Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegue aqui

Bate-papo com o quadrinista Rafael Coutinho | CCXP19

Na edição deste ano, conversamos com Rafael Coutinho, autor de Drink (uma experimental e ágil HQ sem textos), da conceituada Cachalote, da webcomic O Beijo Adolescente, da graphic novel Mensur, além de filho da famosa e também quadrinista Laerte.

O universo dos quadrinhos tem ganhado cada vez mais espaço na mídia e atenção do público. Influenciando e/ou servindo de base para diversos projetos de cinema, TV, teatro, música e até mesmo artes plásticas, as HQs são responsáveis por inúmeros ícones da cultura pop. Não à toa, a CCXP tem um megaespaço reservado especificamente para promover o encontro dos quadrinistas e seus fãs: a Artist's Alley.

Na edição deste ano, conversamos com Rafael Coutinho, autor de Drink (uma experimental e ágil HQ sem textos), da conceituada Cachalote, da webcomic O Beijo Adolescente, da graphic novel Mensur, além de filho da famosa e também quadrinista Laerte.

LOUCOS POR FILMES – Antes de falarmos da sua obra, gostaríamos de abordar a questão da leitura, especificamente de quadrinhos, no Brasil. Dados indicam que a média anual de livros lidos por habitante no Brasil corresponde a menos de 5, chegando a menos de 3 se considerados apenas os lidos por completo. Entre os gêneros mais lidos, os quadrinhos estão na penúltima posição (13%).

A que você atribui o pouco consumo de quadrinhos entre os brasileiros? Tem sugestões de estratégias que possam ajudar a melhorar esse quadro?

RAFAEL COUTINHO – Eu já estou há um tempo trabalhando com isso, então eu vi momentos em que esse índice melhorou, quando sentimos um indício claro de que iniciativas do Estado funcionavam de forma muito mais efetiva: a compra de livros pelo governo, a entrada de livros em bibliotecas públicas, programas de incentivo à leitura. Tenho muitos amigos que trabalharam intensamente com isso. Existe muita gente séria trabalhando a todo momento para tentar reverter esses números, fazer os livros chegarem até as pessoas, estimular crianças a ler desde cedo.

Mas eu acho que para um país como o Brasil, com essa dimensão de problemas que nós temos, que vêm desde antes da ditadura, que está na gênese do nosso país, não é muito conveniente para uma determinada casta da sociedade que a população brasileira leia muito. Eu acho que esse é o principal problema, não só em relação à leitura, mas ao acesso à educação. Quando o pobre começa a se conscientizar e se educar, ele não quer ser mais pobre. É algo curioso na realidade brasileira: as pessoas querem manter essa população na ignorância. Isso vem de iniciativa pública e, enquanto a população não tiver governantes realmente interessados em mudar esse paradigma, as coisas não mudam mesmo, vamos continuar com esses números muito baixos.

Eu não vejo nenhuma saída até que a gestão Bolsonaro acabe e algo mude no país para um outro lado. Estamos falando agora de enfraquecimento do Estado, de pessoas que, na verdade, só jogam contra tudo isso: o ministro da Educação é um boçal; o ministro da Cultura que não entende nada de cultura... Entramos numa espiral em que falar bobagem no Twitter te dá um cargo público. Enquanto essa situação não acabar, estamos presos na mesma condição.

Eu sou esperançoso, tenho dois filhos pequenos. Eu preciso acreditar que o Brasil vai mudar. Mas vai demorar. O mal que já foi feito é muito grande. Agora, nós, enquanto população, precisamos lutar para que isso mude intensamente, em prol de mais fomento, políticas públicas, incentivo à leitura, enfim, para que esses programas voltem a existir de forma mais intensa.

LOUCOS POR FILMES – Você é uma pessoa/um artista bem engajado com diversos projetos além de propriamente escrever e desenhar. Você fundou a editora Narval Comix, criou a plataforma A Nébula, é curador da Des.Gráfica (realizada pelo MIS-SP), também dá aulas a convite do Sesc... Isso tudo é para fugir da rotina? Poderia falar um pouco desses projetos para quem não conhece?

