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Crítica: O Mau Exemplo de Cameron Post

Os deslizes de O Mau Exemplo de Cameron Post não são o suficiente para diminuir a maneira como lida com a sexualidade de sua protagonista e com os percalços de uma jovem se descobrindo dentro de um ambiente que a julga como errada, nada muito diferente do que vemos na nossa realidade.
O Mau Exemplo de Cameron Post

Vencedor de Sundance em 2018, o longa protagonizado por Chloe Grace Moretz mostra o retrato crítico sobre a influência religiosa dentro da sexualidade, e principalmente sobre não existir cura para algo que não é uma doença.

A forma como a diretora Desiree Akhavan tenta conduzir o seu longa é muito próxima dos filmes independentes que fizeram sucesso nos últimos anos, mesclando entre o drama de descoberta e os momentos virtuosos da adolescência, passando pela transgressão de ser jovem com seus hormônios no auge. Akhavan deixa o tom do filme mais íntimo ao mostrar que mesmo diante de um ambiente desajustado e completamente nocivo a sua sanidade, ela ainda consegue se encontrar como pessoa e pertencer a um grupo.

A história não poderia ser mais atual para o cenário norte-americano e global, o longa conta um pequeno trecho da vida de uma personagem que tem um namorado para disfarçar seus verdadeiros impulsos sexuais, Cameron (Chloe Grace Moretz) é uma jovem homossexual, e o seu amor não é por Jamie, mas sim por sua melhor amiga Coley (Quinn Shephard). Depois do baile do colégio, sua orientação sexual é descoberta e a garota é enviada por sua tia para um centro religioso de terapia e conversão com a promessa de que sairá “curada”. Cameron conhece outros jovens gays e acaba formando amizades com seus novos companheiros.

Diante de uma história intimista, a interpretação do elenco é algo fundamental para a construção de um ambiente verossímil, a resposta é satisfatória. Moretz passa boa parte do longa em um estado de dormência e confusão, a atriz consegue inserir pequenos detalhes nos trejeitos de Cameron, a forma como anda, o jeito como olha para seus colegas, a confusão ao tentar compreender as regras do centro terapêutico, mesmo Chloe estando abaixo de seus companheiros de cast, ainda impõe verdade a suas cenas.

No campo das interpretações, outro destaque satisfatório é John Gallagher Jr. Acostumado em fazer papéis de pouco destaque, Gallagher interpreta o jovem Reverendo Rick, um dos líderes religiosos que fora “curado” no centro de tratamento. A sutileza como o ator mostra que seu personagem, assim como todos no internato, está perdido, é digna de nota; a fala mansa e o jeito animado para realizar as atividades com os jovens faz o público entender que Rick tem as melhores intenções, algo que não acontece com sua irmã Dr. Lydia Marsh (Jennifer Ehle) que demonstra autoritarismo e falta de empatia, se o ambiente que Cameron Post vive é o vilão dessa história, o seu capanga é a Dra. Marsh.

Jane Fonda (Sasha Lane) e Adam (Forrest Goodluck) completam o trio de amigos de Cameron Post. A maneira como o grupo aceita e abraça Cameron é feita de maneira orgânica, Jane e Adam apresentam certa desconfiança com a protagonista, que é integrada aos poucos dando lugar ao senso de companheirismo e confidencia que faz o trio se unir.

Outro fator importante não só do trio, mas de todos os residentes, é a maneira como foram parar ali; tem a garota que é fã de esportes, a jovem aspirante a cantora, o rapaz que é bissexual, o garoto afeminado internado por seu pai, são histórias que podemos encontrar em cada canto que visitamos, são backgrounds de nossos amigos, ou amigos de nossos amigos.

A importância do tema e a boa construção de Akhavan não anulam as falhas presentes na obra. O segundo ato de O Mau Exemplo de Cameron Post é arrastado e algumas cenas que lidam sobre os hormônios de jovens de até 17 anos é um tanto repetitiva, em ao menos uma das cenas você se pergunta se não existia um caminho melhor para abordar o tema.

O longa volta a acertar no ponto de virada do segundo para o terceiro ato ao colocar um dos personagens em uma situação extrema, algo que serve de maneira disruptiva para Cameron e seus amigos, mas, principalmente, para o público entender o drama vivido por aqueles jovens.

Apesar do choque o filme encerra numa crescente, com bom humor e alívio para o trio, trazendo de volta às telas aquele clima de filmes indie.

Os deslizes de O Mau Exemplo de Cameron Post não são o suficiente para diminuir a maneira como lida com a sexualidade de sua protagonista e com os percalços de uma jovem se descobrindo dentro de um ambiente que a julga como errada, nada muito diferente do que vemos na nossa realidade.

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