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Crítica: X-Men - Fênix Negra

Infelizmente, como obra cinematográfica e capítulo final de uma longa (e boa) jornada dos X-Men na Fox, essa conclusão é inofensiva demais para uma história que merecia mais.
X-Men - Fênix Negra

Desde quando se iniciou, lá no distante ano de 2000 (segundo o calendário da era de ouro dos super-heróis no cinema), a franquia X-Men conseguiu um lugar guardadinho na história recente do gênero. Anos antes da Marvel se tornar gigantesca nas telonas, os mutantes ajudaram a pavimentar o caminho que seria trilhado pelas dezenas de adaptações subsequentes dos quadrinhos. Assim que os Vingadores assumiram a ponta inalcançável da fila, a saga pioneira precisou se reinventar. A trilogia “clássica” havia terminado um pouco amarga e a tentativa do primeiro filme solo de Wolverine foi um fracasso. Com X-Men – Primeira Classe (Matthew Vaughn, 2011), a oportunidade de contar a história de origem da Escola Xavier para Jovens Superdotados surgiu como uma ideia fresca, que serviria tanto para aprofundar o rico universo da série quanto para aproveitar velhos e novos personagens para um público contemporâneo da ótima fase da Marvel.

Oito anos depois, a empreitada se mostrou relativamente bem-sucedida... ao menos no início. X-Men – Dias de um Futuro Esquecido serviu como um divisor duplo: do lado negativo, tornou a lógica temporal repleta de inconsistências, que só se tornam mais aceitáveis se passarmos a considerar linhas temporais distintas; do positivo, essa própria possibilidade deu a desculpa para começar de novo com um novo elenco e, ainda, voltar a arcos que já haviam sido explorados de forma nada satisfatória antes.

Esse é o caso de Jean Grey, cuja jornada sobre a transformação numa entidade cósmica, famosa nas HQs, retorna neste X-Men – Fenix Negra. Seguindo o intervalo de década em década iniciado em Primeira Classe, o longa se passa em 1993 (dez anos após o fraco X-Men – Apocalypse), quando os mutantes de Charles Xavier (James McAvoy) – entre eles, Mística (Jennifer Lawrence), Fera (Nicholas Hoult), Ciclope (Tye Sheridan), Tempestade (Alexandra Shipp) e Noturno (Kodi Smith-McPhee) – são chamados pelo presidente dos EUA para resgatar os tripulantes de um ônibus espacial em órbita. Durante a missão, Jean Grey (Sophie Turner) é atingida por uma energia misteriosa que se aproximava da Terra, fazendo com que seus poderes se tornem ainda maiores. Quando ela começa a se transformar em um perigo, Charles e os X-Men devem buscar uma solução para controlar seu poder destrutivo, enquanto a enigmática Lilandra (Jessica Chastain) tenta se aproveitar do novo potencial da mutante.

As duas coisas que sempre se destacaram na franquia são seus personagens e as alegorias por trás da existência de um mundo separado por humanos e mutantes. Não há como negar que a série sempre os tratou com carinho e dessa vez não é diferente. Apesar de se tratar de um longa que tem sequências de ação em seu DNA, ele busca, primordialmente, estabelecer bases para que o público se importe com os arcos e sintam prazer em rever as figuras já conhecidas. Portanto, é mérito do roteiro, escrito pelo próprio Simon Kinberg, trazer o Professor Xavier, por exemplo, em um ponto natural de sua evolução ao longo dos filmes. Se antes ele exibia um otimismo inabalável motivado pela necessidade de não colocar mutantes em uma posição superior – que era justamente o que acreditava Magneto (Michael Fassbender) –, agora, o status de super-heróis dado pela população e pelo governo o leva a experimentar o orgulho de serem reconhecidos por suas dádivas, não mais defeitos.

Nesse ponto, James McAvoy mais uma vez carrega o peso do Professor como um verdadeiro veterano. Sabendo que o personagem ainda mantém a dignidade e a confiança de que sempre está agindo para o bem, o ator sabe construir o orgulho e os pequenos traços de teimosia nas expressões, especialmente naquelas que surgem em momentos onde seus métodos são questionados. Na outra ponta, Michael Fassbender também conhece seu Erik Lehnsherr como ninguém. Recluso, ele é aquele que sempre atravessou a linha do vilanismo durante sua luta, tendo como consequência a perda de vários daqueles a quem amava. Mesmo assim, sendo muito mais propenso a reagir com vingança quando provocado, ele é interpretado por uma sempre fascinante camada que deixa o público na dúvida se homem vai continuar buscando algum tipo de redenção (a seu modo isolado) ou vai apelar para seu ego controlador de metais. Os arcos dos dois amigos/antagonistas continua sendo um dos pontos fortes da saga e basta deixar os dois sozinhos em uma sequência para que ela funcione imediatamente.

Só que isso tudo é mais bonito em tese do que na execução. Os bons personagens estão lá, mas por mais que suas histórias não tenham sido esquecidas, a trama jamais consegue se livrar da impressão de que é simplesmente dispensável. O mesmo roteiro que se preocupou em resgatar uma base para que Charles tenha novos conflitos não consegue costurá-los de forma exatamente orgânica. A maioria dos pontos de virada de seu arco invariavelmente terminam sendo muito mais expostos em confrontos de diálogos do que nas ações: “Você não é mais o mesmo, Charles” insistem várias vezes a ele, reagindo de volta mais às exposições do que às próprias escolhas.

