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Crítica: Suspiria - A Dança do Medo

Em suas ambições mal equilibradas, Luca Guadagnino consegue entregar um material desconexo e atrativo devido a sua gratificante originalidade.
Suspiria - A Danço do Medo

A partir de um remake vários pressupostos já são estabelecidos de qual será a ideia do diretor em recriar tal filme, suas propostas, como será feito, etc. E um remake de Suspiria, um filme de terror clássico dirigido por Dario Argento nos anos 70 que representava a extravagância do giallo, requer valores além de um simples terror, além de uma simples reconstrução mais contemporânea com proveito dos artifícios do século XXI. Aliás, remontar uma produção que marcou o auge do terror entre os anos 60 e 80, um símbolo do cinema italiano naquela época e até os dias de hoje é uma tarefa no mínimo questionável.

Luca Guadagnino não só se presta a essa ocupação de reapresentar Suspiria ao público, como também o transforma a partir de sua visão, o que faz com que seja mais uma interpretação de Suspiria do que um remake em si. Ideia que valoriza seu trabalho e valoriza o material que tinha em mãos, pois Suspiria é um filme além da imaginação, e para ser refeito necessitava de algo a mais do que uma “digitalização”.

Passado no ano de 1977, Susie Bannion (Dakota Johnson) é uma jovem americana que é aceita por uma prestigiada companhia de dança em Berlim onde logo se destaca dentre as outras dançarinas. Enquanto imersa no ambiente aparentemente artístico, a real faceta do lugar começa a se revelar como um culto de bruxas.

As diferenças da versão original para o remake são balanceadas ao ponto do núcleo de Suspiria permanecer, porém contados de forma completamente distintas. Na versão de Guadagnino, o culto de bruxas tem mais presença e mais a contar e constantemente intrigar do que na versão de Argento, além de optar por paletas de cores mais densas, opacas e invernais do que as colorações mais vistosas puxadas para o neon vistas no filme de 1977.

A fotografia mais calculista e insípida, mesclada com o cenário escuro e estranho que praticamente assobia e sussurra em seus ouvidos o tempo inteiro, exaltado pelo complexo trabalho de som inserido que casado com a trilha sonora enervante de Thom Yorke – destaque para a música tema do filme, Suspirium – cria um senso de hipnose do qual o filme original tinha devido as suas cores. Os valores atmosféricos são mais fortalecidos e emplaca de forma concisa o terror psicológico. Suspiria de Guadagnino nos oferece uma ambientação que desnorteia os sentidos devido ao equilíbrio na ambientação e o imagético absurdo.

Uma linha conceitual que percorre de forma invisível a produção, correndo pelo cenário sombrio da companhia de dança e seus esconderijos, as vozes e barulhos, olhares distantes, conduzidos pela trilha sonora que penetra calmamente, passando pela escolha do roteiro em espelhar a tensão do ambiente interno cercado por bruxas com o ambiente externo em meio aos conflitos alemães da Guerra Fria. Costurado inteligentemente, mas muito conceito em arcos bem paralelos que não se encaixam e desmonta o que poderia ter sido um belo terror do mais alto nível.

A ambição visual e auditiva de Luca Guadagnino é recompensada com grandes acertos e momentos impactantes a serem lembrados daqui a 50 anos quando comentarmos filmes de terror. No entanto, a mesma ambição que lhe deu total controle visual do que queria ser mostrado em uma mão, na outra mão o emaranhado de ideias em sua cabeça atrapalhou bastante a fluidez da história, que tem muito a dizer – até demais –; subtramas desnecessárias que mesmo se não existissem continuaria deixando o filme apegado em sua originalidade – que claramente era o maior desespero e a maior vontade de Guadagnino –; doses de exaltação feminina que são jogadas de forma avulsa, sem se preocupar em desenvolvê-las; a forma incessante como dançarinas se dedicam a suas profissões refletido na alienação delas de tudo ao redor; a passagem de mãe para mãe, tanto valores como a maternidade em si. Tudo embaralhado em duas horas e meia, separado por seis capítulos e um epílogo que, afinal de contas, evoluem organicamente sem cortes abruptos e muito bem estruturados durante as cenas de dança.

Torná-lo um filme independente do original era o maior desafio, e no final de tudo, consegue, porém, não está isento de problemas, como por exemplo, uma trama por fora da companhia de dança envolvendo um psiquiatra interpretado por Tilda Swinton que não influencia a narrativa, servindo apenas como uma possível salvação para as meninas e uma suposta “voz da razão” diante de um culto de bruxas que atrapalha o engajamento no suspense que circula as mulheres. Optando por um personagem a mais, ao invés de focar no desenvolvimento de sua protagonista que em certos pontos se perde na narrativa.

Dakota Johnson ainda tem muito o que provar como atriz, mas consegue cumprir o seu papel de garota inocente vagarosamente se transformando e se desenvolvendo com o decorrer do enredo. Mudanças de feições que em duas horas e meia de filme são reconhecíveis e louváveis.

O “problema” – e coloco problema entre muitas aspas – é que Dakota Johnson tinha em suas mãos a tarefa complicada de contracenar com Tilda Swinton em uma produção que é basicamente moldada para Tilda Swinton: regido por estranheza e uma narrativa sobrenatural. E além de interpretar o psiquiatra, se transformando em um homem idoso, coberta por uma maquiagem incrível, sendo realmente impossível ver alguma semelhança do personagem com a atriz, Tilda ainda é a coreógrafa da companhia de dança, Madame Blanc. E como Madame Blanc, a presença em cada cena domina todas as outras atrizes, através de uma seriedade e parcimônia que chega a ser claustrofóbico de olhar. E o brilhantismo de Tilda Swinton é sua capacidade de se transformar em cada personagem que interpreta. Mais do que isso, é sua capacidade de exalar sentimentos apenas com seus olhos enormes e a leveza em suas expressões que transmitem carinho, dúvida, desespero, desejo, excitação, etc, sem ao menos dizer uma palavra ou se alterar.

Em questão das atuações, ainda são destacáveis as atuações de Mia Goth como Sara, uma das dançarinas da companhia, que amplia os cenários e os interliga, um fio condutor entre a trama dentro da companhia e a trama do psiquiatra; e principalmente a atuação de Angela Winkler como a Sra. Tanner, uma das bruxas da companhia de dança, que comparada a Tilda Swinton, sua presença é bem mais desconfortável, tendo sempre um olhar macabro e duro, ainda que sempre com uma tranquilidade incômoda nos cantos dos enquadramentos.

Em suas ambições mal equilibradas, Luca Guadagnino consegue entregar um material desconexo e atrativo devido a sua gratificante originalidade. Os números de dança elevam a qualidade do filme, além de serem primorosamente coreografados, trazendo contemporaneidade e assombro instantâneo que juntos dão gás a narrativa e mexe consideravelmente com o público. Diante de danças agressivas e preenchidas do mais puro teor artístico, Guadagnino encontra sua voz dentro de Suspiria e oferece um terror completamente fora da caixa – quilômetros e quilômetros de distância da caixa –, com um tema sobreutilizado no século passado e que nos dá bons frutos sobre um real suspense e horror de bruxaria, somado ao terror psicológico pulsante e uma sequência final que brinda os mais fiéis amantes do gore.



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