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Crítica: Duas Rainhas

A história de Mary e Elizabeth acaba se tornando mais sobre as duas do que uma contra a outra.
Duas Rainhas

“Hoje sou mais homem do que mulher. O trono me obrigou a isso”

Dita por uma rainha em pleno século XIV, a frase parece ser só uma constatação preconceituosa. Então é isso mesmo? Uma mulher jamais seria capaz de governar um país?

Não exatamente. Mais do que uma afirmação, a admissão carrega a inevitabilidade em reconhecer “limitações” impostas por um mundo que jamais consideraria a figura de uma mulher da mesma forma que a de um homem, mesmo que fosse imbuída do mais alto poder hierárquico. Além de ter o peso dos conflitos e decisões de toda uma nação sobre os ombros, esta rainha estaria sempre vulnerável e alvo de se tornar a vítima escolhida para o exemplo de que não se deve perturbar a ordem das coisas. Muito mais óbvio do que hoje, enxergar isso fica mais fácil quando a história se passa meio século atrás, como é o caso de Duas Rainhas (Mary, Queen of Scots, 2018).

Mary (Saoirse Ronan) retorna para a Escócia depois de ter passado boa parte da infância e o começo da vida adulta na França, quando era prometida ao herdeiro do trono – morto logo depois. A fim de estabelecer sua corte no país, ela constrói sua base com a ajuda do meio-irmão, pretendendo também reivindicar o trono inglês, ocupado pela rainha (e prima) Elizabeth I (Margot Robbie). Além de lidar com tramas políticas e jogos de interesse, a jovem Mary ainda se vê diante de um contexto religioso que a coloca entre católicos e protestantes.

O embate prometido entre as duas principais figuras femininas foi o que permeou basicamente toda a divulgação do longa. Desde os posters até o trailer (repleto de spoilers, diga-se de passagem), o conflito gerado pela disputa de poder parecia ser muito maior do que outras questões como religião e gênero. E era assim mesmo que a trama seguia quando somos apresentados aos personagens. Elizabeth governa a Inglaterra, mas sente-se imediatamente ameaçada pelas notícias que recebeu da prima.

Interpretada com segurança por Margot Robbie, a rainha não demora muito a demonstrar o contrário com a personagem, que é a característica dominante no restante da narrativa. Não só o horizonte duvidoso que se aproxima com a ameaça escocesa, mas a insegurança se projeta na relutância em fortalecer laços políticos com matrimônios arranjados e em suas constantes preocupações com a própria aparência – nesse ponto o longa merece atenção pelo excelente trabalho de maquiagem que lhe rendeu uma indicação no Oscar. Salientada pela direção da estreante Josie Rourke, essa sensação surge logo em sua primeira aparição, com o semblante distante suprimido pelos vitrais do palácio e, posteriormente, sempre reforçando a característica em planos que a colocam duplicada por espelhos ou determinada a reproduzir a beleza que não tem em pinturas constantemente descartadas.

Já Mary possui a jovialidade e aparência que as colocam com a energia necessária para projetar aos novos súditos uma liderança que tenha a força para fazer frente aos ingleses. Em mais um trabalho sólido de Saoirse Ronan, a protagonista também exibe eventuais inseguranças no olhar, mas originadas mais da inexperiência do que pela própria imagem (mérito da atriz). Inserida num ambiente aparentemente aconchegante a amigável, o design de produção tem o papel importante não só de conferir opulência aos castelos e figurinos, mas servir como uma espécie de prenúncio ao retratar, por exemplo, o palácio de Mary em passagens desniveladas e salões com as paredes em pedra como se lembrassem uma masmorra.

Infelizmente, mesmo reconhecendo os méritos técnicos da obra, o roteiro de Beau Willimon (House of Cards, Tudo Pelo Poder) tem uma série de problemas que dificultam a profundidade da história. Nesse caso, é inevitável não compará-la com o recente (e excelente) A Favorita (de Yorgos Lánthimos), que tinha como principal qualidade aliar um texto ácido e envolvente com uma direção cheia de personalidade que tornava o fato dele ser um “filme de época” apenas um detalhe. Aqui, o potencial de mergulhar em intrigas pessoais e políticas fica só na superfície porque as motivações e atitudes mudam bruscamente de acordo com a necessidade da trama. A mais prejudicada com isso é justamente Mary, que é deslocada de direção na trama o tempo ao nunca encontrar uma lógica consistente na maneira como lida com as traições de seus súditos e familiares (ora ela demostra ser implacável, ora se esquece disso e perdoa tudo convenientemente).

Fora isso, há um problema estrutural que se identifica tanto no roteiro quanto na direção. A rainha Elizabeth é apresentada como uma das principais personagens da história, mas é insistentemente negligenciada pela trama. Suas ausências são tão grandes que nos esquecemos de sua existência, o que apaga consideravelmente o impacto do embate prometido entre duas personalidades que deveriam ser igualmente bem desenvolvidas. Isso tudo piora com o irregular trabalho de montagem, que parece inseguro ao repetir o macete de intercalar momentos importantes entre as duas (uma vez é bom, mas outras soa forçado), além de entregar alguns saltos temporais absolutamente ineficazes.

Mas será que dá para encontrar coisa boa nesse filme? Sim. Apesar dos problemas, Duas Rainhas tem um tema forte e que não surge de uma vez. A questão do poder e como ele afeta a dinâmica de um reinado vai revelando aos poucos que essas mulheres estarem no topo de um governo jamais esconderá o fato de que são... bem, mulheres. Como o personagem interpretado por David TennantJohn Knox, não nos deixa esquecer (há um problema de exposição que também enfraquece o longa), a própria pretensão de usarem uma coroa é ameaça suficiente para os homens. Pior – e talvez mais grave – é que uma mulher apresentar sinais de que se enxerga como um ser dotado de sexualidade já a joga para um patamar “perigoso” e passível de ser usado como justificativa contra ela mesma (se ainda é assim hoje, imagine nos anos 1500...).

A história de Mary e Elizabeth acaba se tornando mais sobre as duas do que uma contra a outra. Ao se verem cada vez mais ameaçadas até pelas figuras masculinas que lhe inspiravam mais confiança, já que estes têm a eterna vantagem de usarem seu gênero como uma cartada final, percebem que a sororidade é uma questão de sobrevivência.     

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