Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegue aqui

Crítica #2: Um Lindo Dia na Vizinhança

O dia alegadamente lindo acaba tornando-se agridoce e reiterativo. No entanto, não há o que reclamar sobre quem o conduziu, seja a representação ou o original.
Um Lindo Dia na Vizinhança

Entrando no estúdio da mesma maneira por mais de três décadas, cantando suavemente, trajando seus costumeiros suéteres coloridos e sempre trocando de sapato antes de começar a interação com as crianças que sintonizavam a PBS religiosamente para assisti-lo, o apresentador, roteirista, titereio e produtor Fred Rogers tornou-se uma figura quase sacra dentro do imaginário norte-americano. Não é para pouco: em mais de 900 episódios, transmitidos entre 1968 e 2001, Mister Rogers, como era chamado, conduzia sua plateia – formada, em sua maioria, por pessoas cujas idades não registravam mais que um dígito – para um passeio calmo, tranquilo e reflexivo por sua vizinhança, também composta por fantoches como o tímido tigre Daniel e o austero Rei Sexta-Feira XIII, que entoavam canções, escritas pelo próprio Mr. Rogers, sobre os temas abordados no programa. Para Rogers, ocupar um horário na grade de televisão com programação infantil não se limitava às risadas fáceis, anúncios comerciais, desenhos ou humor pastelão. Tratava-se, na verdade, de embarcar com as crianças em sua jornada de conhecimento e apresentação do mundo, fazendo-a ter certeza de que é amada por ser quem é e tratá-la sem condescendência, introduzindo os assuntos “dos adultos” e criando uma latente sensação de pertencimento e compreensão; enfim, a vizinhança, metáfora para a crença cristã do “amor ao próximo” para a qual o host todos os dias convidava seus espectadores, simbolizava um lugar onde todos poderiam aprender, brincar, falar, ouvir, refletir e sair de lá como uma pessoa melhor.

Os modos serenos, modestos e constantemente solícitos de Fred Rogers sempre evocaram muita atenção, seja de desconfiança ou escárnio. Como seria possível que aquele homem magro e longilíneo, que sempre pesou os mesmos 64kg durante a vida inteira, pudesse preservar intactas a paciência e o tom de voz, independente da situação? Existiria um lado obscuro em Fred Rogers? Mister Rogers seria um personagem, um alter-ego, ou seria o próprio Fred? Em sua vida privada, seria possível que xingasse, esperneasse, destruísse coisas, dissesse palavras ásperas em discussões triviais, desse palmadas em seus filhos, fizesse algo humanamente errático? O excelente documentário de Morgan Neville, Won’t You Be My Neighbor? (2018), esnobado no Oscar 2019, faz um desenho muitíssimo eficaz da personalidade e da contribuição de Mr. Rogers para a cultura dos EUA, além de expor algumas características turbulentas e controvérsias que seu estilo gerou entre os céticos.

Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day in the Neighborhood, 2019) cumpre metade dos objetivos. Baseado em um excelente artigo escrito por Tom Junod, intitulado “Can You Say... Hero?” e publicado na revista Esquire em 1998, o filme dirigido pela competente cineasta Marielle Heller (de Poderia me Perdoar?) traz Tom Hanks interpretando Fred Rogers, mas apesar da sugestão do título e da presença de figura tão magnética, o roteiro de Micah Fitzerman-Blue e Noah Harpster conta a história de Lloyd Vogel (Matthew Rhys, da série The Americans), um jornalista que acabou de ser pai e está encarregado de escrever um breve perfil de 400 palavras sobre Mister Rogers. Apesar do cinismo inicial, Vogel pouco a pouco concede mais espaço às perguntas de Rogers, numa experiência que o impactará peremptoriamente e o fará produzir não 400, mas 10.000 palavras.

Heller toma decisões criativas muito interessantes e encena toda a narrativa do longa-metragem como parte integrada ao programa de Fred Rogers, aplicando os elementos visuais do Mister Rogers’Neighborhood como transições de uma cena a outra, seja servindo como uma elipse de tempo e circunstância (a passagem pelo tráfego, o embarque no avião) ou de lugar (o prédio no qual Lloyd ganha um importante prêmio), além de investir em uma razão de aspecto de 1.19:1 e na textura analógica das fitas cassete para firmar uma referência visual à época. Ademais, demonstrando conhecimento dos rituais características de Mister Rogers, a diretora impõe peso emocional à cena em que o apresentador pede ao jornalista, durante um café da manhã, para que feche os olhos por um minuto e tente se lembrar de algumas pessoas fundamentais para ele. Decorre-se o tempo real e a cineasta, em parceria com a montadora Anne McCabe, insere todos os outros presentes no recinto na construção do momento, similar à catártica cena do metrô.

Para completar, Tom Hanks prova ainda não ter virado totalmente uma persona pública (ainda que sua escalação para este personagem derive exatamente dela) e exibe todo o seu arsenal dramático aqui. Incorporando a voz fagueira, os modos prestativos e tentando simular traços de sua magreza e idade, como a corcunda levemente insinuante e a movimentação de braços mais leves, Hanks capta com precisão o ímpeto do Sr. Rogers em exercer sua empatia e ouvir o outro, exibindo grande contentamento por ter conhecido outra pessoa e absorvido suas histórias. Por fim, Hanks também merece aplausos pela sutil maneira como consegue expressar alguma insatisfação apenas por seu olhar vacilante e por franzir seu cenho gradativamente, algo insondável em qualquer imagem pública do biografado.

O grande problema de Um Lindo Dia na Vizinhança, porém, é que, tendo uma personalidade tão rica, complexa e fascinante, chamativa por si só, como foco narrativo – ou seja, de ponto de vista –, o roteiro teima em dar o arco dramático principal ao jornalista Lloyd Vogel, cujo trauma com o pai, Jerry (Chris Cooper, muito bem), não só é clichê, mas torna-se difícil de solidarizar, uma vez que o personagem defendido por Rhys, um ótimo ator, é antipático demais, não chega a convencer nem mesmo por seu cinismo e que, finalmente, reduz o tempo de tela de Mister Rogers. Sendo assim, o dia alegadamente lindo acaba tornando-se agridoce e reiterativo. No entanto, não há o que reclamar sobre quem o conduziu, seja a representação ou o original.



Deixe sua opinião:)

Mostrar comentários 💬