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Crítica: O Escândalo

Apesar de incentivar o depoimento de mulheres abusadas, que o filme de Jay Roach parece contente demais com sua reflexão reduzida sobre seu tema central: é só o que há para hoje.
O Escândalo

Roger Ailes pode não ser um nome facilmente reconhecível mundo afora, mas certamente é uma figura marcante na mídia norte-americana. Desde a segunda metade da década de 1990, quando o poderosíssimo magnata Rupert Murdoch o nomeou CEO da Fox News, um braço conservador no cenário televisivo, Ailes ganhou uma quantidade inacreditável de poder: selecionava os âncoras dos telejornais, os apresentadores dos programas, o teor do conteúdo veiculado na emissora e como isso beneficiaria os republicanos em detrimento dos democratas. Além da influência na opinião pública (afinal, o canal a cabo chega a quase 81% dos lares que possuem uma televisão), Ailes também exerceu grande papel na ala conservadora estadunidense, conseguindo, como consultor político, a reeleição de Ronald Reagan e as vitórias de George W. Bush e Donald Trump.

O impacto crescente do homem corpulento, de olhar vidrado e cheio grandes convicções, no entanto, começou a ruir. Foi nesse período em que a ex-apresentadora da Fox News, Gretchen Carlson, moveu um processo contra Ailes, alegando ter sofrido assédio sexual. Algum tempo depois, dezenas de mulheres surgiram, incluindo Megyn Kelly, uma das estrelas do canal presidido por Ailes. Esta insurgência marcou o início de uma nova era, marcada pela exposição de um contumaz comportamento sexual invasivo, beneficiado por uma estrutura desigual de poder. Todavia, isto aconteceu em 2016. Só em 2016.

Pode-se categorizar o caso de Roger Ailes como um semiprecursor do movimento #MeToo, uma vez que só ganharia consistência entre o fim de 2017 e o começo de 2018. De qualquer forma, trata-se de uma história contemporânea e de desenrolar bastante recente. Sendo assim, ainda que esteja no ápice da relevância, pode-se questionar o porquê de O Escândalo (Bombshell, 2019) ter sido realizado de forma tão célere, sem um distanciamento histórico considerável, o que é agravado ao notar-se que essas situações ainda são frequentes dentro de Hollywood e, segundo várias integrantes do movimento Time’s Up, homens como Ailes e Harvey Weinstein continuam livres para abusar da hierarquia de seus cargos em troca de favores sexuais. A realização deste longa-metragem no meio deste processo de transformação (ou tomada de consciência, como queiram) pode acabar levar o espectador a dar esta pauta como concluída, uma vez que cinebiografias (ou biografias de modo geral) só são realizadas quando o momento, circunstância ou conceito sobre o tema a ser escrutinado já se cristalizou como fato; daí, então, vem o escrutínio resultante disso. E se há uma coisa que todos sabem, seja quem produz ou consume o que é produzido no mundo do entretenimento, onde se deu o pontapé de toda esta discussão, é que a pauta sobre o comportamento masculino, a relação entre poder, sexo e trabalho, e a reação das mulheres a essa postura, está longe de chegar ao fim. Estamos apenas na ponta do iceberg.

O que pode – e certamente irá – suscitar polêmica é maneira com que o diretor Jay Roach e o roteirista Charles Randolph decidem revisitar estes acontecimentos que ainda não têm nem meia década de vida: apostam, inicialmente, em uma abordagem tonal que remete ao humor de A Grande Aposta (2015) – não à toa, um filme também escrito por Randolph (que lhe um rendeu um Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, aliás) –, apostando em contextualizações fornecidas pelos próprios personagens ao quebrarem a quarta parede, pensamentos em off que desnudam os sentimentos dos personagens (mas que nunca sempre funcionam fluidamente), recapitulações de situações análogas ao assunto discutido durante uma cena e o pragmatismo de figuras centrais que precisavam lutar para se manter no controle do negócio. Às características do texto, Roach mistura material factual com as representações ficcionais e faz uma provocativa aproximação metalinguística ao tipo de condução sensacionalista da Fox News, inserindo a logomarca da empresa no canto inferior esquerdo da tela, assemelhando o momento dramático de Kayla Pospisil (Margot Robbie, interpretando a única protagonista fictícia do trio central) à urgência jornalística de um furo de reportagem.

