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Crítica: Midsommar - O Mal Não Espera a Noite

Mais do que em Hereditário, Midsommar tem o objetivo de ser genuinamente angustiante ao invés de ser transgressivo e vive no limite, onde o horror encontra o absurdo.


Ari Aster, diretor do inesperado e bem vindo sucesso de 2018, Hereditário, escreve sua marca no cinema com um horror existencial, com uma condução narrativa muito diferente do gênero que estamos acostumados a encontrar nos filmes tradicionais trocando pulos na cadeira por algo mais longo e consistente. Tendo revigorado o horror, Aster, de 33 anos, se apegou ao gênero e escreve e dirige Midsommar, uma história perturbadoramente ambientada na zona rural da Suécia, impregnada de folclore, simbologia e matança.

Abandonando o sobrenatural em favor da temática de culto, o cineasta agora assume outros tons tradicionais do gênero, mas ainda assim evocando pavor e paranóia. Há semelhanças com o clássico O Homem de Palha (1973) de Robin Hardy, explorando cerimônias pagãs grotescas que tem o envolvimento de pessoas de fora. O novo filme é superficialmente oposto de seu antecessor, no entanto, também nos é apresentado com uma camada desvendada de cada vez e trabalha muito bem subvertendo o horror que trabalha convencionalmente com o que está oculto nas sombras, invertendo nossas expectativas para outro nível. Enquanto Hereditário é um filme de interiores, Midsommar explora os exteriores ensolarados, ao invés do sombrio brinca com os lugares comuns desse subgênero, mas de uma maneira pouco conhecida.

A trama gira principalmente em torno de Dani (Florence Pugh) e seu relacionamento à beira do rompimento com seu namorado Christian (Jack Reynor). Após Dani perder toda a família quando sua irmã bipolar comete suicídio e mata seus pais junto, Christian decide adiar a separação e convidá-la a acompanhá-lo com seus amigos Josh (William Jackson Harper) e Mark (Will Poulter) para uma pequena comunidade na Suécia, onde planejam celebrar o solstício de verão. Os quatro são convidados pelo amigo estrangeiro Pelle (Wilhelm Blomgren), que é nativo do país do norte da Europa e que organizou todo o passeio deles à sua cidade natal.

O Harga, como a comunidade é conhecida, parece inicialmente uma espécie de paraíso com um toque tipicamente espirituoso, onde o os membros vestindo roupas brancas parecem simpáticos e acolhedores. A celebração inicialmente parece girar em torno de atividade sexual extremamente explícita, música e substâncias alucinógenas, que são distribuídas livremente distorcendo as percepções dos participantes.

O elenco tem a potência mais alta na atuação da atriz britânica Florence Pugh e seu desempenho é ótimo, emprestando complexidade e turbulência emocional à sua personagem. Pugh não poupa energia ao retratar um personagem que lida com vastas camadas de tristeza, desespero, terror, ansiedade e liberação de maneira tão conectada e em um papel bem desafiador. Infelizmente seu parceiro, Reynor, não está no mesmo nível pois em parte seu personagem ter um papel menos complexo, passivo e desinteressado, mas ele até que se esforça ao máximo. O elenco de apoio está sólido e fornece uma grande base para a atuação da personagem central.

O ritmo que Aster emprega é em parte interessante com longas tomadas elaboradamente coreografadas, com grupos de atores distantes da câmera e com uma proposta visual atraente, mas sofre de problemas de ritmo. O filme é arrastado por uma duração muito longa (147 minutos) e cenas que caminham perigosamente perto de deslizar para se auto parodiar.

A música e a cinematografia são detalhadas e bonitas o suficiente para levar o filme adiante. A clareza digital das imagens, as mudanças focais que nos movem para dentro e para fora de diferentes pontos de vista subjetivos, os efeitos psicodélicos na paisagem com uso de algum CGI, dá ao espectador uma amostra do que os personagens estão experimentando. O trabalho de câmera do diretor de fotografia Pawel Pogorzelski, é atraente e equilibra o cenário lindo e repulsivo mantendo uma atmosfera inquietante através de um ritmo deliberado e a atuação de um elenco competente. O que realmente é um rompimento com os horrores mais modernos é que a grande maioria de seu tempo de execução é definida durante a luz do dia.

Mais do que em Hereditário, Midsommar tem o objetivo de ser genuinamente angustiante ao invés de ser transgressivo e vive no limite, onde o horror encontra o absurdo. Aster novamente entalhou um filme encharcado de atmosfera nervosa, com a sensação de que tudo está subindo para um crescente pesadelo até que esse pesadelo se concretiza. Ele nos concentra nas pessoas e não apenas nas reviravoltas, embora as ameaças sejam um elemento poderoso. É uma experiência conceitual e altamente visceral, desde o gore perturbador até o tom assustador. Talvez um dos filmes mais sombrios já gravados sob a luz do dia, Midsommar oferece um banquete de visões perturbadoras, momentos de condução ao medo e uma sensação crescente de pavor. Um filme paciente que requer um espectador paciente. É a prova de que o diretor Ari Aster é um iniciante que provavelmente tem um futuro brilhante pela frente.


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