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O escolhido para o Oscar 2020 realmente representa o Brasil de 2019?

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão é o representante do Brasil para Melhor Filme Internacional no Oscar 2020


Nesta manhã de terça-feira (27) foi anunciado o filme que irá representar o Brasil no Oscar de 2020, com o comitê deste ano sendo presidida por Anna Muylaert (Que Horas Ela Volta?; Mãe Só Há Uma), junto a outros especialistas, incluindo cineastas, produtores e críticos de cinema. E no final das contas, o grande escolhido foi A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, dirigido por Karim Aïnouz (Madame Satã; Praia do Futuro), um drama fundamentado em Eurídice e Guida, duas irmãs separadas quando adolescentes, e a descoberta de Eurídice, aos 80 anos, de cartas de sua irmã desaparecida, Guida.

É bem compreensível quando Anna Muylaert inicia a coletiva de imprensa já dizendo que a decisão não foi unânime e que na verdade foi extremamente dividida a decisão de qual filme representaria melhor o Brasil. Levando em conta que houve um atraso de uma hora e meia para o início da coletiva, é fácil imaginar que o veredicto tenha sido tomado a trinta minutos do anúncio final, mostrando a dificuldade de entrar em um acordo. A própria diretora deixou claro que a escolha ficou entre dois filmes, e quando perguntada qual teria ficado em segundo na escolha deles a resposta não poderia ter sido mais sucinta e ácida: “Eu acho que é fácil você imaginar”. 

Sua expressão durante a entrevista, assim como respostas curtas, ácidas e um tanto sarcásticas em certos pontos, demonstram com clareza que Anna Muylaert não ficou satisfeita em não ter Bacurau como o representante no Oscar. Um aborrecimento que se estende desde 2016 quando Aquarius, também dirigido por Kleber Mendonça Filho, foi boicotado pelo comitê de 2016. Boicote premeditado e contrariado por alguns diretores daquele ano, incluindo Anna Muylaert, que fez questão de retirar seu filme, Mãe Só Há Uma, da seleção de filmes para o Oscar em apoio a Aquarius, e mais do que isso, para que não houvesse dúvidas que Aquarius fosse o escolhido. Considerando a escolha daquele ano, Pequeno Segredo (David Schürmann) - o diretor fez parte do comitê desse ano -, a decisão de diretores de retirarem seus filmes da seleção apenas escancarou o boicote a Kleber Mendonça Filho. Com a escolha controversa, Muylaert declarou em 2016 que “joga-se no lixo um trabalho de profissionalização do cinema brasileiro que tem mais de 20 anos”. A questão que fica é se este ano seria mais um boicote por questões políticas.

É impossível dizer que a escolha está errada em levar A Vida Invisível de Eurídice Gusmão para a bancada de Hollywood escolher se será indicado à Melhor Filme Internacional ou não, e é também possível desconsiderar conservadorismo do comitê em vista que o filme tem como base o feminismo em uma era em que o patriarcado tinha voz absoluta, já que o filme se passa majoritariamente nos anos de 1950. “É um filme de extrema qualidade, ganhou o Un Certain Regard, é dirigido por um dos maiores nomes do cinema brasileiro, diretor nordestino, tem um produtor forte”, declarou a diretora quando questionada sobre algumas das razões da escolha do filme, destacando também a presença de Fernanda Montenegro no elenco, atriz já reconhecida pelo Oscar.

Os motivos da indicação de A Vida Invisível de Eurídice Gusmão são plausíveis, mas o apelo de Bacurau para o povo brasileiro em 2019 se mostrou de uma força descomunal raramente vista. As pré-estréias lotaram em todo o Brasil, e apenas o fato de ter tido pré-estréias ao redor do país já diz muito sobre a significância do filme por si só, sendo dificilmente encontrar filmes brasileiros recebendo esse tipo de prestígio e recepção de braços abertos do público, além do interesse que Bacurau atraiu, seja por aqueles que o veem positivamente como também os que o veem negativamente. Salas lotadas e a procura por ingressos foi gigantesca, dando apenas uma amostra do que será quando o filme realmente estrear nos cinemas brasileiros.

Porém, é mais do que salas cheias e grande bilheteria, e sim o fato de que Bacurau, mesmo em seu surrealismo, é o maior retrato do Brasil contemporâneo e principalmente um retrato do Brasil de 2019. E na verdade, o surrealismo é o aspecto que mais ajuda a fazer de Bacurau uma produção tão relacionável à atualidade, especialmente pelas questões políticas nas entrelinhas que expressam a opressão sofrida pelo povo diariamente pelos seus líderes omissos com a população. Um filme de Kleber Mendonça Filho novamente explorando a política brasileira através de metáforas, sendo o suficiente para ser um meio de polarização da sociedade. Enquanto um grupo aclama Bacurau e o exalta dentre os maiores filmes do cinema brasileiro, há outro grupo que o deprecia gratuitamente apenas por sua existência e por seus tópicos, pois no Brasil de 2019 não há espaço para qualquer tipo de crítica.

Um filme brasileiro numa terra onde o cinema é rejeitado e repudiado pelos próprios cidadãos deste país que consegue a proeza de criar a “balbúrdia” entre grupos de ideias diferentes e criar uma comoção tanto pelo seu conceito ideológico como pelo visual. Bacurau se tornou rapidamente um polo de discussão de todas as partes. Discutido por suas controvérsias politizadas dos que não concordam com a ideia pregada, enquanto outros o admiram especialmente por sua politização vociferada em um momento em que há os que querem o silêncio e a apolítica generalizada e os que querem desesperadamente manifestos contundentes sobre a realidade do Brasil como é feito em Bacurau. Premiado em Cannes e representando a veia mais pulsante do Brasil que é o Nordeste. A Academia há anos mostra que na categoria de Melhor Filme Internacional eles buscam além de um filme bem realizado, com ideias concisas e originalidade acima de tudo, um filme que represente uma nação e sua história. Bacurau se destaca não só por ser perfeitamente realizado e ter um visual estrondoso que certamente chamaria a atenção dos votantes da Academia, e sim uma produção que grita pelo povo brasileiro, que grita pelo Nordeste, e mostra o nosso contemporâneo sujo e corrompido por falsos profetas.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão irá representar o Brasil no Oscar da forma mais linda, não há dúvidas quanto a isso. Karim Aïnouz homenageia sua mãe e sua avó com essa produção, ao mesmo tempo em que homenageia todas as mulheres brasileiras que passaram pelas provações do século XX dominado pelo machismo e conseguiram ultrapassar os obstáculos de ser mulher no Brasil. Um claro retrato do Brasil de 1950 e de 2019, e um filme que representa o Brasil. No entanto, Bacurau é o Brasil.

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