RAFAEL COUTINHO – Eu sou assanhado. Eu sempre gostei de entender o que mais tem em volta da produção artística. Eu gosto muito de trabalhar com pessoas, de sair um pouco do isolamento dos quadrinhos, das artes plásticas e buscar por ações coletivas. Também é pouco pela necessidade de grana, pois eu percebi que, se eu ficasse só batendo cabeça em cima disso, seria ruim para mim.

Eu sempre me interessei por linguagens com as quais eu nunca tinha trabalhado: cenografia, teatro, televisão, animação... Enfim, eu acho divertido saber até onde eu posso ir. Tudo isso também me traz benefícios financeiros, trabalhos interessantes, conheço pessoas fora do meu meio que me inspiram muito e me fazem querer continuar trabalhando com arte. Tem sido uma eterna busca.

O evento Des.Gráfica, que eu desenvolvo lá no MIS, é superlegal, voltado para quadrinistas mais autorais, com foco em produções independentes e um viés um pouco mais lírico, artístico, absurdo, esquisito. É um ponto de confluência com outras mídias. Ano que vem vamos para a quinta edição. O evento acontece sempre em outubro.

Além disso, eu tenho dado muitas aulas na EBAP como professor universitário. Eu dou aula desde que comecei a fazer quadrinhos e gosto muito disso, de passar o conhecimento pra frente. Inclusive, eu aprendo mais do que eu ensino.

Respondendo à sua pergunta, eu acho que é um desejo de continuar buscando coisas que eu não conheço. Isso me interessa.

LOUCOS POR FILMES – Agora falando da sua obra: em Cachalote, HQ que ganhou grande repercussão, você trabalhou em conjunto com o Daniel Galera. Sabemos que vocês são fãs confessos um do outro.

Você pode contar como foi o processo de fazer dupla com o Galera para esse trabalho?

RAFAEL COUTINHO – Nós nos conhecemos há muitos anos. Já faz nove anos, quase dez, que Cachalote foi publicada. Nos conhecemos dois anos e meio antes disso. Ficamos muito amigos. No momento, eu estava muito interessado em literatura; por sua vez, o [Daniel] Galera tinha muito interesse em quadrinhos.

Foi um momento em que os quadrinhos no Brasil estavam começando a se abrir para histórias mais longas, as graphic novels. As editoras também estavam muito interessadas. O Galera já era publicado pela Companhia das Letras, que estava montando um selo da editora para quadrinhos. E conhecemos o André Conti, que foi o nosso terceiro parceiro nesse projeto.

Cachalote nasceu do interesse dos dois de fazer algo juntos, escrever uma história mais longa. Começamos a bater as histórias e, quando fomos ver, tínhamos várias que queríamos contar. Então percebemos que, mexendo nelas, dava para contar uma [história] grande através dessas pequenas. Decidimos, portanto, fazer uma multitrama.

Foi um processo longo. Eu aprendi muito com o Galera. Ele tem uma metodologia de criação muito disciplinada, séria, devota mesmo. Para mim, foi uma grande aula. Acabou que trocamos vários discos, filmes, aprendemos a falar um a língua do outro. Inclusive, esse processo de troca enriqueceu bastante a história.

LOUCOS POR FILMESMensur teve um longo trabalho de produção: sete anos. Foi o seu retorno à narrativa longa, mas, desta vez, assinando sozinho. Como foi esse processo?

RAFAEL COUTINHO – Foi muito duro. Eu não tinha tanta bagagem assim, por isso, eu tive que estudar muito e fazer vários testes até chegar à história final. O André Conti (de novo), um grande amigo, ajudou muito nesse processo. Sem ele, eu não teria conseguido.

