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Crítica: A Família Addams

O novo Família Addams acaba por parecer apenas uma imagem refletida de um material de origem muito mais rico, mesmo que até traga algumas coisas que farão os fãs relembrarem com carinho sua estética tradicional.
A Família Addams

Concebida pelo cartunista americano Charles Addams, A Família Addams tem bem mais idade do que talvez as duas últimas gerações possam imaginar. Como alguém que viveu a infância na década de 1990, as adaptações para o cinema – uma em 1991 e outra 1993 (a de 1998 passou batido) – se tornaram uma constante nas sessões vespertinas da TV aberta. As divertidas versões traziam o cerne daquilo que se originou, na verdade, em 1938, posteriormente virando em uma série famosa dos anos 60, fora outras versões animadas. Depois de um tempo sendo quase esquecida, a MGM, com distribuição internacional da Universal Pictures, traz de volta toda a adorável morbidez dos Addams em uma nova adaptação em animação 3D. Será que essa viagem nostálgica vale a pena para a nova geração?

Na trama, a família é obrigada a procurar um novo lar quando é expulsa de sua terra por moradores da região. Após vagar na incerteza, Gomez (Oscar Isaac) e Mortícia (Charlize Theron) encontram um novo local no pico de um pavoroso morro cercado por uma pequena e pacata cidade interiorana. Assim que uma celebridade local, Margaux (Allison Janney), vê uma oportunidade de alavancar seu reality show prometendo uma nova decoração para o casarão dos Addams, a convivência e as diferenças com os vizinhos começam a ser testadas. Enquanto isso, Vandinha (Chloe Moretz) se cansa de viver cercada e decide tentar fazer novas amigas na escola, e seu irmão, Pugsley (Finn Wolfhard), está prestes a passar por um ritual tradicional para se tornar um verdadeiro homem da Família Addams.

Criada como uma clara sátira ao estilo de vida da família tradicional americana, a obra sempre se destacou por misturar um humor afiado e crítico a uma brincadeira com o gênero de horror, especialmente aquele clássico que remete aos filmes de monstros da década de 1930. Dirigido por Greg Tiernan (Festa da Salsicha) e Conrad Vernon (Shrek 2), o longa mantém aquela que é uma das marcas da franquia: fazer humor invertendo valores tradicionais de beleza e estilo de vida. Portanto, se você já assistiu a qualquer das versões, irá encontrar uma base já conhecida. Tudo aquilo que é considerado belo, do vestuário e senso decorativo até os valores relacionados à felicidade, é transformado em um macabro que mais ri de si mesmo do que de fato assusta.

Essa é, aliás, outra característica marcante. O humor que permeia a narrativa está mais preocupado em causar o riso pelo impacto entre seus adoráveis personagens ao avesso e as pessoas “normais”. Nesse sentido, Vandinha continua sendo um dos trunfos criados por Charles Addams, Sua característica descrença com a própria vida e o pessimismo com que encara todos a sua volta traz alguns dos bons momentos do longa através do choque com as adolescentes típicas de sua idade – e é particularmente sempre divertido como a malvada popular da escola não tem a menor chance contra a frieza quase psicopata de Vandinha. Com a habilidade de despertar a simpatia do espectador ao coloca-los como protagonistas enfrentando a hipócrita imagem angelical e moral da classe média, os membros dos Addams acabam se tornando heróis contra a intolerância.

É uma pena que o roteiro de Matt Lieberman jamais consiga realmente desenvolver esse potencial de forma mais plena. Infantil demais – e note que infantil aqui não é sinônimo de raso, já que basta observar as animações da Pixar e da Dreamworks para perceber que a faixa etária do público alvo tem pouca relação com a qualidade da história – a trama bate demais na mesma tecla, repetindo o tempo todo para o espectador a moral óbvia da obra: olhem como essa família estranha sofre preconceito por ser diferente. Claro, a princípio não há problema algum na premissa, mas é que o texto de Lieberman é bobo, repetitivo e parece sempre subestimar a capacidade do público em absorver as “metáforas”. Embora o longa até tente repaginar o contexto aos tempos atuais, fazendo uma crítica à alienação causada pela tecnologia e o culto à imagem, tudo risca apenas na superfície, vez ou outra acertando ao investir em piadas referenciais a outras obras – o que acaba também ajudando a abraçar um público mais novo ao dar uma piscadela para a cultura pop atual.

O novo Família Addams acaba por parecer apenas uma imagem refletida de um material de origem muito mais rico, mesmo que até traga algumas coisas que farão os fãs relembrarem com carinho sua estética tradicional. Estão lá as expressões de espanto e declarações de amor funestas entre Gomez e Mortícia, um lar assombrado que traz os ruídos fantasmagóricos como sintomas de uma mansão que tem vida própria e a curiosa inocência com a qual os personagens lidam com tudo isso na mais inquietante tranquilidade possível. Até a icônica música tema de abertura, composta por Vic Mizzy, encontra um momento satisfatório para ser tocada.

Entretanto, também sentimos falta de um humor mais perspicaz, uma trama que não terminasse de forma tão súbita e um arco melhor para alguns outros ilustres membros da família, como Tio Fester (Nick Kroll), Primo It (Snoop Dog), Vovó Addams (Bette Midler) e até o alivio cômico da Coisa (a mãozinha). Pelo jeito, aqueles filmes da Sessão da Tarde dos anos 90 ainda permanecem definitivos para pelo menos a minha geração.



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