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Crítica: O Sol Também É Uma Estrela

O objetivo é alcançado e vemos em tela uma história de amor de 24h, só que é impossível acreditar em uma vírgula dela.
O Sol Também É Uma Estrela

O “Deus ex machina” é um conceito já famoso no cinema e na literatura por aí. Se você não está familiarizado com termo, certamente já viu uma história onde, quando tudo parecia perdido, uma solução mágica e incrivelmente conveniente aparece do nada, sem nunca ter sido mencionada antes, como se fosse literalmente um “deus sob encomenda” para aquela situação, e assim resolve o problema todo. Esta solução mágica é o “deus vindo da máquina” a qual a expressão em latim significa. Geralmente este recurso denota preguiça e/ou a falta de competência de uma estória de chegar onde quer por meios coerentes dentro dela, mas, assim como toda convenção cinematográfica, pode ser subvertida e desafiada, deixando de ser um atalho conveniente e passando a ser um elemento central numa trama, extraindo, assim, algo original e de qualidade usando de um recurso que geralmente evidencia o contrário. O Sol Também É Uma Estrela (cujo título é o mesmo do livro de 2017 no qual é baseado), da diretora indie Ry Russo-Young se propõe a ser uma destas obras desafiadoras de convenções ao contar uma história de amor (que geralmente são cheias de clichês e coincidências mágicas) tendo o Deus ex machina não como um subterfúgio narrativo, mas como um elemento central. Parecia promissor no começo, mas só parecia mesmo.

A trama acompanha um dia na vida de Natasha (Yara Shahidi) e Daniel (Charles Melton), que nunca se viram ou souberam da existência um do outro, ambos filhos de imigrantes – ele coreano e ela jamaicana - que vivem uma história de amor relâmpago a qual o roteiro tenta o tempo todo te fazer acreditar que foi o destino que fez, mas se você reparar bem, não foi não. Bem no comecinho a exposição do drama da família da menina, prestes a ser deportada, dá a entender que o filme seguirá num discurso de representatividade cultural, ressaltando os EUA e a Cidade de Nova York como o espaço acolhedor e multicultural que de fato é – a apresentação de Daniel e sua família coreana pouco depois só reforça isso. Para nós, brasileiros, miscigenados essencialmente, talvez fosse um rumo interessante de se acompanhar e ver as diferenças culturais entre os protagonistas e sua dualidade em ser parte da cultura americana, mas, ao mesmo tempo, parte de outro lugar. Mas não se engane, isso não serve de nada na história. O drama da deportação da família de Natasha só está ali para justificar que o casal de absolutos desconhecidos só tem uma rotação planetária para viver um romance completamente inacreditável – no sentido literal de “não dar para acreditar” nele.

Do mesmo modo que a questão étnica é injustificada no longa, as metáforas científicas com astronomia – que em tese deveriam justificar o título da obra – não têm razão de ser e parecem forçadas. Aliás, tudo parece forçado. O roteiro usa de coincidências e diz – diz mesmo, colocando personagens falando isso o tempo todo pra ter certeza que está claro para o espectador que não entendeu das primeiras 50 vezes – que os eventos desenrolados em tela são obra do destino, um entre milhões de realidades possíveis, e que seus cansativos e inverossímeis deus ex machinas na verdade são a ação do imponderável. O problema, porém, não é a brincadeira com as coincidências, é que na verdade elas não existem. Tudo que acontece no longa vêm de uma obsessão canastrona e doentia, sem ter a menor explicação - num nível que certamente seria criminoso na vida real – do personagem de Charles Melton (Daniel) em Natasha depois de vê-la na rua com um casaco legal e sair correndo atrás dela como se sua vida dependesse disso. Pior do que isso é só a reação da menina, que deixa aquele rapaz acompanhá-la, sendo ele claramente um doido, e trava com ele diálogos que não fazem sentido nenhum e parecem que foram idéias de boas frases que os roteiristas tiveram e quiseram utilizar, mas não prepararam um contexto decente pra isso – tipo quando você aprende uma palavra nova e quer muito usar, mas você não entendeu ela direito e fica usando errado, sabe?

O grande problema de O Sol Também É Uma Estrela acaba sendo justamente esse. Ele passa a nítida sensação de que alguém pensou “e se eu contasse uma história de amor que começa e termina no mesmo dia?” – o que tem potencial – mas força uma série de situações fracas e não consegue gerar um mínimo de empatia com seus protagonistas – as atuações oscilando entre o fraco e mediano dos atores também não colabora muito. O objetivo é alcançado e vemos em tela uma história de amor de 24h, só que é impossível acreditar em uma vírgula dela. É como tentar encaixar um prego num buraco de parafuso. Você consegue, e se o prego e o parafuso forem parecidos, quem olha até tem a impressão de que encaixou direito. Mas por dentro ta faltando bastante coisa e não importa o que você queira montar ali, não vai se sustentar.



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