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Crítica: A Vida Invisível

Não maioria dos casos, irmãos geralmente são próximos, e há uma conexão que, apesar de invisível, é algo bastante comum nos laços entre eles.
 A Vida Invisível

Não maioria dos casos, irmãos geralmente são próximos, e há uma conexão que, apesar de invisível, é algo bastante comum nos laços entre eles. As irmãs, em particular, possuem uma cumplicidade e intimidade que é difícil de explicar e traduzir. Essa complexa relação foi capturada em bons filmes como As Virgens Suicidas (Sofia Coppola) e Hannah e suas Irmãs (Woody Allen). O novo filme de Karim Aïnouz (Madame Satã), A Vida Invisível, enfoca essa relação instintiva. Adaptado do romance de Martha Batalha, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, e dirigido e co-escrito pelo por Aïnouz o filme é um melodrama baseado em uma profunda irmandade aprofundada em sentimentos provocados por em uma separação comovente que causa décadas de desejo e perguntas sem resposta. Apesar da individualidade de seu título, a obra é na verdade uma exploração sensorial da relação independente entre duas irmãs separadas por décadas pela vergonha e fraude familiar. A história é contada como uma série de cartas entre duas irmãs, Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler), que são separadas pelas circunstâncias de uma sociedade conservadora brasileira.

Estamos em um Rio de Janeiro conservador e reprimido da década de 1950, e as duas irmãs têm projetos de vida diferentes e distanciados da cultura da família comandada com um viés misógino por seu pai Manuel (Antonio Fonseca). O pai severo e Ana (Flavia Gusmão), a mãe obediente, administram uma casa conservadora, mas as jovens acalentam o espírito uma da outra. Enquanto Eurídice está determinada a se tornar pianista e estudar em um conservatório em Viena, Guida, cujas virtudes são menos óbvias, foge para a Europa com um marinheiro grego (Nikolas Antunes), ​​notificando a família por carta e prometendo voltar após o casamento. O rápido colapso de sua aventura marítima deixa Guida sozinha e grávida, e ao retornar para casa o pai lhe nega abrigo e renuncia à filha necessitada. De forma cruel ele ainda conta uma mentira para manter as irmãs separadas, alegando que Eurídice partiu para perseguir seu sonho de pianista na Áustria. Aos poucos as ambições de Eurídice desaparecem e ela, sem ter ideia de que Guida retornou, se estabelece em um casamento insatisfatório com Antenor (Gregório Duvivier), uma quase cópia de seu pai. Grávida, renegada por seu pai e afastada do contato de Eurídice, Guida constrói uma nova vida em cortiços do Rio, com o apoio da prostituta Filomena (Bárbara Santos). Capaz de sofrer pancadas emocionais mais fortes do que a irmã, ela encontra seu próprio tipo de felicidade nas pequenas alegrias e camaradagens do ambiente que a acolheu. Ela se torna a mãe solteira, a mulher proibida da sociedade, enquanto Eurídice é o arquétipo da vítima, cuja passividade permite que todo mundo decida sobre ela.

Elas seguem suas vidas separadas uma da outra. Guida acreditando que sua irmã mora em Viena e Eurídice, que Guida nunca voltou da Grécia. No entanto, ambas vivem no Rio de Janeiro, em pólos opostos de uma sociedade que, além de machista, é classista. O filme encontra um ritmo de melancolia ao acompanhar as irmãs ao longo dos anos, tão próximas e distantes, em caminhos separados onde a reunião delas parece impossível. A narrativa implícita sustenta que em grande parte essa impossibilidade é sustentada pelo poder dos homens e pelos papéis que eles atribuem às mulheres na sociedade.

As cartas de Guida à Eurídice, nunca respondidas e imaginando e invejando a vida de uma bem sucedida pianista, são transmitidas na narração, um dispositivo que além de um diário confessional forma um refrão que vai amarrando os eventos das vidas das duas irmãs. Aïnouz vai construindo então um testemunho da resiliência das mulheres em uma sociedade patriarcal destrutiva, bem como um cenário das mulheres que foram geradas naquela estrutura familiar da época. O diretor lida de forma hábil com os picos de drama e tensão, e mantém o filme bem ritmado e a montagem bem posicionada, de forma que os anos vão se passando e grandes mudanças ocorrem ao longo de uma única linha de diálogo. As figuras masculinas são bem construídas apesar de à beira do estereótipo, e um certo apelo à emoção excessiva para expor sua crítica. A figura do patriarca e a dinâmica sexual servindo como eixo de opressão são bases interessantes para a construção, mas logo se torna repetitivo ao se concentrar em nos alertar no quanto é difícil ser mulher e cria com isso alguns desvios do desenvolvimento orgânico das ações. Nada que prejudique o andamento. A evolução dos personagens ganha força diante da demonstração de suas vidas conflituosas e arruinadas. À medida que observamos suas memórias, a narrativa melodramática clássica ganha atitudes contemporâneas em relação às suas personagens femininas, apesar do tempo passado que as aprisiona.

Em um filme de grandes aspectos emocionais, a riqueza das imagens e da paisagem é inteiramente adequada. A cinematografia da francesa Hélène Louvart é suntuosa, inundada de tons, formas e texturas. As cores ousadamente saturadas servem para intensificar a intimidade do drama e são acompanhadas da arte bem ambientada e repleta de padrões de Rodrigo Martirena e os figurinos expressivos de Marina Franco. A construção sonora amplia a tragédia dolorosa e o volume dramático apoiado por peças de piano clássicas e sons exuberantes ao longo filme, nos surpreende com novas curvas para a história. O piano se torna a trilha sonora de uma ausência prolongada e também um corredor para Euridice atravessar a vida.

Carol Duarte e Julia Stockler estão em uma harmonia magnética proporcionando performances maravilhosas que variam desde vulnerabilidade até frustração e insanidade das personagens. A força das atrizes apóia o filme especialmente nas cenas em que há uma subversão à ordem estabelecida. Há um bônus no final com um epílogo que se destaca pela aparição prolongada da grande Fernanda Montenegro (Central do Brasil), que, aos 89 anos, entra em cena e consegue reunir todos os sentimentos soltos do filme.

Com uma duração generosa de duas horas e 20 minutos A Vida Invisível é uma história vibrante, socialmente relevante e ricamente contada, que irá encantar aqueles que gostam de dramas cheios de reviravoltas com raiva e sofrimento. Apesar de suas muitas representações de injustiça, insensibilidade e decepção crônica, o longa emocionalmente potente celebra a mudança de posição das mulheres na sociedade e destaca sua resiliência e independência mental firme, mesmo diante de seus sonhos destruídos por um patriarcado sufocante.


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