o ano com tudo, metendo o pé na porta e disparando tiros de confete com o lançamento de Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa.

Narrado pela ex-psiquistra do Asilo Arkham, Aves de Rapina se inicia fazendo um breve panorama da história da Arlequina (Margot Robbie): rapidamente nos conta sua infância, como chegou a trabalhar no referido hospital psiquiátrico e sobre seu contato, seu romance e o término da relação com o Coringa. Buscando forças e formas para se emancipar da tristeza pelo fim do relacionamento, por não contar mais com a proteção do Sr. C (forma como passa a se referir ao Coringa), ela passa a ser perseguida pelos os desafetos que cultivou devido ao seu comportamento desregrado. Um deles é Roman Sionis (Ewan McGregor), também conhecido como Máscara Negra, um poderoso chefe do crime de Gotham que tem prazer em esfolar rostos.

Em meio ao turbilhão vingativo do qual tenta escapar, seu caminho se cruza com os de outras quatro mulheres, todas em busca do mesmo objetivo: a emancipação e a própria sobrevivência. Suas histórias também são contadas de forma sucinta e alucinada: Renee Montoya (Rosie Perez) é a típica policial que tenta fazer o seu trabalho e exercer justiça em um mundo cão, mas que vive sendo sabotada pelos colegas de trabalho, os quais, inclusive, recebem o reconhecimento dos seus esforços; Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell) é cantora da boate de Roman Sionis, que, apesar de ter uma grande voz, acaba silenciada pela opressão masculina; Caçadora (Mary Elizabeth Winstead) é uma assassina em busca de vingança; Cassandra Cain (Ella Jay Basco) é uma adolescente com uma família disfuncional e que vive da prática de furtos.

Inesperadamente, as cinco mulheres, que a princípio não teriam nenhuma conexão, veem-se na iminência de se unirem contra Roman Sionis, não por afinidade, mas por necessidade. A sinergia entre elas faz surgir uma parceria em prol de um bem comum: a sobrevivência de todas.

A narrativa meio alucinada, um tanto fragmentada, repleta de idas e vindas alude ao fluxo de pensamento da Arlequina, a forma como sua mente funciona enquanto conta a história. O ritmo acelerado mantém o espectador entretido e imerso na trama o tempo todo, conseguindo, ainda assim, introduzir as subtramas de forma clara e interessante, apesar de sucinta. A intensidade narrativa e a frequência quase contínua de acontecimentos não dão tempo para o filme amornar. Mesmo em momentos aparentemente tranquilos, como a hora do café da manhã da Arlequina com o seu amado pão com ovo ou quando ela e Cassandra Cain estão sentadas no sofá comendo sucrilhos e vendo TV, de repente irrompe um turbilhão de fatos ou nos sentimos tão próximos das personagens que o tédio passa longe.

A fotografia contrasta as cores, o brilho, a energia e a diversão em meio ao caos com a realidade dura, cinzenta, suja e opaca. Vislumbramos alguém (que acaba encontrando companhia) que procura escapar da realidade amarga e áspera, mas que vive sendo trazida de volta ao chão pela gravidade, que tenta impedi-la de flutuar entre confetes e pernas quebradas. As coreografias são muito bem planejadas e executadas, tornando as cenas de ação extremamente divertidas e violentas, com a exploração criativa de elementos (como uso de porretes, perseguição sobre patins, a presença de uma casa de horror, tiros de confetes) que expõem a violência sem pender para o gore. 

Outro ponto que merece destaque são as cenas que traduzem a feminilidade em meio ao caos, como um soco nos peitos (que substitui o famoso chute no saco quando se trata de homens) e o empréstimo de um elástico para prender os cabelos em meio à luta. Isso é reflexo da visão feminina responsável pelo filme: a direção de Cathy Yan e o roteiro de Christina Hodson, que fazem um interessante trabalho ao pensarem formas criativas e divertidas de compor uma história sobre empoderamento feminino dentro do universo de super-heróis. Mesmo as falhas, os furos no roteiro, a irregularidade narrativa e o decepcionante confronto com o Máscara Negra acabam sendo releváveis devido ao envolvimento do público com a trama e, especificamente, com a Arlequina, pois Margot Robbie multicolore as cenas e carrega o filme nas costas com seu carisma, apesar do espaço destinado às demais personagens.

Mais do que um filme sobre mulheres, e sim um filme feito por mulheres, Aves de Rapina consegue ser efetivo em sua proposta justamente devido ao olhar feminino que o norteia. O longa retrata o processo de conquista do espaço feminino como uma verdadeira luta contra a oposição masculina. Apresentando uma Gotham dominada por homens, faz surgir um grupo de personagens femininas que, apesar de seguirem percursos individuais, quando eles se cruzam, deixam de lado suas diferenças para batalharem pela causa que as une. Com isso, podemos perceber a metáfora do movimento feminista, que une mulheres plurais em busca de espaço, voz, direitos e até mesmo sobrevivência em uma sociedade, infelizmente, ainda dominada por pensamentos e conceitos machistas e patriarcais.




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