Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegue aqui

Crítica: Homem-Aranha: Longe de Casa

Tom Holland continua mostrando que cabe como uma luva para o papel que iniciou como coadjuvante em Capitão América: Guerra Civil.
Homem-Aranha: Longe de Casa

Se existe mesmo algo que podemos chamar de “fórmula” Marvel, é também preciso reconhecer que ela continua dando certo, mesmo após 11 anos do primeiro Vingador aparecer no MCU. Qual era a expectativa depois do encerramento épico de Vingadores: Ultimato? Ou melhor, que tipo de expectativa existe de acordo com o ponto de vista? Após o peso deixando pelo longa anterior, talvez esperássemos que o próximo filme – colocado como o fechamento da fase 3, embora pareça mais um epílogo, se fossemos realmente amarrá-lo ao anterior – trouxesse um novo respiro à duradoura saga. A promessa de um caminho inexplorado parecia possível, ainda mais de acordo com as informações dos trailers, mas o que se pode constatar de fato é que Homem Aranha: Longe de Casa está mais confortável do que nunca, e isso é bom, já que se o estúdio pode ser acusado de não se distanciar muito da mesmice, não pode de entregar o seu produto com um selo mínimo de qualidade – ou “redondinho”, para resumir em um termo de rápida assimilação.

O longa é o 1º ocorrido após os eventos de Ultimato, quando aqueles que foram obliterados pela Manopla do Infinito retornam após Thanos ser finalmente derrotado e suas ações revertidas. Peter Parker (Tom Holland) está de volta ao Ensino Médio, assim como seu melhor amigo Ned (Jacob Batalon). Enquanto alguns seguiram com suas vidas ao longo de 5 anos, outros retornaram do mesmo ponto, como é caso de sua tia May (Marisa Tomei) e Nick Fury (Samuel L. Jackson), que já reaparece diante de uma nova ameaça na forma de grandes criaturas, chamadas de Elementais, que se manifestam em forma fogo, água, ciclone, etc. Se dizendo de outra Terra em uma realidade paralela, um misterioso herói, Quentin Beck (Jake Gyllenhaal), surge para ajudar a derrotar os novos vilões enquanto o Homem-Aranha mais uma vez tem de decidir se vai deixar de lado a vida com os amigos e a paixão por MJ (Zendaya) para se tornar mais que o Amigão da Vizinhança.

Falando assim, é impossível não se lembrar do mesmo conflito a que o protagonista era submetido em Homem Aranha: De Volta ao Lar (2017). Naquele, a escolha de assumir o peso de ser um super-herói num mundo de Vingadores era o norteador do arco de Peter, enquanto que neste, a hesitação em assumir a mesma maturidade é o que o mantém novamente indeciso quanto a seu papel no novo recomeço da humanidade. A diferença é que agora a figura do falecido Tony Stark paira como um lembrete desta responsabilidade constantemente sobre sua cabeça, mesmo com a presença afetuosa de Happy Hogan (Jon Favreau), que tem o papel de servir tanto como amigo nos momentos de luto recente como um fornecedor de todo o aparato tecnológico que só as Stark Industries pode proporcionar.

Mas se engana quem pensa que o tom dessa continuação seria de alguma forma melancólico. Não bastam alguns minutos, após um breve prólogo, para que o logo da Marvel surja na tela embalado por Whitney Huston seguida por uma hilária apresentação piegas relembrando o Capitão América e o Homem de Ferro, montada pelos alunos do jornal da escola de Peter. O humor, que já era marca no longa anterior, retorna com os méritos dos roteiristas Chris McKenna e Erik Sommers (Homem-Formiga e a Vespa, Jumanji: Bem-Vindo à Selva), acertando ao continuar investindo nos desencontros da adolescência. Nesse ponto, a maior parte do elenco jovem merece aplausos por conseguir manter o clima descontraído graças ao carisma de cada um e o texto afiado para a comédia no estilo MCU.

