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Crítica: Um Ato de Esperança

Graças a uma direção impecável que opta por nos conduzir com a mesma sobriedade de sua protagonista, e atuações sem defeitos, resta a sensação de ter experimentado um drama sensível e difícil, como a própria vida é, que desafia nossas concepções preto-no-branco e nos força a pensar sobre suas verdadeiras questões.
Um Ato de Esperança

Uma das coisas mais fascinantes na literatura e no cinema é justamente o poder que grandes histórias têm de desviar nossa atenção. Como bons mágicos, as boas tramas conduzem nossos olhares para um ponto enquanto o verdadeiro truque acontece bem debaixo de nossos narizes, mas alheio à nossa percepção. Deste modo, ao final, oferecendo um grande espetáculo a nossa percepção, somos surpreendidos pelo desfecho que não vemos se aproximar, mas na verdade esteve ali o tempo todo. A recente adaptação do aclamado livro “A Balada de Adam Henry” (do autor britânico e também responsável pelo roteiro adaptado Adam McEwan) é certamente uma destas obras complexas que surgem de tempos em tempos.

Com o péssimo título nacional de Um Ato de Esperança (contra o título original “The Children Act” que faz referência à lei britânica que regula o bem-estar das crianças acima de qualquer circunstância), este filme colabora com a ilusão de que se trata de uma escolha difícil envolvendo a reservada juíza Fiona Maye (Emma Thompson, do ótimo Mais Estranho que a Ficção, 2006)) e sua decisão sobre passar ou não por cima dos interesses do jovem Adam Henry (Fionn Whitehead, que repete a atuação perturbada do longa interativo da Netflix, Bandersnatch, 2019), uma Testemunha de Jeová menor de idade e com leucemia, que se recusa a receber uma transfusão de sangue por motivos religiosos. Embora perca algum tempo com extrema qualidade no embate filosófico entre ciência e religião, a história a ser contada aqui pelo diretor inglês Richard Eyre (de Notas sobre um Escândalo, 2006) passa longe de ser sobre isso.

Desde o começo somos convidados a conhecer a aparente apática personagem de Emma Thompson, uma mulher madura, com uma carreira jurídica de sucesso e um casamento em ruínas com o professor universitário Jack (Stanley Tucci, de O Diabo Veste Prada, que aqui faz uma ponta de luxo apenas). A juíza lida com dilemas morais duros todos os dias, e mantém-se fria e lógica em relação a eles para poder cumprir bem a função que lhe cabe. O caso do jovem Adam Henry seria apenas mais um, mas por algum motivo, a mulher decide conhecer o rapaz moribundo antes de decidir se respeitaria a lei ou seus princípios religiosos. Este encontro não ortodoxo acaba sendo o feliz encontro entre uma mulher que de sucesso – visto de fora – que se questionava sobre suas reais realizações – seu casamento, a falta de filhos – e um jovem que a vida inteira pela frente que, apesar disso, pelo poder enorme de uma crença sincera, já estava pronto para morrer por ela. É a fria razão da lei contra a doçura da esperança em algo ilógico, irreal - para alguns. É neste momento que a verdadeira intenção do longa começa a se revelar, e este confronto – e a decisão da juíza que aqui me furtarei a contar – muda a vida destes dois personagens. Para ela, aos poucos, um questionamento de cada vez; e para ele, como o jovem que é, abruptamente, confuso, sem direção. Misturando sentimentos, percepções e – por que não? – crenças.

É das dúvidas e dos atropelos emocionais dos dois personagens que nasce um balé incrivelmente complexo sobre aquelas duas vidas que se abrem para nós em tela. Confesso que ao fim do filme eu não tinha entendido onde ele queria chegar. Enquanto alguns choravam na sala de cinema, eu não havia entendido o ponto, seu real propósito, ou qual seria a mensagem que ele queria me passar. A mistura estranha entre amor, romance, maternidade, esperança e medo da juíza e de Adam nos confunde e me foi necessário revisitar a história muitas vezes em minha mente, procurar saber mais sobre o livro que o originou e depois revisitar um pouco mais. Mas no fim das contas, graças a uma direção impecável que opta por nos conduzir com a mesma sobriedade de sua protagonista, e atuações sem defeitos, resta a sensação de ter experimentado um drama sensível e difícil, como a própria vida é, que desafia nossas concepções preto-no-branco e nos força a pensar sobre suas verdadeiras questões.


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