Ainda mais reciclada parece a jornada de Magneto. Por mais que Fassbender demostre a excelência de sempre, as etapas de evolução do anti-herói se repetem na mesma lógica já vista nos outros filmes: ele quer se vingar de alguém, mata inocentes no caminho, resolve se isolar na tentativa de uma redenção, sofre outro ataque de um grupo de humanos, perde novamente pessoas importantes e volta para o estado de vingança. É como se as possibilidades do personagem já tivessem se esgotado o público já sabe de cor como será o vai e volta de sua relação com Xavier – como pode ser constatado em algumas cenas específicas (sem spoilers) que retomam uma interação já telegrafada pelo roteiro. 


Mas a obra pertence mesmo a Jean Grey e sua descida (ou ascensão) para a Fenix. Depois de ser retratada com bastante superficialidade no terceiro filme da trilogia original, aqui vemos novamente a protagonista em luta contra uma força maior do que ela pode controlar. Se lá ela tinha sido reduzida um mero dispositivo da trama em meio a um triângulo amoroso mal desenvolvido, aqui ao menos ganha um pouco de individualidade com Sophie Turner. A atriz até que faz um bom trabalho tecnicamente, mas o maior problema é que ela é obrigada a responder a uma pressa que não dá o tempo necessário para que a escala de seus problemas com um poder incontrolável seja de fato sentida pela plateia. À parte de um momento isolado (vocês certamente o reconhecerão), o impacto da Fenix acaba se ligando de forma mais simplista ao acidente no espaço do que às possibilidades psicológicas atreladas ao seu passado, que envolve os pais e o acolhimento por parte de escola de mutantes. As mudanças de Jean/Fenix soam mais como uma chavinha que se liga nos momentos onde pede a conveniência do que a respostas mais profundas ligadas à sua história de vida.

Falando em espaço, a presença de Lilandra como a vilã da vez é outro problema do longa. A princípio, pode-se argumentar que ela serve apenas como um caminho para que a protagonista alcance seu potencial como o ser mais poderoso do mundo. Sendo assim, não seria necessário exatamente que seu arco fosse um primor de desenvolvimento. Só que ao contrário do seria o ideal, seus caminhos nunca tem uma justificativa realmente sólida para que se relacionem. Tanto é assim que durante a maior parte do tempo, a personagem de Jessica Chastain parece deslocada da história e suas motivações parecem ter saído de um outro filme. Deveríamos sentir sua influência sobre Jean, mas o que vemos é uma relação que soa brusca e apressada, e que, no momento em que acontece, não produz o efeito pretendido. Na hora de escolher quem terá o peso maior, se é Lilandra ou a Fenix, infelizmente a opção vai pelo caminho do primeiro quando o segundo era bem mais promissor.

Dirigindo um exemplar de uma franquia da qual já faz parte há anos como produtor e roteirista, Simon Kinberg faz o possível para não transparecer sua primeira vez (no currículo desse cargo, há apenas um episódio da decepcionante nova temporada de The Twilight Zone) e até que consegue em alguns momentos. Apesar disso, não se pode dizer que o cineasta conseguiu chegar ao nível de importância da saga em relação às cenas de ação, já que a maioria delas são mornas e sem muita inspiração, principalmente pela possibilidade inerente de usar personagens com poderes diversos como uma forma criativa de construir bons embates. A falta de experiência é sentida, especialmente, nos confrontos mais corporais, onde o diretor não escapa dos planos excessivamente cortados e fechados, prejudicando a experiência no geral (o 3d certamente piora a situação neste caso).

Mas nem tudo é decepcionante nesse quesito e há, certamente, uma sequência mais ao final que resgata o visual, a empolgação e as interações entre os mutantes que se tornaram marca da franquia. Justamente a que foi refeita nas refilmagens (supostamente, para substituir um final que se assemelhava demais ao de Capitã Marvel) traz de volta um pouco do que o público de hoje exige em termos de filmes de super-herói: explosões, confrontos distintos ocorrendo em uma montagem alternada e bons efeitos especiais. Mas além dos aspectos mais evidentes, esses momentos mostram o significado e a importância do grupo na união contra um mal maior, que é o tipo de interação que justifica o peso de serem chamados de X-Men.

No outro lado do espectro da direção, Kinberg merece reconhecimento por tentar dar um pouco de estilo à sua narrativa. Embora algumas escolhas denunciem uma abordagem demasiadamente protocolar – como planos bem fechados nos rostos dos atores em momentos emocionalmente intensos em imediato contraste com os anteriores, o que causa uma certa rispidez incômoda –, outras se revelam interessantes, principalmente na dupla com o diretor de fotografia Mauro Fiore (Sete Homens e Um Destino, Gigantes de Aço), que consegue transpor os estados de Jean Grey através de um filtro azulado e uma câmera trêmula quando a mutante se mostra perdida e com tons amarelados e vermelhos se misturando ao ambiente quando a Fenix ameaça ressurgir. Não é o mais sutil e nem belo esteticamente da franquia (longe disso), mas também não chega a decepcionar.

X-Men – Fenix Negra tem até boas intenções, especialmente na continuidade de suas abordagens temáticas. É interessante notar como a questão de agir com violência contra um grupo ou minoria das quais não se conhece nada é muito mais presente do que se imagina. Ao invés de vermos isso no conflito entre humanos e mutantes, vemos que essa ideia pode ser aproveitada como uma arma que pode separar cada grupo dentro de si mesmo. É o perigo da ignorância que age de maneiras inesperadas do que aquela que nos acostumamos a ver.

Infelizmente, como obra cinematográfica e capítulo final de uma longa (e boa) jornada dos X-Men na Fox, essa conclusão é inofensiva demais para uma história que merecia mais. Agora é esperar e ver como nossos queridos mutantes retornarão sob o comando do poder ilimitado do MCU.



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