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Crítica: Bacurau

Pode não haver um mapa para explorar o filme, com muitos temas, influências e um grito de incitação satírica contra o novo governo brasileiro, mas é o mais fascinante estudo de Kleber Mendonça Filho sobre a dinâmica da comunidade e de pessoas pequenas e corajosas que enfrentam grandes interesses.
Bacurau

Em seu terceiro longa metragem, o cineasta Kleber Mendonça Filho divide as funções de diretor com Juliano Dornelles, diretor de arte de suas duas primeiras produções (Aquarius e O Som ao Redor). Em Bacurau, Kleber abandona os tons mais calmos e humanistas dos primeiros filmes para apostar em uma perturbadora trama, com paisagens mais sonoras e ricas e imagens mais vívidas. Em uma progressão lógica de seu trabalho esse western ultra violento e ambicioso com ares de Jodorowsky é o trabalho mais político do diretor e sem dúvida uma clara resposta às recentes mudanças políticas brasileiras.

Vivido alguns anos no futuro, em um mundo onde execuções de criminosos condenados são transmitidas ao vivo pela internet e TV, Bacurau é uma comunidade isolada no Brasil central, que literalmente não pode ser encontrada no mapa. Os velhos mapas na escola mostram Bacurau, mas o mundo moderno da vigilância digital vê apenas rocha e poeira. Os celulares dos moradores locais não funcionam mais e há um sinal de que algo horrível está prestes a acontecer. A jovem Teresa (Bárbara Colen), que dá o ponto de vista central ao filme, volta para sua cidade natal para o funeral de sua avó. Logo que chega fica sabendo que o governo local corrupto está privando a comunidade de água do rio local, algo que o prefeito Tony Jr (Thardelly Lima) tenta disfarçar com presentes irrelevantes. Incapaz de “comprar” os habitantes de Bacurau, o governo pede então que um esquadrão internacional liderado por Michael (Udo Kier) extermine o local. O grupo, que é efetivamente uma milícia de abate recreativa em algum tipo de safári, está escondido em um local vizinho de Bacurau, armado até os dentes com equipamento extremamente tecnológico. Quando os cidadãos se veem ameaçados, seu potencial letal emerge em resistência ao bando de americanos ricos que estão colocando seu dinheiro no Brasil.

A população de Bacurau é apresentada como uma comunidade unida e autossuficiente que consegue sobreviver com recursos limitados. No entanto, as pessoas existem em um mundo que já é perturbador o suficiente sem os assassinos estrangeiros. Um gângster local semi reformado com uma conexão com o revolucionário chamado Lunga (Silvero Pereira) cria uma tensão cultural de banditismo local ou um tipo de resistência amotinada. O consumo de uma espécie de droga psicotrópica reverentemente colocada na língua parece ser uma tradição no lugar, o que torna os habitantes locais intensamente conscientes de seu passado misterioso. Talvez um simbolismo de que o povo esteja ciente de que o país já foi governado por uma ditadura militar apoiada pelos EUA. Há na comunidade um museu da história local que é mais importante que a igreja, e acaba desempenhando um papel decisivo no destino da cidade e também uma pitada de ficção científica criada pelo aparecimento de um drone que se assemelha a um disco voador antigo.

Filmado em widescreen anamórfico, em uma marcante referência a John Carpenter e Sergio Leone, o filme é surpreendentemente bem fotografado, visto que Aquarius e O Som ao Redor tiveram um investimento bem simplório no aspecto visual. Com cores vibrantes e brancos quentes que vendem bem o clima tropical e sequências noturnas igualmente estilizadas com luzes duras que criaram clarões impressionantes, a fotografia foi competente em dar profundidade e forma ao cenário exuberante. Há também várias cenas em que o primeiro plano e o fundo extremo estão simultaneamente em foco, técnica já utilizada em Aquarius, mas que aqui foi empregada de forma mais intensa e com enquadramentos e composições mais interessantes. A cinematografia garantiu a sensação de calor em cada imagem, permitindo que as paisagens parecessem sedutoras e condutoras do mau presságio da narrativa.

Todo o elenco está comprometido em dar vida à visão dos diretores, e não há performances ruins no elenco. A expectativa de que a trama gravitasse entre os atores de projeção internacional do grupo (Sônia Braga e Kier) foi quebrada com gratas surpresas nas atuações dos personagens centrais interpretados por atores de um escalão mais abaixo.

Embora o filme caminhe bem visualmente e tenha uma boa condução na narrativa, existem alguns passos em falso. O ritmo é vagaroso em algumas passagens, embora até seja justificável talvez pela própria apresentação alegórica dos temas. Mas é carregada com uma fartura de alusões culturais e referências que indica com grande probabilidade que não serão captadas por espectadores estrangeiros ou poucos antenados com a história do Brasil. Talvez muitos dos pontos com mais profundidade e uma dimensão política além de sua interpretação antifascista mais universal, sejam perdidos e deixem muitos espectadores coçando as cabeças. A execução é incerta também nas passagens de ficção científica que ameaçam se transformar em paródia. Olhando por outro prisma, o ritmo e as escolhas de discursos podem apenas ter sido utilizados para alimentar a confusão essencial para a construção da narrativa, repleta de sequências descontínuas e absurdas em grande parte propositalmente desorientadoras.

Kleber e Juliano inventaram uma cidade para servir de alegoria política e a ambientaram em um futuro que se assemelha muito ao passado. Uma decadência da história para condenar um presente em que um governo com ambições igualitárias foi novamente destituído e substituído por seu pesadelo do passado. A narrativa fornece um filme de fábula antiimperialista e intertextual através de uma comunidade confrontando seus opressores, mas com uma inversão da narrativa colonial e encharcado de sangue.

Pode não haver um mapa para explorar o filme, com muitos temas, influências e um grito de incitação satírica contra o novo governo brasileiro, mas é o mais fascinante estudo de Kleber Mendonça Filho sobre a dinâmica da comunidade e de pessoas pequenas e corajosas que enfrentam grandes interesses.




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