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Crítica: Yesterday

Yesterday não é particularmente grandioso ou tem uma execução que esbanja originalidade (a não ser em sua premissa), mas é genuinamente agradável e eficaz em sua honestidade.
Yesterday

A premissa do novo longa de Danny Boyle é inegavelmente interessante e aquela que basicamente permeia qualquer material de divulgação até agora: como seria um mundo onde apenas você se lembrasse da existência dos Beatles? A resposta pode parecer direta, mas apenas um “impensável” ou “tanto faz” (quem acharia isso!?) não parece ser suficiente quando paramos para pensar o impacto cultural gigantesco do quarteto inglês na música e na sociedade das últimas cinco décadas. Mas vamos lá, se houvesse apenas as duas opções, a certa teria de ser “impensável” e, para o bem da divagação, descartamos a implicação lógica de que não sentiríamos falta de algo que jamais conhecemos (e não daria uma boa história). Ao invés disso, é mais fácil acompanharmos essa agonia na pele de um personagem que é obrigado a ver o mundo sem a maravilhosa obra da banda, e Yesterday faz justamente o trabalho de nos lembrar o quão bom é algo quando fazemos o exercício de nos imaginarmos sem ele.

Na trama, Jack Malik (Himesh Patel) é um músico fracassado que vive entre pequenas apresentações vazias tentando emplacar suas composições para alavancar a carreira e realizar seu grande sonho. Contando com o apoio de poucos amigos e da empresária Ellie Appleton (Lily James), ele estava prestes a desistir quando, após um acidente, algo misterioso acontece e ele acorda no hospital em uma realidade onde apenas ele reconhece as canções dos Fab Four. Depois do choque de perceber que o grupo nunca chegou a existir, ele tem a ideia de tomar as músicas como suas, passando a ser reconhecido como um gênio compositor em ascensão.    

Mesmo que alguém não seja nem um pouco fã da música (ainda há tempo e esperança), é difícil não se surpreender quando Jack toca despretensiosamente Yesterday em um violão que acabou de ganhar como presente de Ellie. Escutar a bela letra e melodia – composta por Paul MacCartney quando tinha apenas 22 anos – pela milésima vez não parece diferir em termos de impressão daqueles que não a conheciam. As reações impressionadas dos amigos (e que rende uma piada com o Coldplay) são o incidente motivador certeiro para que o protagonista perceba uma fonte enorme de um material já pronto, mesmo que tenha que resgatá-lo unicamente em suas memórias.  

O poder que apenas essa canção tem de emocionar é apenas uma das várias formas que o experiente roteirista Richard Curtis explora em mais um longa que demostra sua paixão pela música (da mesma forma que fez em Os Piratas do Rock e Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo). Encaixando cada referência que os fãs da banda certamente se divertirão encontrando (bem no estilo meme do Capitão América), Curtis mistura bem a permanência de trechos das músicas na cultura popular junto com as performances musicais inseridas em momentos dramáticos específicos. Dessa forma, menções casuais de When I´m Sixty-Four e With a Little Help from My Friends abrem caminho para outras mais emotivas, como os belos segmentos embalados por In My Life e The Long and Winding Road. Claro que a própria jornada de Jack à medida que vai lançando “suas” próximas composições serve como uma forma de comentar o impacto duradouro de obras feitas há mais de 40 anos, se divertindo, também, com a reação de uma geração que não absorveu da mesma forma algo como Back in the U.S.S.R.

Mas o conflito principal é mesmo focado na relação que o protagonista tem com as próprias frustrações ao se reconhecer incapaz de produzir algo que tenha sequer um pouco da mesma força. Nessa hora, entra também a eterna fonte de reflexão no meio musical acerca do equilíbrio entre integridade artística e a busca pelo reconhecimento e fama. É outro mérito do roteiro tratar o tema com sensibilidade mesmo usando de um humor que suaviza e brinca com algumas caricaturas desse universo (notadamente no papel de uma grande empresária interpretada por Kate McKinnon e Ed Sheeran fazendo a si mesmo em uma versão bem pé no chão). Logo a realidade de ter que enfrentar a lógica de produtores preocupados com títulos de canções e com a construção de uma imagem que trata a autenticidade como uma cortina artificial bate de frente com o idealismo de Malik. Aliás, o longa tem como uma de suas qualidades fazer piada com o momento atual ao colocar o personagem em uma reunião de bajuladores enquanto revelam suas preocupações em como Sgt, Pepper´s Lonely Hearts Club Band é um nome muito longo e White Album pode ter problemas com questões raciais.

Mesmo com a intenção usar o possível para homenagear os Beatles, Yesterday tem, na verdade, os alicerces de uma comédia romântica bem tradicional. Richard Curtis, que também escreveu e dirigiu dois excelentes exemplares do gênero (Simplesmente Amor e Questão de Tempo), usa a experiência para tratar com doçura a relação entre Jack e Ellie. De fato, os dois atores têm boa química (Lily James está adorável), mas é preciso dizer que o longa se fragiliza ao se ver obrigado a criar conflitos que são marcas do gênero – o personagem que se vê numa encruzilhada entre fazer uma grande escolha profissional e largar tudo para ficar no amor. A história pregressa dos dois convence, mas a necessidade de usar esse mote de forma tão pungente soa um pouco exagerada e, frequentemente, o filme nos convence involuntariamente do contrário.

Porém, se a obra perde um pouco nessa superficialidade, ganha com o dinamismo na direção de Danny Boyle (Trainspotting, Quem Quer Ser um Milionário?, 127 Horas) e com a abordagem romântica na medida certa. A estrutura concebida pelo cineasta mantém o ritmo bem equilibrado entre os musicais e os temas que se propõe a discutir. É importante destacar que mesmo o filme sendo um grande tributo ao genial quarteto, ele não busca especialmente investigar as inspirações por trás de seu trabalho, mas sim relacioná-lo com as angústias do protagonista – afinal, isso nada mais é do que o poder da boa música. É possível se sentir realizado profissionalmente mesmo sabendo que seu trabalho nunca foi seu? Com a permissão de extrapolar dentro da própria premissa fantasiosa que criou (afinal, ele estabelece suas regras ao sustentar sua lógica num evento absurdo para o qual não há necessidade de explicação), ainda há uma bela homenagem pontual que traça um paralelo direto com Jack sobre o que realmente faz alguém ter uma vida plenamente realizada.

Mais do que isso, a obra não só faz referência a uma banda, mas ao próprio ofício de ser um artista. Ao se questionar (sem spoilers) se vale se pena continuar com uma carreira que jamais foi original com a justificativa de ser aquele que será responsável por dar os Beatles ao mundo, ele ataca tanto os conflitos pessoais como aqueles que estão presentes em qualquer um que algum dia pensou em apostar tudo para viver na música. 

Yesterday não é particularmente grandioso ou tem uma execução que esbanja originalidade (a não ser em sua premissa), mas é genuinamente agradável e eficaz em sua honestidade. Confesso que minha admiração pela banda provavelmente me fez gostar ainda mais do resultado, mas é melhor não pensar muito nisso e desejar permanecer na segurança de não estar na pele de Jack Malik.


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