O resultado, ainda que seja muito prematuro, causa simpatia por capturar parte do zeitgeist e daqueles que nele figuram. Randolph e Roach aproveitam para fustigar, com saborosa ironia, a hipocrisia patológica da família Murdoch, que compõe a Fox News e, na mesma intensidade, a contradição inerente entre a adoção por determinados grupos de um pensamento incompatível à sua condição socioeconômica e faixa etária, sintetizado na autodescrição de Kayla como "jovem conservadora e millennial evangélica". Da mesma maneira, também chama atenção a maneira como os conservadores aqui têm uma impressionante mania de perseguição (Ailes, encarnado aqui por um excepcional John Lithgow, acreditava que Obama o queria morto) e mantêm uma obsessão ideológica similar à da Guerra Fria (a cena em que Beth, esposa de Ailes e interpretada por Connie Britton, questiona o tipo de comida da assistente é sutilmente hilariante). É uma abordagem polarizadora, que alienará a parcela conservadora do público, mas será calorosamente recebida pela metade progressista, mostrando que este filme é 100% político – como toda Arte é e tem o direito de sê-lo.

Nem sempre, vale dizer, este afã de ridicularizar a tosquice do reduto de reacionários da Fox News dá bons frutos. Mesmo que reproduza ipsis litteris alguns comentários controversos e/ou estapafúrdios reais, o filme ainda deseja nos conectar emocionalmente – ou desenvolver empatia, ao menos – à personas como Megyan Kelly (Charlize Theron, irreconhecível e dominando cada centímetro da tela) e Gretchen Carlson (Nicole Kidman, funcional, mas contida), o que pode se tornar uma tarefa relativamente complicada, já que o texto não deixa claro se ambas passaram igualmente por um processo de lavagem cerebral conduzido por Roger Ailes que as tivesse convertido em teóricas da conspiração ou em amalucadas “cidadãs de bem”. Por oferecer pouco background de suas personagens centrais, preferindo mostrá-las unicamente como funcionárias, Roach e Randolph perdem a oportunidade de estabelecer vínculos com a plateia e, consequentemente, de dar o protagonismo efetivo a essas mulheres, cujas trajetórias são assistidas de forma onisciente.

O tom levemente cômico de O Escândalo passa a dar margem, a partir da união das três tramas paralelas, a um drama histórico mais comum, preocupado em retratar a importância dos temas abordados e em oferecer um exemplo encorajador para o futuro. O grande problema é que, como já foi dito, este pedaço da história recente acabou de ser aberto. A ficcionalização de um processo ainda em consolidação parece fechá-lo por si só. Logicamente, espera-se que debates acerca do assédio sexual pululem mundo afora por causa deste longa-metragem, gerando uma reconsideração de costumes potencialmente danosos às mulheres. Porém, ao mesmo tempo, o projeto pode muito bem encerrá-los, afinal, seu principal vilão foi destituído de seu cargo antes do falecimento, as vítimas de seus crimes foram restituídas em milhões e algumas delas mudaram a postura submissa. Exatamente por isso, apesar de incentivar o depoimento de mulheres abusadas, que o filme de Jay Roach parece contente demais com sua reflexão reduzida sobre seu tema central: é só o que há para hoje. O ontem e o hoje ainda estão sendo escritos e reescritos, em esquema de obra aberta, para que no amanhã, quem sabe, possamos olhá-los e corrigi-los com maturidade – e em seu devido tempo.




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