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Crítica: Primeiro Ano

Com certo talento para criar filmes populares sobre questões sociais inteligentes, Thomas Lilti oferece um bom filme, simples e espirituoso que é ao mesmo tempo divertido e crítico.
Primeiro Ano

Thomas Lilti é um ex-médico que virou cineasta e é certamente graças a isso que Primeiro Ano passa tanta verdade. Inspirado pela própria experiência ele apresenta para o espectador, através de suas próprias memórias, o que observou do que é a jornada de um estudante de medicina. Este é o terceiro filme de Lilti, fechando assim uma trilogia de comédias sociais contemporâneas sobre o campo médico. Depois de Hipócrates e Médico de Campo, o diretor disseca outra faceta do mundo da medicina que é o primeiro ano de estudos.

Na forma de um romance de aprendizado clássico, ele nos desvenda o mundo da faculdade de medicina e seu processo extremo de seleção. Ele filmou nas próprias instalações da faculdade e contratou como figurantes verdadeiros estudantes de medicina. Em um auditório lotado, Benjamin (William Lebghil) inicia o curso com a esperança de seguir os passos de seu pai, que é cirurgião. Lá ele conhece Antoine (Vincent Lacoste), que já repetiu seu primeiro ano duas vezes. O fluxo da universidade é mostrado com alta pressão e um processo de seleção mortal. Benjamin descobre com indiferença um novo mundo em que Antoine está profundamente imerso. Os dois decidem trabalhar juntos num ritmo incrivelmente intenso que acontece a qualquer hora do dia e da noite e em todos os lugares. Antoine espera descobrir o que ele fez de errado nos dois anos anteriores enquanto Benjamin se aproveita do fato de Antoine já saber como se adaptar à universidade. A parceria funciona perfeitamente até o primeiro exame, que faz com que Benjamin ultrapasse Antoine desestabilizando totalmente o relacionamento. A relação entre os dois amigos é uma mistura de fraternidade, cumplicidade e ciúme. No entanto não há tanto atrito verdadeiro entre os dois jovens e o filme não tem o desenvolvimento de um drama em que altos e baixos dramáticos pavimentam a narrativa. Na maioria das vezes, Lilti prefere somente aproveitar a atividade dos protagonistas enquanto estudam e se deslocam pela universidade.

Os dois parceiros são bem representados pelos dois jovens e promissores atores. Lacoste e Lebghil têm química discreta, mas crível como os dois colegas. Se um parece fazer do sucesso uma questão de vida ou morte, o outro tem um propósito mais pessoal. A dupla é muito eficaz e com consistência e relevância conseguem mostrar todas as dificuldades, ansiedades, frustrações e incertezas que permeiam a vida de um estudante. Como isso, o espectador acaba por se sentir como uma espécie de terceiro amigo invisível da dupla.

A direção de fotografia de Nicolas Gaurin fotografa tudo com uma mão certeira enquanto o designer de produção Philippe Van Herwijnen retrata de forma convincente tanto os minúsculos aposentos dos estudantes como os ocupados salões e bibliotecas da universidade. Apesar de suas claras diferenças de tamanho, os ambientes se mostram muito apertados e cheios quase que todo o tempo.

Se o filme não se parece tão memorável ou criativo em roteiro e condução, somos seduzidos pelos dois personagens principais que nos revelam a beleza desta história íntima e profundamente humana. É através deles que surgem as reflexões sobre ​​a juventude, a dificuldade de encontrar um lugar e a impossibilidade de definir-se a si próprio senão através do outro. O grande gesto de amizade no último ato decepciona um pouco e parece muito desconectado com o que os dois personagens representam, e acaba por retirar a realidade e parte da complexidade emocional em relação ao todo.

Com certo talento para criar filmes populares sobre questões sociais inteligentes, Thomas Lilti oferece um bom filme, simples e espirituoso que é ao mesmo tempo divertido e crítico. Usando uma história de amizade inspiradora Primeiro Ano denuncia a competição em que nosso tempo nos obriga a viver e nos mergulha no mundo do sistema de ensino, com seus problemas, suas neuroses e suas vitórias, onde somos classificados, combatidos e comparados.

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