Foi um período em que eu descobri também que eu tenho um jeito muito particular de contar histórias. Interessa menos [para mim] encontrar os lugares exatos da trama, dos plots internos ou resolver a trama perfeitamente. De certa forma, me interessa mais viver esses personagens, ouvi-los falar sobre aspectos da vida, tentar ver o que mais eles poderiam fazer fora da trama principal, deixar que escorra de uma forma mais solta. Criar o roteiro tinha a ver com viver.

Eu também tive dois filhos nesse processo, vivi muito intensamente esse caminho. A história acaba falando um pouco da minha mudança nesse período. Foi forte, foi difícil pra caramba, mas foi muito educativo.

LOUCOS POR FILMES – Você ilustrou o livro Forest Gump (em 2016) e a nova edição de Androides sonham com ovelhas elétricas? (lançada este ano com o título mais comercial: Blade Runner), ambas as obras com o selo da editora Aleph.

Como rolou o convite para a parceria e o que você achou de ilustrar essas obras aclamadas?

RAFAEL COUTINHO – Foi muito legal. Eu tenho um grande amigo na Aleph, que é o Daniel Lameira, um baita editor. Ele me convidou para ilustrar o Forest Gump há alguns anos e deu certo pra caramba. Agora fui chamado para fazer as capas dos livros do [Philip] K. Dick. Tinha começado com uma coisa para vermos aonde ia e acabou se tornando um projeto de ilustrar a coleção inteira, que eu estou fazendo ainda. Aliás, preciso entregar mais duas [artes das novas edições], que estão atrasadas (risos).

LOUCOS POR FILMES – Quais são os livros que faltam?

RAFAEL COUTINHO – Segredo (risos). [As artes] Estão saindo aos poucos e tem sido bem legal. O público da Aleph é muito apaixonado pelos livros da editora. Foi muito bom pra mim, que estava um pouco distante do processo de quadrinhos, de desenhar diariamente, como eu fiz durante dez anos. Eu fiquei uns três anos mais morno, fazendo outras coisas não ligadas à produção diária de desenho. Foi bom voltar e receber esse retorno dos fãs da Aleph, que ficam muito empolgados com as capas. Blade Runner foi a primeira dessas e, toda vez que lançamos uma capa, os fãs reagem na hora.

O legal foi que o Lameira queria chamar vários desenhistas para fazer estilos diferentes, aí eu propus a ele: “Cara, eu posso fazer eu em vários estilos diferentes?” (porque eu gosto muito de trocar de estilo). Ele topou. Então tem sido um desafio testar coisas que eu nunca testei, linguagens diferentes, tentar me aproximar de referências que o Lameira passa dos anos 50. Está sendo um caldeirão de experimentações.

LOUCOS POR FILMES – Por fim, gostaríamos que você deixasse algumas dicas para quem não tem muita proximidade com o universo dos quadrinhos, mas tenha curiosidade em conhecer.

RAFAEL COUTINHO – É difícil, porque existe um mundo muito vasto hoje em dia. O mercado de quadrinhos brasileiro está bem grande, então tem [quadrinhos] para todos os gostos. A pessoa que não tem muito contato com os quadrinhos pode olhar as capas, conversar com autores – eles não mordem (risos), estão loucos para conversar, vieram de longe, trouxeram seus materiais. Então toma coragem para conversar com eles, perguntando sobre o que é a história. Assim, você, como leitor, desenvolve não só seu sentido estético, a predileção por determinado tipo de arte, mas também pelo tipo de história, o tipo de artista.

Então é isso: pegou um, pegou dois, descobre quem são os pilares daqueles de que você gostou e vai aos poucos seu leque de opções.

Gosto também de passar para a frente os sites que escrevem sobre quadrinhos no Brasil. É uma galera muito guerreira, que divulga de graça. Gente que vai no evento e fica fazendo entrevista (risos). É um pessoal que ajuda muito o público a se educar e entender para onde vai essa história. O que esperar do mundo das histórias em quadrinhos? É um mundo infinito. Se você se apaixonou por um, pode ter certeza de que tem mais atrás daquele pelo qual você se apaixonou.


Deixe sua opinião:)

Mostrar comentários 💬