Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegue aqui

Crítica: Era Uma Vez em Hollywood

Ainda que a história não seja centrada no culto de Charles Manson, e o diretor fez questão de afirmar que o filme não era sobre Charles Manson e o incidente com Sharon Tate,
 Era Uma Vez em Hollywood

Os fetiches de Tarantino pelo cinema clássico hollywoodiano se encontram a flor da pele, materializados pelo seu poder de manejar diversas celebridades em uma única película como um grande reality show na Nova Hollywood nos anos 60. Personagens que, embora distanciados por contextos diferentes e cotidianos alternativos, possuem um vínculo caracterizado principalmente pela fome pelo sucesso e o desejo pelo aplauso acima de tudo. Ideais que não poderiam ser colocados em um cenário mais propício do que Hollywood.

O desespero por se manter relevante no século XXI mostra os resultados de uma sociedade volátil, e suas raízes servem para a construção de Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) como o elo principal entre as histórias que rodeiam o imaginário de Tarantino. Um ator interpretando um ator que se encontra em uma fase decadente de sua carreira, apavorado pelo iminente esquecimento - já que Hollywood não perdoa o envelhecimento - e buscando se recuperar profissionalmente em séries de TV. Ao mesmo tempo em que Sharon Tate (Margot Robbie) se muda para a casa ao lado de Rick Dalton, e Cliff Booth (Brad Pitt) tenta continuar sua carreira como dublê de Rick.

Não há uma devida sinopse para Era Uma Vez em Hollywood, já que o diretor não faz questão de construir uma narrativa concisa e aprofundada, e sim tirar um retrato de Hollywood em 1969, em uma era em que tudo o que Tarantino mais admira estava em seu auge, desde faroestes até a libertinagem desprendida na Hollywood apaixonantemente iluminada pelo tal do sex, drugs and “fame”. E o carinho prestado à essa era é perceptível, a partir do olhar de alguém que realmente sabe que tipo de história está contando, como irá contá-la e, mais do que tudo, a razão pela qual irá contá-la, que é simplesmente o amor por uma época que o diretor não pôde vivenciar, e faz questão de usar do seu próprio talento de ressuscitá-la nem que seja por apenas duas horas e meia dentro do período de sua vida.

Uma homenagem digna à uma época que nos proporcionou obras de arte conduzida por um diretor mais do que capacitado em incrementar a realidade hollywoodiana sessentista, trazendo visuais que evocam a época não só em cores, figurinos bem construídos e pontos turísticos, mas a ressurreição em si na cinematografia, como se fosse uma gravação perdida nos anos 60 e lançada em 2019 como uma experiência de ver o cotidiano das celebridades da forma mais intrusiva possível, suas festas na Mansão da Playboy, problemas com bebida nos bastidores, desabamentos emocionais de um ator em suas recorrentes crises existenciais que representam claramente o medo do esquecimento. Porém, todos os temas são abordados com uma “leveza” que é um tanto peculiar, levando em conta que se trata de um filme de Quentin Tarantino. O lado cômico do diretor e roteirista nunca esteve tão escancarado, podendo ser considerado o seu primeiro filme de comédia - comédia tarantinesca -, com humor ácido a ser esbanjado do começo ao fim, o que apresenta novamente sua versatilidade como contador de histórias mesmo prestes a “encerrar” sua carreira, o que mostra que o diretor ainda tem muita originalidade a oferecer ao cinema, mesmo que talvez tenhamos só mais uma oportunidade de experimentar suas doses cavalares de talento.

Colocar diversas celebridades da atualidade para interpretarem celebridades de antigamente, fictícias e reais, algumas com pouco tempo em cena e algumas com quase nenhuma fala enaltece o fato de que Tarantino não tinha nenhuma preocupação em dar qualquer consciência a seus personagens, não dando espaço para análises. Mas que, em certo ponto, serve como um objeto de análise, a forma como atores e atrizes são lançados a esmo na terra chamada Hollywood como personagens em suas próprias vidas vazias, quando o sucesso as preenche com agonias e dores, acompanhadas por entorpecentes, e assim por diante, movendo essa locomotiva maliciosa que é a indústria cinematográfica hollywoodiana, quando uns saem de cena antes de alcançarem seus 40 anos, como Rick Dalton, para abrir espaço para rostos mais jovens, como Sharon Tate. O desequilíbrio emocional destacado junto do glamour, tratados igualmente e com o mesmo humor que é peculiar no filme.