Responsável também por retirar a carga sombria deixada por Ultimato, o filme não demora a usar o desaparecimento – e posterior reversão – de metade da população mundial para tirar sarro das mesmas consequências tratadas com bem mais seriedade anteriormente (a do homem que reclama da esposa que fingiu ter sido desintegrada para fugir com outro é um bom exemplo). Se por um lado essa abordagem torna a obra tão divertida e descontraída como sua antecessora, por outro tende a minar o real senso de ameaça dos vilões, algo que se tornou alvo constante de reclamação na maioria dos exemplares do MCU. Dessa forma, os Elementares não passam de criaturas genéricas mais com o papel de desfilar os bons efeitos visuais do projeto do que realmente fazer o público temer pelo futuro dos personagens.

Porém, o filme tem outras cartas na manga e uma delas é o personagem interpretado com certa canastrice por Jake Gyllenhaal. Se por um lado temos vilões genéricos, do outro ganhamos o mistério envolto na origem de Quentin Beck (ou Mysterio), que envolve a possível existência de um multiverso e um provável candidato a se tornar um novo herói para a Terra pós Thanos. Apesar de em vários momentos o roteiro acabar o transformando no famoso “personagem-exposição”, aquele que interrompe a narrativa para resumir e explicar a trama para o público, há de reconhecer que sua ligação com outros filmes da franquia tem sentido e ajuda a manter o senso de universo compartilhado que a Marvel elevou para sempre no cinema. Com exceção dos que conhecem os quadrinhos (hoje já é parte considerável do público), o arco do personagem guarda boas surpresas e se torna uma adição razoável à extensa galeria do estúdio

Tom Holland continua mostrando que cabe como uma luva para o papel que iniciou como coadjuvante em Capitão América: Guerra Civil. O jovem ator leva com maestria a ingenuidade e a insegurança do Aranha diante de homens que julga serem bem mais preparados (e adultos) do que ele, além de estar sempre preparado fisicamente e exibir uma agilidade que casa perfeitamente com a proposta do herói. O que ainda falta em relação a ele é sua relação com MJ ganhar um pouco mais de substância do que vem sendo desenvolvida até aqui. A caracterização de Zendaya é bem-vinda e traz uma releitura interessante em relação às anteriores, mas ainda falta algo para que a personagem deixe de ser só o interesse amoroso e não pareça estar ali só ocupando uma das motivações do protagonista.

Fora o humor, o que se pode esperar de um padrão do estúdio se reflete no retorno de Jon Watts (Cop Car) na direção. Imprimindo um ritmo bastante equilibrado entre comédia e aventura, o cineasta traz de volta aquele aspecto “prato feito” da Marvel, alternando gags e sequências mais dinâmicas de forma competente. Embora não haja nenhuma que chegue perto de se tornar memorável – ainda mais se comparada à coleção impressionante da saga – as cenas de ação do longa são bem conduzidas e mantem tudo dentro do apreciável ao não recorrer ao caos visual e a uma montagem excessivamente picotada. A trama empresta sua conveniente necessidade de mudar de ambiente várias vezes durante a narrativa para tentar diversificar na hora de impressionar o público, e pode-se se dizer que dá certo na maior parte do tempo.

Numa ótica mais geral, Watts tem noção do todo e Homem Aranha: Longe de Casa consegue ser coerente com o que promete em um filme que diverte e continua a provar que a tal fórmula Marvel ainda funciona. Há pontos negativos: no humor, a piada que envolve Ned e sua nova “namorada” envelhece rápido e os professores que acompanham os alunos na excursão se mostram aborrecidos na tentativa de serem engraçados; e na trama, a falta de uma ameaça mais significativa torna tudo mais passível de ser esquecido depois da sessão. Mas, mesmo assim, o Cabeça de Teia ganha mais uma obra que pode ser colocada entre os acertos de um estúdio que marcou sua história de forma definitiva no cinema.


Deixe sua opinião:)

Mostrar comentários 💬