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Crítica #2: Ted Bundy – A Irresistível Face do Mal

Há definitivamente algum potencial, mas o filme soa como um drama suplementar com episódios importantes para a narrativa removidos, sem fornecer a trama um núcleo humano e com os elementos fundamentais da proposta muito superficiais.
Ted Bundy – A Irresistível Face do Mal

Graças a Netflix e ao diretor Joe Berlinger, o cruel e carismático serial killer Ted Bundy está tendo novamente os holofotes voltados para si. Surfando ainda a onda do documentário lançado em janeiro de 2019 no streaming, o documentarista agora se volta para um filme biográfico sobre Bundy. Estrelado por Zac Efron, Ted Bundy – A Irresistível Face do Mal pretende nos dar um novo ângulo sobre o estuprador e assassino responsável por matar pelo menos 30 mulheres. As narrativas em torno dos crimes chocantes de Bundy sempre se aproveitaram do fascínio com o fato de que um jovem relativamente charmoso, simpático e articulado poderia ser um assassino frio e calculista.

Em seu segundo filme como diretor de longa metragem, dando seguimento ao desastre que foi A Bruxa de Blair 2 - O Livro das Sombras, Berlinger se perde em um caminho que termina em um emaranhado de oportunidades perdidas. Como pudemos conferir em Paraíso Perdido, Berlinger é um hábil documentarista, e poderia ter percorrido de várias maneiras esse material. A forma que ele escolheu, em conjunto com o roteirista Michael Werwie, foi enxergar Bundy através dos olhos de Elizabeth Kloepfer, interpretada pela atriz inglesa Lily Collins (Simplesmente Acontece) e citada com um de seus pseudônimos, Elizabeth Kendall. O roteirista optou por fazer uma adaptação do livro de memórias O Príncipe Fantasma: Minha Vida com Ted Bundy, escrito por Kendall em 1981. A mãe solteira foi namorada na vida real do assassino por cerca de seis anos, incluindo algum tempo depois que ele foi preso pela primeira vez, e amava Bundy, apesar de ter sido a primeira a relatar suspeitas dele para a polícia ao ver seu retrato falado nos jornais.

Se você ainda não conhece a história de Ted Bundy, um dos mais notórios serial killers da história moderna, o drama comedido e cauteloso demais não vai soletrar para você. A verdadeira natureza de Bundy permanece aqui muito abaixo da superfície durante as quase duas horas do filme. Por escolha, e tentando manter-se adaptado ao livro, o filme exclui a representação direta de Bundy cometendo seus crimes e se concentra em suas relações interpessoais, tanto com Kendall quanto com Carole Anne Boone (Kaya Scodelario), com quem o assassino se casou quando estava já preso e quem deu à luz a seu filho enquanto ele aguardava no corredor da morte.

Mas os fatos nem sempre constroem a melhor história, e desta forma o filme desentoa entre a apresentação da fachada charmosa de Bundy e a camuflagem da ferocidade de seus crimes. Ao tentar focar o ponto de vista de Kendall, a tonalidade se aproxima da de um drama tradicional, em que uma mulher fica perturbada emocionalmente ao descobrir um segredo terrível sobre o homem com quem está envolvida. O delineamento deliberado da narrativa relega a experiência de Kendall a uma história melodramática, definindo-a apenas nos termos de sua relação com o assassino e não dando profundidade a seu personagem mesmo espelhando os anos de culpa, medo e negação que ela atravessou. Mesmo quando se desdobra sobra a relação do casal, o filme é amplamente desinteressado em dramatizar os conflitos internos e externos, reduzindo grandes momentos de desenvolvimento emocional em cenas breves e sem diálogos. Kendall, apesar dos melhores esforços da direção, não é mais do que uma figura de poucas notas.

Os aspectos inquietantes da história de Bundy, que naturalmente são fascinantes o suficiente para tornar um filme intrigante, não são aqui merecedores de considerações mais profundas, devido à sua irresponsável romantização. Em certo ponto da trama somos conduzidos para um drama de tribunal, quando breves aparições de rostos familiares surgem, como Jim Parsons, interpretando um promotor desajeitado e John Malkovich como o juiz que presidiu o julgamento, personagens que ajudaram a realçar as qualidades cativantes de Bundy (algo que o julgamento real certamente também fez).

O desempenho de Efron é, na melhor das hipóteses, competente. O ator não só tem uma notável semelhança com Bundy e a boa aparência branda necessária para o papel, mas habilmente captura a natureza desequilibrada de seu comportamento. Ele capta tanto o carisma de Bundy, alternadamente charmoso, beligerante e incrivelmente perspicaz, quanto o homem profundamente danificado em outra camada do personagem.

Kaya Scodelario, interpretando a outra namorada historicamente importante de Bundy, quase fornece um personagem mais interessante. Cheia de paixão e energia ela talvez pudesse ser a âncora para a história de Berlinger. Mas é apenas mais um pequeno lampejo e ela apenas passa pela narrativa.

Até o fim, vamos sendo encorajados a acreditar que Bundy pode ser inocente, porque é assim que Kendall e Carole o veem. Mas somos levados a um filme que usa essas personagens mais como um adereços do que como pessoas que se deparam com dilemas, minimizando suas próprias histórias a serviço de ilustrar a mística do monstro mitológico. É um tanto perturbador que Bundy seja o único personagem tridimensional. É claro que é difícil dramatizar Bundy sem glamourizá-lo. O filme efetivamente não pretende simpatizar com Bundy, e acerta em não seguir o caminho de se aprofundar na violência de seus atos assombrosos. Mas ao torná-lo uma estrela em sua abordagem, não pode evitar fazê-lo até certo ponto.

Há definitivamente algum potencial, mas o filme soa como um drama suplementar com episódios importantes para a narrativa removidos, sem fornecer a trama um núcleo humano e com os elementos fundamentais da proposta muito superficiais. Berlinger termina com fragmentos de vídeos reais da trama na tela, tentando afirmar alguma fidelidade ao que vimos anteriormente. Mas nessa altura não agrega maior valor e só serve para corroborar que a realidade supera a ficção invariavelmente.



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