Acima de qualquer personagem apresentado, Hollywood certamente acaba por ser a grande protagonista de Tarantino, um protagonismo que é evidente em sua vida devido às influências que o diretor possui do passado e a paixão que envolve sua carreira quando citado o cinema antigo, e a partir disso transforma Hollywood como o personagem a ser assistido. Não é por acaso o título ser Era Uma Vez em Hollywood, já que o desejo maior era mostrar a época, o ambiente, tanto material quanto imaterial, servindo de altar para os desesperos, medos, sentimentos, etc. Basicamente um altar para os seres humanos intocáveis, como são as celebridades, serem assistidos. Uma superficialidade planejada e que é atravessada para um lado mais profundo com Rick Dalton, o personagem de Leonardo DiCaprio, reunindo a irreverência da fama com os medos puramente humanos, criando um senso tragicômico que é, realmente, o cotidiano das pessoas. Interpretação que movimenta a história e faz pulsar a veia de uma narrativa que é propositalmente rasa, mas que a falta de aprofundamento, de construção de personagens, de construção de narrativa, deixa o holofote apenas em DiCaprio - quando está em cena -, aproveitando a chance para apresentar sua versatilidade com o diretor, e canalizando o humor particular de Tarantino descaradamente em uma perfeita satirização/verdade dos bastidores das grandes celebridades hollywoodianas.

A apresentação de Hollywood como a figura mor é inquestionável, enquanto se torna questionável a superficialidade já citada, em vista que a falta de uma narrativa para se agarrar e se entreter, que até culmina em um clímax interessante e extravagante, chega a ser entediante em certo ponto. O desperdício, que chega a ser irritante, de Margot Robbie, escalada para apenas caracterizar a época dançando com as músicas da ótima trilha sonora e ser a “ingênua nova hollywoodiana” ao estilo Marilyn Monroe, sendo o oposto de Leonardo DiCaprio que recebe um personagem a ser trabalhado, enquanto Margot Robbie apenas se fantasia de uma personagem aleatória.

Além da proeza de Tarantino manter o sentido e linearidade com tomadas distantes acima dos personagens - como um reality show mesmo -, partindo de cenários para outros sem se afoitar para encaixar todo o seu caríssimo elenco, dando a sensação da onipresença ao público que é comum no cinema, obviamente, mas dá um passe livre para os bastidores de Hollywood colocando o público acima da própria cidade, como se Tarantino nos acompanhasse para vermos todos os pontos da vida das celebridades. No entanto, seria um crime não elogiar a direção de Tarantino sem elogiar o editor Fred Raskin que claramente fez com que fosse possível dar certo o excesso de personagens com tudo acontecendo simultaneamente, costurando a linearidade imaginada por Tarantino, entre atualidade e flashbacks - principalmente de Cliff - alimentando a história.

Ainda que a história não seja centrada no culto de Charles Manson, e o diretor fez questão de afirmar que o filme não era sobre Charles Manson e o incidente com Sharon Tate, a iminência que permanece no ar é palpável e consegue criar uma certa tensão com pequenos detalhes jogados em cena, especialmente devido a onda hippie da época, que acrescenta um toque a uma narrativa um tanto vazia em movimentação, faltando uma linha de narração que progredisse ao invés de permanecer estático por mais de duas horas no cotidiano. Um roteiro irregular, que consegue oferecer vestígios de um conceito tragicômico da vida dos famosos, uma oposição de personalidades entre Rick Dalton e Cliff Booth bem articulada como uma espécie de dopplegänger do “ser” (Rick) e o “o que queria ser” (Cliff), com Brad Pitt mostrando uma vitalidade e uma presença em cena que ainda consegue ser admirada. Enquanto que temos uma Margot Robbie ignorada pelo roteiro, uma narrativa que não engrena, mantendo-se tediosamente opaca em diversos momentos, narrativa salva pela grande atuação de Leonardo DiCaprio - único agraciado por um personagem interessante -, e um final absurdamente agridoce, já que a originalidade recompensa o estilo cômico empregado ao longo do filme, e um ótimo humor negro, diga-se de passagem, mas que a iminência à realidade estava tão engatilhada que fica um sabor estranho se, afinal de contas, o filme tivesse se levado mais a sério.



Deixe sua opinião:)

Mostrar comentários 💬