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Crítica: Adoráveis Mulheres

Não é apenas a Jo March com quem Greta Gerwig se relaciona, mas também à autora do livro original, Louisa May Alcott.
Adoráveis Mulheres

As irmãs Jo (Saiorse Ronan), Meg (Emma Watson), Amy (a excelente Florence Pugh) e Beth (Eliza Scanlen) vivem um quase idílio durante a adolescência na grande casa da família March no interior de Massachusetts, em meados da década de 1860. Desde que o pai (Bob Odenkirk) partiu para a batalha ao lado da União, a organização do clã converteu-se em um grande matriarcado, no qual Marmee (Laura Dern) assume a função de gestora e âncora emocional das garotas, todas em plena ebulição – nem sempre amorosa, mas constantemente criativa. Ao lado delas, vive Theodore Laurence, mais conhecido como Laurie (Timothée Chalamet), um jovem endinheirado que firma uma sólida amizade com as irmãs, especialmente com Jo, por quem se encanta perdidamente.

Sétima adaptação cinematográfica do romance escrito por Louisa May Alcott e publicado entre 1868 e 1869, Adoráveis Mulheres (Little Women, 2019) é um filme que faz jus ao adjetivo que o acompanha – no título brasileiro, pelo menos: é adorável, agradável ao olhar pelo filigranado trabalho técnico e pela calorosa química entre suas atrizes principais, o que, somado às diversas tramas e arquétipos já consagrados pelas histórias folhetinescas típicas do século XIX, dão ao projeto encabeçado por Greta Gerwig uma familiaridade tonal similar às telenovelas das 18h. Explico: trata-se de um elogio, não de uma comparação cínica.

O que realmente difere o longa-metragem de Gerwig é o fato de a diretora assumir uma abordagem honesta, abraçando todas as características dramáticas do texto original, incluindo os conhecidos perfis das personagens centrais e seus conflitos. No entanto, as adições da diretora/roteirista se mostram ainda mais importantes: mais do que mostrar como as irmãs March prosperarão na vida ou no amor ao concretizarem suas paixões e contraírem matrimônios alvissareiros, Gerwig está interessada em explorar a dinâmica cheia de cumplicidade entre as jovens, além de incumbi-las de aspirações ou tendências artísticas (Jo escreve, Meg atua, Amy pinta e Beth toca piano), mostrando à plateia que antes de serem mulheres destinadas unicamente ao casamento, elas são interessantes, talentosas e de sensibilidade aguda.

Outra contribuição relevante de Gerwig é a maneira como alia a celebração da figura feminina ao aspecto técnico-narrativo do longa: o design de produção de Jess Gonchor e a cinematografia de Yorick Le Saux salientam as diferenças entre as duas linhas temporais escolhidas por Gerwig para estruturar sua história: em 1861, ainda na adolescência do quarteto, que ainda está reunido, há uma predominância de cores quentes e tons amenos de amarelo, laranja, creme e rosa; sete anos depois, quando acompanhamos Jo retornar para casa e vemos os diferentes caminhos tomados por cada uma das March, o tom é notadamente acinzentado e coberto por uma paleta mais discreta. Esta distinção visual não é novidade, mas mostra-se efetiva para garantir a fluidez da narrativa, uma vez que a identidade própria de cada período poupa o montador Nick Houy de inserir cortes ou legendas explicativas a cada transição.

Da mesma maneira, a diretora é bastante coerente ao explorar o contraste entre as interações femininas e masculinas. Em determinada cena, a família March está reunida para um café da manhã. Além da grande variedade de cores e texturas que compõem a cozinha, as expressões de contentamento e a quantidade de diálogos travados entre as mulheres chamam atenção. Contrapondo-se a este ambiente, vê-se Laurie fazendo a mesma refeição, ao lado de seu preceptor, John Brooke (James Norton), e do avô (Chris Cooper), em um espaço físico muito maior, porém, cercado por paredes marrons e uma interação consideravelmente parcimoniosa. Momentos adiante, ambos os núcleos estão reunidos, mas quando elas saem do recinto, o sorriso deles desaparece, não há mais assunto a tratar e sequer dão-se o trabalho de encarar um ao outro.

A força feminina também se manifesta na maneira como Gerwig se projeta quase exclusivamente em Jo March, que, curiosamente, é interpretada por Saiorse Ronan, mesma atriz que deu vida ao alter-ego da cineasta em Lady Bird (2017). Ambas partilham o gosto pela independência e escrita, além de estarem passando por um interlúdio entre adolescência e idade adulta, tentando conciliar suas aspirações artísticas com suas necessidades financeiras e manter firmes seus laços familiares. Às vezes, a ânsia em conectar-se à personagem faz com que Gerwig estilize demais a relação entre Jo e Laurie, cometendo alguns anacronismos, sintetizados na cena em que a dupla dança de maneira inadequadamente moderna na varanda de uma casa. Permito-me acrescentar uma efeméride ligeiramente especulativa às possíveis motivações da diretora e aos laços pessoais que conecta à sua obra: Gerwig e a personagem de Ronan são cortejadas por homens de perfil muito similar a Noah Baumbach, marido da diretora, ora refletindo o perfil físico (a magreza e os cabelos negros de Chalamet encapsulam bem a figura de Baumbach) ou a (provável) dinâmica colaborativa entre ambos (representado pelo personagem de Louis Garrel, não estranhamente, ator também conhecido no circuito de filmes cult, o qual o casal pertence e integra).

Não é apenas a Jo March com quem Greta Gerwig se relaciona, mas também à autora do livro original, Louisa May Alcott. Prestes a encerrar Adoráveis Mulheres, a diretora faz um perspicaz uso da metalinguagem ao questionar a necessidade de um desfecho exageradamente romântico, em que mulheres só conquistam realização pessoal ao se casarem. É apenas uma adição, não uma modificação do final original, ainda assim, mostra-se inspirada o suficiente para que encaremos as cenas posteriores com certo cinismo, é verdade, mas cuja credibilidade se restaura ao testemunharmos a importância de contar esta história. Afinal, como a esfuziante, mas espinhosa Amy March corrige a irmã, Jo, contar histórias não se trata de refletir apenas assuntos considerados importantes, mas, sim, de lançar luz, realçar sua urgência e/ou descobrir novas pautas, clamando, no processo, o direito de existência artística e social de quem aparece nelas. É o teor politizado que fará esta versão transcender sua aura de folhetim das seis e a tornará a leitura definitiva do romance de Alcott no Cinema.



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