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Crítica: Sinônimos

Cansado de carregar sua bagagem hereditária, Yoav decide trocar de pátria, mas encontra na França similaridades com Israel e termina preso entre duas nações e sem pertencer a nenhuma, como alguém carente de identidade.
Sinônimos

Premiado com o Urso de Ouro no Festival de Berlim deste ano, “Sinônimos”, do cineasta israelense Nadav Lapid, foi um dos filmes mais concorridos na 49ª Mostra de Cinema Internacional, em São Paulo. O longa, inspirado na vida do diretor, que foi para Paris porque acreditava ter nascido em Israel por engano, desafia o espectador ao apresentar o dilema de identidade de um jovem que se força em exílio e presenteia aqueles que o assistem com todas as características cinematográficas próprias de Lapid, que iniciou a carreira com “Proyect Gvul”, em 2003.

“Sinônimos” começa com a chegada de Yoav (Tom Mercier) à Paris com um movimento de câmera acelerado e desestabilizado que demonstra um pouco da ansiedade do jovem ex-militar israelense de começar a sua nova vida - um “exílio forçado” para abandonar a sua herança cultural e se tornar um francês.

Ao chegar em sua primeira estadia na capital francesa, um apartamento completamente desmobiliado, Yoav toma um banho de banheira para se esquentar e, ao sair, completamente nu, vê que todos os seus poucos pertences desapareceram (foram roubados, talvez?). Assim como veio ao mundo em meio à nação que escolheu para ser a sua nova, ele está pronto para renascer. Mas esse processo não será fácil.

Depois de quase congelar pela falta de roupas, Yoav é encontrado quase morto na banheira por dois moradores do prédio que são o retrato do estereótipo dos jovens parisienses, Emile (Quentin Dolmaire) e Caroline (Louise Chevillotte) que praticamente o adotam. Oferecem roupas, celular, dinheiro e o israelense os retribui com suas histórias na pátria antiga, momentos onde começamos a conhecer Yoav, que se recusa a falar hebreu.

Yoav tem seus próprios mecanismos para imergir na nova identidade: com um pequeno dicionário nas mãos, ele repete incansavelmente diferentes sinônimos enquanto caminha pelas ruas de Paris sempre com a cabeça baixa (para não se render aos encantos do coração, como ele diz). Em algumas dessas sequências, o movimento de câmera de Lapid nos coloca em sua posição, com o chão passando acelerado frente aos nossos olhos, mostrando a concentração.

Ao longo das mais de 2h de filme, os movimentos de câmera de Lapid são precisos. Sabendo exatamente onde posicionar o espectador e surpreendendo-o, dando novas camadas a planos que poderiam se tornar inexpressivos. Outra característica marcante do cineasta são as metáforas visuais que podem parecer óbvias, mas nem por isso deixam de funcionar (como o “renascimento” logo no início e a cena final).

“Sinônimos” desafia o espectador acostumado a uma narrativa de cinema mais convencional por não ter um plot evidente. O tempo da narrativa de Lapid se escorre de modo a deixar acontecimentos sem se amarrar completamente e, por vezes, há a impressão de fios soltos ou de mais de um filme em um. Somos surpreendidos com uma narração de Yoav sobre os gastos envolvendo sua alimentação em determinado ponto do filme já adiantado, e não sabemos o destino de  alguns acontecimentos. Mas apesar do estranhamento, tudo se encaixa como elementos da linguagem do filme e não falhas em sua construção.

“Mudei-me para a França para fugir de Israel”, diz o protagonista em uma das primeiras cenas do filme ao usar sinônimos como “abominável”, repugnante”, “lamentável”, “detestável” e “vulgar” para falar do seu país e ser rebatido por Emile: “nenhum país pode ser tudo isso”.

Para aqueles que se propõe a embarcar até o final, “Sinônimos” é um filme que acompanha o espectador após sair da sala de cinema e persiste em seus detalhes e história. Em tempos de discussão de ódio a imigrantes, e em um mundo que identifica as pessoas primeiramente apenas pelo lugar em que nasceram, “Sinônimos” impõe reflexão sobre sobre até que ponto somos definidos pelo local que nascemos, o que constitui a nossa identidade e herança cultural.

Cansado de carregar sua bagagem hereditária, Yoav decide trocar de pátria, mas encontra na França similaridades com Israel e termina preso entre duas nações e sem pertencer a nenhuma, como alguém carente de identidade. A cena final do protagonista contra a porta (mais uma vez nas metáforas de Lapid) deixa claro a tentativa não bem sucedida de tentar se forçar em uma nova cultura e identidade.

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