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Crítica #2: Coringa

Ainda que seja ideologicamente ambivalente (certa hora, um personagem profere um discurso elitista e meritocrático contra a população pobre, apenas para que um integrante desta mesma sociedade aja de maneira virulenta e injustificável),
Coringa

Morador de Gotham City, um lugar atualmente esquecido por Deus e por quaisquer mecanismos efetivos do Estado de bem-estar social, Arthur Fleck trabalha como palhaço, apresentando-se como anunciante de pequenos varejistas decadentes e em hospitais infantis. A tarefa de interpretar um palhaço, porém, extrapola o âmbito profissional, já que todos parecem enxergá-lo como se ele devidamente fosse um palhaço: Arthur é espancado por crianças endiabradas, é malquisto pelos colegas de ofício e desdenhado pelos transeuntes que encontra. É assim que após tantos dissabores, aliados a uma história pregressa traumática, Arthur Fleck se realizará, se vingará e caminhará gradualmente em direção ao caos – uma condição pela qual descobrirá grande apreço.

Ao contrário da vasta maioria dos blockbusters que ocupam a maior parte das salas de cinema mundo afora, Coringa (Joker, 2019) não está preocupado em explorar um enredo intrincado, cheio de ameaças de teor realista-fantástico, calcadas em megalomaníacos set pieces de ação ou em efeitos visuais ostensivos. O grande interesse do diretor e coroteirista Todd Philips (da trilogia Se Beber, Não Case!) reside na elaboração de um estudo de personagem, esmiuçando os pormenores que constituíram o caráter e a psique do protagonista. Além disso, o cineasta parece ter consciência do tipo de expectativa e sentimento coletivo que o antagonista do Batman suscita na audiência, e investe em um tom constantemente tenso, sem espaço para quaisquer respiros ou alívios cômicos. Partindo desta lógica, o longa-metragem, em certos momentos, parece funcionar como um conto de horror, cujo presságio da tragédia já é imediatamente sentido, mas que, ao recompensar dignamente a plateia, torna-se ainda mais desconfortável, afinal, trata-se da evolução (involução) de um homem dentro de sua própria loucura.

Desta forma, Philips e seu coroteirista Scott Silver não abrem espaço para maniqueísmos e abraçam todas as possibilidades dramáticas do estudo que propõem, construindo uma história de origem às avessas, sobre um vilão psicopata. Tal escolha, evidentemente, esbarra em controvérsias. Pode-se culpar Philips e Silver por conceber situações como a vista na abertura do projeto, em que a plateia sente instantânea empatia por Arthur, um homem esguio e esquelético apanhando de jovens delinquentes. Entretanto, ainda que o texto da dupla forneça tais possibilidades de identificação, a impressão obtida é a de que Philips está, na verdade, provocando o senso moral da plateia por sentir solidariedade por alguém que, já sabemos de antemão, será um monstro.

Seguindo estes preceitos inversos, Philips e Silver ganham pontos pela estrutura e objetividade do enredo, no qual cada cena, por mais breve que seja, parece imbuída de um propósito, seja ao servir como antecipação a um acontecimento ou para revelar as carências sofridas pelo personagem central. Todavia, os roteiristas demonstram inspiração maior na construção das sequências-chave para a metamorfose de Arthur Fleck: após cometer seus atos de violência, Arthur, agora energizado por completar suas aspirações revanchistas, sente-se na necessidade de comemorar e ser recompensado, levando-o (e a nós também, o público) a conhecer um pouco de seu verdadeiro comportamento, notório após uma irrupção emocional imprevisível. Por fim, os roteiristas também merecem aplausos pela fidelidade mantida às patologias do protagonista – em particular, às gargalhadas tonitruantes e dolorosas dadas por Arthur nos momentos mais inconvenientes.

Philips, como principal conceituador deste trabalho, mergulha toda sua mise-en-scène nas transições psicológicas do personagem: o excelente design de produção de Mark Friedberg concebe cenários escuros, abafados e apertados, os quais são formados por intensa sujeira, desorganização e cores escuras, apostando no complexo contraste entre laranja e azul (o humor supostamente cálido e a melancolia subjacente de Arthur ou a alegada leveza de seu humor e a abrasividade de sua psicopatia), ao passo que os figurinos de Mark Bridges (colaborando com Phoenix pela segunda vez; a primeira foi em Vício Inerente) refletem as diferenças sociais entre os personagens e contam as mudanças pelas quais Arthur passa ao longo da história, indo de roupas maltrapilhas e de cores dessaturadas até tons mais vivazes e ternos de textura mais robusta, enquanto a cinematografia de Lawrence Sher aposta em movimentos alucinadamente ágeis para compor um quadro psicótico e temerário, dançando junto com o protagonista e direcionando-se em direção a ele, rodeando-o, aproximando-se e afastando-se diligentemente, o que denota extremo caráter analítico para com aquela criatura, gerando um desconforto que a ribombante trilha sonora da sueca Hildur Guðnadóttir só faz questão de consolidar.

Entretanto, por mais que seja coerente em sua concepção estética, Coringa encontra seu legítimo alicerce na performance galvanizante e aterradora de Joaquin Phoenix, cujo ímpeto dramático rivaliza apenas com o de Heath Ledger em O Cavaleiro das Trevas (2008). Phoenix passou por uma transformação física impressionante, perdendo 24kg e num esforço que se assemelha ao de Christian Bale em O Operário (2004), tornando seu corpo uma carcaça macilenta e esquálida, a qual o personagem sente ser completamente inabitável – isto é, até o momento em que sua insurgência social faz-se perceber. A tonalidade da risada do ator causa um sentimento tenebroso, parecendo genuína apesar das condições neurológicas atípicas a maioria dos seres ordinários. Também é admirável o uso de Phoenix (e do roteiro) ao empregar o senso de humor volátil e perigoso do personagem, destacando-se um momento em um show de stand-up comedy, durante o qual Arthur ri nas partes inapropriadas, não obstante a cena em que o personagem é acometido por um ataque ininterrupto de risos quando, na verdade, deseja esboçar um choro é dotada de uma sensibilidade consistente e forte disciplina, uma vez que Phoenix deve reagir de maneira inversa ao que ocorreu com o sujeito que está encarnando. É uma atuação antológica e digna de todos os encômios e láureas que certamente receberá.

Ainda que seja ideologicamente ambivalente (certa hora, um personagem profere um discurso elitista e meritocrático contra a população pobre, apenas para que um integrante desta mesma sociedade aja de maneira virulenta e injustificável), Coringa termina por ser um filme bombástico, em todas as acepções do termo: sua atmosfera é densa, seus temas são delicados e sua abordagem é desalentadora a ponto de mudar a percepção externa de certos detalhes sobre o mundo e as pessoas. Aqueles que irão assisti-lo certamente não mais ouvirão uma gargalhada do mesmo jeito.


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