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Crítica: Frozen 2

Apesar de ter um desenvolvimento de sua trama ainda simplista demais – especialmente considerando a concorrência atual – o novo conto de fadas do Séc XXI pode continuar funcionando para uma nova geração que certamente estranharia o comportamento de princesas
Frozen 2

Quando Frozen: Uma Aventura Congelante foi lançado em 2013, o contexto era o que foi posteriormente chamado de A Segunda Renascença do Walt Disney Studio, sendo a primeira aquela que começou com A Pequena Sereia (1989) após longos anos de fracassos depois da morte de Walt Disney e que lhe trouxe uma próspera e memorável década de 90. No início dos anos 2010, suas animações voltaram a enfileirar sucessos como Detona Ralph (2012), Zootopia (2016) e Moana (2016). Boa parte do que chamou a atenção na história das irmãs Elsa e Anna era o retorno de elementos clássicos ao mesmo tempo em que repaginava a ultrapassada ideia de que as princesas viviam em função de encontrar um grande amor – este que, representado no “gesto de amor verdadeiro”, se revelou a ligação fraterna no lugar do príncipe encantado. Seis anos depois, Frozen 2 (com um tardio lançamento no Brasil somente para janeiro de 2020) tem a chance de manter a escolha ao focar sua história na força de suas duas protagonistas sem perder aquela “cara” da Disney como todo mundo conhece.

Se no longa anterior a premissa construía a ideia clássica do amor prometido, ela também já brincava com a própria questão de como isso soa anacrônico e superficial ao colocar Anna (Kristen Bell) impulsivamente se tornando noiva daquele que iria se revelar o vilão (o que aqui na continuação, também vira a piada do “maior erro da sua vida”). Quebrando ainda mais as expectativas, a solução surgia não como uma dependência de outro homem – embora houvesse o par romântico com Kristoff (Jonathan Groff) –, mas como uma forma de solidificar a relação das irmãs.

Pois se antes esse personagem tinha sua importância até relativa, agora a trama o deixa ainda mais de lado para dar lugar aos novos conflitos de Elsa (Idina Menzel) e como eles afetam novamente a irmã. Até se pode argumentar que falta propósito para Kristoff – e o filme é obrigado a tentar criar uma desavença com Anna para justificar um obstáculo, mas acaba soando como um desespero ineficiente – é um grande problema para o longa, mas em um quadro mais amplo, nada mais é do que uma inversão de um tipo de papel que o gênero feminino se cansou de viver em animações.  O roteiro de Jennifer Lee (novamente na direção com Chris Buck) prefere investir nas origens mitológicas dos poderes de Elsa, retornando a uma história contada pelos pais quando era apenas uma criança.

Nesse contexto, elementos ainda mais mágicos são inseridos quando a trama acompanha as irmãs, junto com Kristoff, Olaf (Josh Gad) e a rena Sven, em busca de uma floresta mística que foi tomada por uma misteriosa neblina quando seu pai era um jovem príncipe de Arendelle. Uma guerra com os habitantes locais fez com que uma espécie de maldição separasse os povos, juntamente com os elementos ar, água, terra e fogo. Elsa começa a ouvir um chamado em forma de um breve canto e passa a procurar o que acha ser a origem de seus poderes e o destino de seus pais.

Dessa forma, sem particularmente personificar um vilão específico, o escopo de trama é expandido ao colocar como antagonista um conflito geral que ganha alguns subtextos interessantes que vão desde a busca por um propósito até a mística do meio ambiente (algo que lembra bastante Moana) e o impacto de invasores em povos nativos. O resultado é que o pequeno universo envolto pela trama do primeiro longa, basicamente restrito a um só ambiente, dá lugar a uma exploração mais intensa do mundo fantástico de Frozen. Recorrendo a uma saída bastante comum, o grupo de personagens se divide em pequenos núcleos como uma maneira de aumentar as possiblidades narrativas através de sequências mais elaboradas e distintas tanto no tom quanto na estética.

Embora essa abordagem torne a obra mais rico tematicamente e visualmente, o roteiro também pena para não transformar sua estrutura em um jogo de exposições e explicações, o que enfraquece a experiência e demonstra que o tom infantilloide pode ser um problema, mesmo para um público alvo de crianças – o que já sabemos não ser exatamente uma desculpa, já que a Pixar, por exemplo, mostrou diversas vezes que é perfeitamente possível trabalhar com complexidade sem subestimar a capacidade de seu público mirim. Esse problema tende a tornar a imersão em uma aventura pouco participativa, no sentido de que não sobra muito espaço para que o espectador sinta o peso de algum mistério ou crie expectativas que realmente se paguem de forma satisfatória.

Felizmente, aquilo que comumente é chamado de “encanto” da Disney ainda sobrevive bem. A já reconhecida expressividade das animações do estúdio continua em plena forma e a concepção visual e estética tem um upgrade considerável, explorando ainda mais as cores, formas, paisagens e até sequências surreais que não só são servem para encher os olhos, mas se encaixa organicamente com o arco das personagens – nesse ponto, o destaque vai para a jornada de Elsa em busca de um rio onde supostamente encontrará todas as respostas que procura, quando a equipe de animação tem a chance de justificar a expectativa criada pelo sucesso do filme anterior (ocupando o 2º lugar no ranking de maiores bilheterias de animações, perdendo apenas para a versão live-action de O Rei Leão).

Fora isso, claro, os musicais são outra marca forte do estúdio e, se não é possível dizer ainda se haverá outra canção “chiclete” como Let It Go, é evidente que elas surgem ainda mais bem arranjadas e um pouco mais complexas que antes. O tom de mesmice dá lugar a uma abordagem mais pop, como os bandolins ritmados de Some Things Never Change ou o jazz de When I Am Older, mas sem se esquecer daquela velha pegada épica, aqui representada pela boa Into The Unknown. Há lugar também para o humor em uma divertida passagem de Lost in the Woods, que faz uma sátira aos clipes românticos, interpretada por Kristoff. Aliás, o alívio cômico continua centrado no boneco de neve Olaf – e me perdoem os fãs, mas só consigo entender seu apelo para as crianças, já que ele sempre se mostrou um personagem bobo demais e irrelevante, ao menos ganhando um só momento bom onde resume os acontecimentos do filme anterior que certamente é o que fará o público mais rir.

Tanto em questão de capital investido quanto em escala, Frozen 2 é “maior”, em um bom sentido. Apesar de ter um desenvolvimento de sua trama ainda simplista demais – especialmente considerando a concorrência atual – o novo conto de fadas do Séc XXI pode continuar funcionando para uma nova geração que certamente estranharia o comportamento de princesas como as de Branca de Neve e os Sete Anões (1937) e A Bela Adormecida (1959), mas se sente bem mais representada pelas aventuras de Anna e Elsa.


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