Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegue aqui

Crítica: Rocketman

Uma produção autocongratulatória e original em seu apelo musical, anestesiado pela história trivial. Um filme clichê pelo fato da sociedade ser um grande clichê em seus hábitos.
Rocketman

Biografias de cantores e/ou bandas geralmente são filmes complicados de se produzir, dependendo da longevidade da carreira dos artistas e como tudo culminou em seu sucesso, podendo cair no enfadonho facilmente. Assim como não é uma tarefa fácil analisar uma biografia do ponto de vista puramente cinematográfico sem considerar a veracidade do que está sendo apresentado, principalmente levando em conta que o supervisor da produção é o próprio artista.

Elton John tem seu nome marcado na história da música, porém, sua história não é tão conhecida para o público que não o segue fielmente desde seus longínquos sucessos que permanecem na memória de todos. Sendo esse desconhecimento um ponto forte, trazendo ao cinema um material “novo” sobre um artista famoso, que, afinal de contas, não teve um início de carreira e decorrer do sucesso diferente de grande parte dos cantores.

Além da curiosidade sobre a vida de Elton John o outro ponto forte, e certamente um ponto fortíssimo que faz o filme acontecer e se tornar interessante, é que Rocketman não é só um filme sobre música, e sim um musical sobre música. Pode parecer redundante, mas é, basicamente, um musical sobre música, sobre a música de Elton John, utilizada brilhantemente – na maioria das cenas – de forma orgânica, com transições perspicazes a partir da direção de Dexter Fletcher que claramente se destaca com sua visão criativa das performances, a excentricidade junta ao puro espetáculo da Broadway, com danças coreografadas, passagem de tempo e interação entre as épocas, beirando a psicodelia, com destaque para a sequência de “Saturday Night’s Alright for Fighting”, relembrando musicais clássicos. Não podendo deixar de ficar o questionamento de como teria sido Bohemian Rhapsody se ele tivesse comandado a produção desde o início.

Se tratando dos números musicais a edição propicia uma movimentação precisa exatamente pela sua agilidade diante de visuais deslumbrantes e parcialmente fantasiosos. Artifícios imagéticos tão estonteantes e entorpecentes quanto os próprios entorpecentes de Elton John no filme.

O filme se torna problemático quando deveria se tornar interessante. A história do cantor corre tão rápido que na mudança de cena você ainda está preso na cena anterior. Não existe fluidez e a edição não consegue acompanhar o ritmo, sendo a musicalidade os momentos de respiro e de apreciação que são realmente dignos de reconhecimento. E mesmo as músicas intercaladas na narrativa, com coreografias e estéticas muito bem pensadas e executadas são irregulares tratando-se de escolhas na direção um tanto fracas – comparando os espetáculos de outras cenas – e alguns atores que claramente não são cantores e não funcionam quando são colocados para cantar, como é o caso das versões infantis de Elton John interpretadas por Matthew Illesley e Kit Connor, sendo um tanto incômodo quando os dois interpretam alguma música ou participam de algum número, enquanto que, por outro lado, a mixagem de som engrandece a sonoridade glamourosa e infecciosa das canções escolhidas para a trilha sonora.

Elton John cresce e envelhece anos, atravessando por vários episódios em sua vida, e ainda assim os cenários se mantêm os mesmos. Nada se altera a não ser seu cabelo, escancarando o desleixo da produção que valorizou tanto os figurinos do protagonista, mas não se deu ao trabalho de ao menos alterar a tonalidade da cinematografia.

As atuações em geral são mornas o suficiente para não prejudicar a história, mas não acrescentam qualidade, apenas acrescentam à própria narrativa de Elton John, dando pinceladas de quem eram os pais dele, a presença materna da avó, relacionamento com a gravadora e relacionamentos românticos, etc. Papéis até desfavorecidos, com rara exceção para Jamie Bell que, ainda que seja uma interpretação de uma nota só, um tanto monótona e apática, interpreta o melhor amigo e parceiro musical de Elton John, Bernie Taupin – que o acompanha e compõe suas músicas até hoje –, e é capaz de construir essa amizade preciosa com o cantor, ambos funcionando concretamente em cena, criando uma relação crível e tocante, enquanto que o resto do elenco passa despercebido quando equiparados a presença escandalosa de Taron Egerton.

O comprometimento de Taron Egerton com Elton John transcende a mera imitação de um dos grandes personagens do rock ‘n’ roll e entrega uma interpretação contundente da juventude transviada do cantor, repleta de excessos canalizados pela presença maciça de Egerton em cada cena e fortemente por sua performance vocal. O controle do filme está em suas mãos e claramente não é um problema para o ator que mostra sua versatilidade que estava escondida nos ternos de Kingsman e simplesmente chuta a porta do armário com exageros e absurdos fantásticos em Rocketman, com cada performance das músicas de Elton John sendo shows dignos de homenagem ao Sir Elton John.

No entanto, abaixo das várias camadas de cores, tecidos e glitter existe a transformação de Elton John de um garoto tímido do subúrbio inglês para a celebridade que conhecemos atualmente. E, com um roteiro mediano, sem vacilo e sem vibração ao mesmo tempo, Taron Egerton faz a evolução do personagem acontecer além da já citada mudança de cabelos. Abordando vícios, depressão, angústia, sexualidade e descobrimento da sexualidade, dúvidas, angústia, nervosismo e medo, entre diversas outros estados de espírito compilados dentro de uma só pessoa, transmitidos para o público através da leitura corporal, feições, êxtases notáveis quando liberto por sua homossexualidade acompanhado pelo desespero rumo ao submundo da fama.

É sempre questionável a vitimização da celebridade, se colocando como a corrompida por alguém, sendo esse alguém John Reid (Richard Madden), a forma mais caricata e vilanesca possível, o charme irresistível que infelizmente persuadiu Elton John para uma vida de sexo, drogas e rock ‘n’ roll ao extremo, etc. Um personagem risível como base para alguém que não queira admitir seus próprios erros, e para os mais críticos Rocketman pode ser nada mais do que o diário de Elton John com seu ponto de vista exclusivo. Porém, uma simples interpretação a partir da perspectiva deste rapaz que se manteve enrustido por tanto tempo, principalmente por não saber que tinha algo a esconder, finalmente tendo abertura de amigos e companheiros musicais para sair desse casulo que nem sabia que estava dentro, serve para perceber nessa situação que quando um gay é apresentado ao amor, afeto e carinho, sentimentos raros para várias pessoas da comunidade LGBT+, a entrega total é difícil de controlar, dando brecha para abusos e manipulações imperceptíveis.

Ao final de tudo, a maior problemática é o entorno de Taron Egerton que, mesmo com sua atuação irrepreensível, não é o suficiente para acobertar a monotonia da narrativa, conduzida de forma episódica e cíclica que acaba por ficar enjoativa, passando pela euforia de que está dando tudo certo com Elton e depois tudo ruim, e bem de novo, e assim por diante, costurado pelos sucessos contagiantes e emocionantes de Elton John compostos por grandíssimas exibições performáticas, criando uma montanha-russa de qualidades e defeitos, concluindo este círculo preguiçosamente, com o maior clichê hollywoodiano e melodramático.

Uma produção autocongratulatória e original em seu apelo musical, anestesiado pela história trivial. Um filme clichê pelo fato da sociedade ser um grande clichê em seus hábitos.


Deixe sua opinião:)

Mostrar comentários 💬