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Crítica: O Pintassilgo

O Pintassilgo é um filme que, mesmo oriundo de uma matéria-prima aclamada por sua densidade e teor metafórico, consegue ser, no máximo, um drama razoável e superficial.
O Pintassilgo

Por vezes, durante o processo de adaptação necessário para a adequação de uma linguagem a um novo veículo, o resultado final das duas obras, a originária e a derivada, pode ser radicalmente divergente. Sendo assim, é possível que uma peça premiadíssima renda um longa-metragem ruim, ao mesmo tempo em que uma peça ruim possa vir a criar Cinema de algum valor – o mesmo podendo ser dito quanto aos casos de conversão literária para a cinematográfica, que tanto apresentam materiais excelentes igualmente benfeitos quanto obtêm saldos positivos ou negativos.

O Pintassilgo (The Goldfinch, 2019), adaptado do colossal romance de Donna Tartt, premiada com um Pulitzer em 2014 por este trabalho, é um filme que percorre um caminho bastante tênue: há problemas narrativos formais evidentes, mas há elementos interessantes no enredo; o ritmo é glacial e quase estanque, porém, a cinematografia de Roger Deakins consegue criar imagens plasticamente belas, bem definidas e coerentes dentro dos tons pasteis que propõe. Enfim, trata-se de um projeto instável, em que cada boa decisão criativa corre o risco de ser anulada por uma escolha contestável, e vice-versa.

Conta-se aqui a odisseia de Theo Decker (Oakes Fegley/Ansel Elgort), um garoto de treze anos cuja mãe morreu em um atentado terrorista ao Museu Metropolitano de Arte, em Nova York. Ele não tem mais contato com o pai, Larry (Luke Wilson), um ator fracassado, e, sem ter com quem ficar, bate à porta dos Barbour, a rica família de um antigo amigo de infância, Andy (Ryan Foust). O acidente continuará lhe revisitando, levando-o a conhecer o antiquário Hobie (Jeffrey Wright), a jovem aspirante à musicista Pippa (Aimee Laurence) e o ucraniano Boris (Finn Wolfhard), tendo, além das recordações derradeiras de sua mãe, uma conexão com o quadro O Pintassilgo, pintado por Carel Fabritius.

O grande problema aqui é o subdesenvolvimento do material adaptado, sendo a culpa não apenas do roteiro de Peter Straughan, mas, também, da direção de John Crowley. Straughan, também autor dos excelentes O Espião que Sabia Demais (2011), Frank (2014) e da minissérie Wolf Hall (2015), tenta acrescentar algum dinamismo ao adotar uma estrutura não linear que não revela todas as informações sobre a história, mas é sabotado pela quantidade de subtramas, personagens e a tentativa de estabelecer um efeito de causa e consequência – em particular, durante o segundo ato de projeção. Na verdade, pensando na tripartição narrativa de atos, os problemas de engendramento prejudicam até mesmo a percepção temporal, nutrida pela plateia, do longa, diminuindo a presença – e o efeito sob o público – de figurais essenciais à trama, sendo Pippa (Ashleigh Cummings) a mais prejudicada por um encaixe dramático pouquíssimo eficaz. Crowley, por sua vez, conduz as cenas com paciência desmesurada, mantendo-as quase sempre no mesmo clima e sem picos de emoção.

A junção entre a pressa de Straughan e a letargia de Crowley descamba em uma metragem sem pulsação e, como já dito, subdesenvolvimento. O maior exemplo disso se dá durante uma transição entre uma cena em que Theo está sendo interrogado por policiais para outra na qual ele confronta um antigo amigo em um banheiro: ambos os momentos não partilhavam do mesmo assunto, não têm o mesmo tom, cadência ou propósito (desta forma, o demérito também ser compartilhado com a montadora Kelley Dixon). No entanto, nada se compara ao terceiro ato absolutamente desastroso, no qual a mescla de tonalidades leva a uma indefinição perigosa que retira da aura reflexiva e delicada desejada pela produção, adotando, no lugar, um sensacionalismo implausível – além de escancarar a previsibilidade do principal espelhamento situacional no qual o roteiro se baseia.

Todavia, por mais que o acabamento formal seja problemático, é possível encontrar/simpatizar com/envolver-se por uma história interessante. O forte elenco ajuda a causar boa impressão: Oakes Fegley e Ansel Elgort conseguem conceber um personagem uniforme, de mudanças e traços específicos reconhecíveis e possíveis, enquanto Nicole Kidman e Jeffrey Wright são hábeis ao criar certa gravidade solene para as funções que desempenham na vida do protagonista, ao passo que Finn Wolfhard e Aneurin Barnard injetam grande fôlego à narrativa, não apenas pela comicidade de Boris, mas pelo grande carisma dos intérpretes.

Beneficiado pela fotografia exitosa de Roger Deakins, inteiramente construída em tons pasteis (com destaque para o creme, amarelo-queimado e marrom) ou, então, em seu extremo contraste – o breu absoluto -, como representado no mergulho de Theo e Boris na piscina, O Pintassilgo é um filme que, mesmo oriundo de uma matéria-prima aclamada por sua densidade e teor metafórico, consegue ser, no máximo, um drama razoável e superficial.



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