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Crítica: Ma

Não há nada melhor para quem foi negligenciado por tanto tempo, como é o caso de Octavia Spencer, do que ser a presença basilar de um filme, por mais que este esteja aquém de seus talentos.
Ma

Durante quase duas décadas, Octavia Spencer executou constantemente papeis periféricos em filmes esquecíveis, ou apenas fez pontas em obras com algum valor artístico. Ao contrário do que uma atriz esteticamente padronizada conseguiria alcançar em um período relativamente mais curto, Spencer só foi, de fato, revelada em 2011, ao ganhar o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo manipulativo Histórias Cruzadas. De lá para cá, a atriz apareceu em algumas produções maiores e sempre emprestou sua delicadeza aos coadjuvantes que interpretava, seja a mãe preocupada prestes a enfrentar a trágica morte de seu filho (Fruitvale Station- A Última Estação) ou a faxineira falante casada com um marido inerte (A Forma da Água, pelo qual ganhou sua terceira indicação ao Oscar).

Agora, pela primeira vez, Spencer assume o protagonismo de uma produção cinematográfica de grande distribuição, na qual dá vida a uma mulher amargurada e de comportamento instável, facilmente propensa à insanidade. Trata-se de uma oportunidade quase semelhante àquelas apresentadas à atrizes como Bette Davis, Joan Crawford e Olivia de Havilland nas décadas de 1960 e 1970, durante as quais precisaram interpretar mulheres velhas, amarguradas e igualmente malucas, em um subgênero que viria a ser conhecido como hagsploitation.

Ma (Idem, 2019), o filme que reúne Spencer e o diretor Tate Taylor pela quinta vez e a coloca como a mulher de meia-idade que desperta a suspeita imediata da plateia, parte de uma premissa ótima e original, inicialmente distante do subgênero do qual o projeto se aproxima: um grupo de adolescentes deseja ingerir bebidas alcoólicas fora do alcance de adultos. Para isso, pedem ajuda, aleatoriamente, a Sue Ann (Spencer), para comprar os produtos e repassá-los a eles. Sue Ann os ajuda, ganha a simpatia do bando e oferece o porão de sua casa como ponto de encontro para os jovens, desde que respeitem sua única regra: não subir as escadas e explorar o restante do local.

Taylor, cujo currículo pouco impressionante vai do já citado Histórias Cruzadas até o dramalhão de segunda categoria A Garota no Trem (2016), trabalha aqui com um orçamento exíguo para os padrões da indústria norte-americana e adota um estilo de direção por vezes mais introspectivo - em particular, no tratamento psicológico de Sue Ann: há muitos closes e planos-detalhe em Spencer, capturando as microexpressões do rosto da atriz, desde pequenos espasmos na boca até os olhares incrivelmente dúbios da personagem; o cineasta também imita a abordagem de Robert Aldrich em O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (1962) ao colocar sua protagonista em primeiro plano (e, vale notar, ela geralmente está à esquerda, o lado mais forte da tela), sondando as ações dos adolescentes e esboçando caretas psicóticas. Em outros momentos, entretanto, Taylor mostra uma predileção curiosa por plongées e planos aéreos, empregando-os em circunstâncias tão triviais que suas funções imagéticas se perdem, tornando-se desnecessárias e, pior, criando certo distanciamento estético entre espectador e obra.

Tonitruante na mesma medida, o roteiro de Scotty Landes ora comete deslizes notáveis de estrutura (a apresentação dos personagens no primeiro ato é confusa e apressada, aparentando um desinteresse por parte do roteirista quanto aos personagens adolescentes, cujo protagonismo se dilui rapidamente com a entrada de Sue Ann), ora propõe um sofisticado estudo de personagem, discutindo questões como bullying, obsessão com redes sociais e sexo na adolescência. Se, por um lado, a opção por tratar Ma/Sue Ann como o centro da narrativa sirva ao longa-metragem como seu diferencial, ao mesmo tempo, termina por tornar óbvias as intenções da personagem, bem como seu background e conexão com os demais personagens, eliminando qualquer fator-surpresa ou incerteza vinda da audiência. Ao menos, há certas simbologias de caráter crítico, quase alegórico, que pululam o último ato da projeção.

Porém, o que falta de surpresa na narrativa concebida por Taylor e Landes sobra na composição dramática de Octavia Spencer. Caracterizada com uma apropriada peruca excêntrica, Spencer injeta em sua performance sentimentos e posturas ambíguas como obsessão, inocência, solicitude, autossuficiência e carência, fazendo com que tenhamos apreensão por seu comportamento, ao mesmo tempo em que sentimos que ela pode ser uma pessoa agradável e solitária. A atriz também merece aplausos por não recorrer ao overacting possibilitado pelos desdobramentos do roteiro, mantendo-se sóbria e cautelosa mesmo no ápice da loucura no qual está inserida, sem recorrer a olhares esbugalhados ou a sorrisos permanentes para torná-la ameaçadora.

Sendo assim, não há nada melhor para quem foi negligenciado por tanto tempo, como é o caso de Octavia Spencer, do que ser a presença basilar de um filme, por mais que este esteja aquém de seus talentos.



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