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Crítica #2: Shazam!

Shazam! é um filme saboroso, descompromissado e autoconsciente de sua natureza cartunesca, abraçando sua aura adolescente e despontando como uma novidade refrescante dentro do cânone do DCEU.
 Shazam!

Existem diferenças elementares entre os universos da DC e Marvel Comics: uma tende às alegorias para realizar seus objetivos; a outra é mais flexível e carnavalesca no intuito de entreter o leitor/espectador; a primeira, mais tradicional, segue uma abordagem ligeiramente solene; a segunda, nascida no palco da contracultura sessentista, escancara a lisergia de seus conceitos. Se essas distinções eram facilmente identificáveis nos quadrinhos, e mesmo na leva cinematográfica recente dos respectivos estúdios, agora, essa linha divisória tende a ruir ou, ao menos, ganhar vários tons coloridos.

Shazam! (Idem, 2019) segue os passos de Aquaman ao injetar cor, leveza e abandonar qualquer resquício da autoindulgência típica de Zack Snyder no Universo Estendido da DC. Porém, o diretor David F. Sandberg (dos bacanas Quando as Luzes se Apagam e Anabelle- A Criação do Mal) consegue um resultado melhor em relação ao obtido pelo malaio James Wan em seu sucesso de 2018, já que há, nesta nova produção, um humor mais condizente no contexto em que se insere e uma ausência considerável de cacoetes – visuais e dramáticos – além de uma inserção menor de efeitos visuais e um elenco mais sintonizado com a proposta.

Conta-se, aqui, a trajetória de Billy Batson (Asher Angel), um jovem órfão que fugiu incontáveis vezes de lares adotivos. Certo dia, ele é escolhido pelo mago Shazam (Djimon Hounsou) para absorver seus poderes e, então, combater um grande mal. Assim, basta dizer o nome do mago para que seus poderes imbatíveis de velocidade, força e resistência física fluam através de seu corpo, que envelhece como um homem de 30 anos (Zachary Levi). Agora, Billy contará com a ajuda de seu recente irmão adotivo, Freddy Freeman (o estupendo Jack Dylan Grazer), para descobrir seu potencial e fazer jus à escolha.

Sandberg, cineasta oriundo do terror, consegue criar algumas composições visuais interessantíssimas, seja em enquadramentos aéreos ou ao posicionar-se em ângulos bastante incomuns (aqui, essas ocorrências se dão quando a câmera se encontra no meio de alguma construção ou objeto). Ademais, a própria concepção visual do antagonista Thaddeus Sivana (Mark Strong) é bastante criativa e amarra-se ao gênero horror, uma impressão ressaltada pelos desfechos de determinadas sequências, cuja carga de violência e obscuridade pode assustar o público infantil. Da mesma maneira, o diretor demonstra inteligência narrativa ao explorar rimas visuais entre a infância e a adolescência de Billy e ao utilizar um flashback apenas para revisitá-lo adiante por um ponto de vista diferente e sem fazer julgamentos morais.

Igualmente bem sucedida, a paleta de cores proposta pelo design de produção de Jennifer Spence eficazmente exemplifica a vivacidade do protagonista e procura associar-se constantemente ao esquema presente no uniforme de Shazam. Assim, vê-se branco, vermelho e variações de amarelo/laranja em inúmeros momentos da projeção, dando ao longa-metragem o aspecto mais acolhedor de todas as incursões da história da DC Comics – não é por acaso que o clímax se desenrole em um ambiente inequivocamente aprazível. Mesmo quando tons monocromáticos são adotados (no céu cinzento ou, obviamente, nas cenas externas noturnas), o resultado jamais se aproxima da dessaturação completa e incompreensível de Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016).

Contudo, a direção de Sandberg comete um deslize notável: o desnível tonal das interpretações de Zachary Levi e Asher Angel. Figura central da série Chuck (2007-12) e intérprete da Broadway, Levi tem carisma, timing cômico e presença de espírito incontestáveis. O ator é capaz de nos fazer acreditar em sua força hercúlea (apesar dos enchimentos exagerados do uniforme) e na irresponsabilidade juvenil empolgante de um garoto de catorze anos. Entretanto, a visão que Angel confere ao personagem é ligeiramente mais melancólica e monocórdica, com dificuldades para encontrar humor nos instantes de adversidade. Desta forma, fica difícil imaginar como ambos poderiam estar interpretando o mesmo personagem, com as características emocionais compartilhadas: Billy Batson, na verdade, está incorporando outra pessoa, não uma variação de si mesmo. Pelo menos, é o que o produto final sugere.

O roteiro de Henry Gayden também carece de uniformidade: estende-se demais no primeiro e terceiro atos e insere muitas situações episódicas isoladas, quando poderia gastar uma parte deste tempo para aprofundar as conexões dramáticas entre herói e vilão, bem como a relação de Billy com seus pais adotivos. Por fim, vale notar que alguns diálogos são bastante fracos e parecem flertar, sem sucesso, com sagacidade (o exemplo mais claro se dá durante uma conversa entre Billy e Freddy, quando este último cita o superpoder de voar, ao que o primeiro responde: “para voar para longe desta conversa?”).

Fazendo uma referência explícita e ligeiríssima ao clássico Quero Ser Grande (1988) e contando com um excelente elenco infantil, Shazam! é um filme saboroso, descompromissado e autoconsciente de sua natureza cartunesca, abraçando sua aura adolescente e despontando como uma novidade refrescante dentro do cânone do DCEU. Mais que isso, na verdade: é um blockbuster, fruto de uma indústria cultural cada vez mais pasteurizada, mas que se sustenta graças à alma calorosa depositada nele e por ele emanada.



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