Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegue aqui

Crítica: Nós

Se esse “novo terror”, assim como insistem em chamar, o tem como um de seus principais representantes, certamente estamos em boas mãos.
Nós
Nem é preciso falar sobre a expectativa que traz o novo projeto do diretor e roteirista Jordan Peele. Na edição do Oscar do ano passado, ele atingiu uma marca importante, se tornando o primeiro negro a vencer na categoria de Roteiro Original – e num filme de estreia. Corra! soube se aproveitar de um renascimento no terror que trouxe um certo frescor a um gênero tão maltratado por fórmulas desgastadas, além de tratar com habilidade temas sociais e políticos sob a estrutura de gênero (algo erroneamente tido como inédito por parte da crítica).

Retornando novamente nas duas funções principais, o cineasta investe novamente no que deu certo com Nós (Us, 2019), que traz uma família vindo passar o período de verão em sua casa de praia. Quando era apenas uma criança, Adelaide Wilson (Lupita Nyong´o) passou por um evento traumático em um parque de diversões situado na mesma região. Ao retornar anos depois com seu marido Gabe Wilson (Winston Duke) e seus dois filhos, Zora (Shahadi Joseph) e Jason (Evan Alex), ela começa a ficar atormentada pelas lembranças. Quando tudo já parecia ruim, uma família idêntica aos Wilson surge no meio da noite e passa a persegui-los.

É interessante notar com o diretor manteve a tendência em uma história que não pretende emular o feito anterior. Ao atacar aquele racismo velado (daqueles que “votariam em Obama pela 3ª vez”) em uma extrapolação de gênero que toca num tema especifico, Corra! se tornou uma simbiose perfeita entre cinema e discurso social. Se lá o mistério se atinha a uma linha determinada, o que é feito em Nós demostra a maturidade em expandir a ideia de trabalhar com o significado das imagens – e novamente, sem se esquecer que se trata de um filme dependente de convenções e ideias das quais se esperam consonância com o gênero.

A boa notícia é que as duas coisas funcionam novamente. Eficaz já desde o início, a sequência que abre o longa é o exemplo de como traduzir a expressão “tudo parece certo, mas há uma constante sensação de que algo está errado” para a narrativa visual. A câmera em um ângulo mais baixo nos coloca no olhar subjetivo da pequena Adelaide (Madison Curry, na versão infantil da personagem), que observa com desconfiança o ambiente à sua volta. Os movimentos suaves e planos mais longos intercalam sua visão subjetiva com uma crescente tensão evidenciada pelos arredores que parecem oprimir a garota. Bastam poucos minutos para que o público entenda e absorva a impressão de que algo vai incomodá-lo por definitivo.

Na frente mais evidente, o filme se sai muito bem como produto cinematográfico. Nesse ponto, a habilidade que Peele tinha demostrado anteriormente se confirma e sua direção entende a fundamental diferença entre o terror fácil – dos sustos e clichês – e a criação da atmosfera do medo. A dupla com o diretor de fotografia Mike Gioulakis (Vidro, Corrente do Mal) é responsável por conceber uma angústia visual pautada na forma como os personagens interagem com o ambiente. Desse modo, aspectos elementares como uma chuva, um horizonte iluminado por raios, as sombras estrategicamente presentes e até a óbvia (mas eficaz) utilização do vermelho contribuem imensamente para que compartilhemos o receio dos personagens.  

Essa abordagem, tanto no geral como especificamente a que fecha o prólogo, é que dá o tom que fará o espectador passar o resto da projeção compartilhando a angústia da protagonista em retornar para a região com a família. Partindo de um ótimo trabalho do montador Nicholas Monsour, a obra se estrutura através de flashbacks que surgem como um quebra-cabeça emocional, se inserindo organicamente à medida que seus conflitos se intensificam – basicamente com a função de serem necessários (a trama pede) e nunca interrompendo a narrativa e o ritmo. Eles nos entregam as pistas para que tenhamos a curiosidade na medida correta para que, assim, ainda haja engajamento na história, mesmo que as ameaças já tenham sido explicitadas.

Falando nelas (aqui me aterei apenas no que pode ser visto nos trailers), os “duplos” são o principal elemento de mistério do longa, levantando perguntas óbvias para qualquer um: qual suas origens? O que desejam? A resposta entraria numa inevitável zona de spoilers (cabe a quem for ver descobrir), mas a escolha de usá-los remete a uma recorrente utilização do significado amplo de reflexo usado no cinema. O próprio Jordan Peele disse que “nós somos os nossos piores inimigos”, uma fala que não necessita ser explicitada (ela veio de uma entrevista), mas que tem um amplo significado dentro da forma como são construídos os antagonistas da história.

Afinal de contas, a possibilidade de enfrentarmos versões primárias de nós mesmos é algo mais metafórico na vida real, mas em um filme ela pode servir em várias camadas. As temáticas vão desde a discussão de classe até críticas sobre o culto à beleza. O casal formado por Josh Tyler (Tim Heidecker) e Kitty Tyler (a sempre excepcional Elisabeth Moss) é um bom exemplo de como a narrativa consegue abarcar maiores discussões usando poucos personagens e o poder simbólico de suas representações. Isso tudo (ao menos até o 3º ato) é desenvolvido sem precisar recorrer a exposições a necessidade de repetir informações.

Fora as interpretações mais diretas, Nós ainda pode servir como uma extrapolação da paranoia sob qual a sociedade americana parece estar constantemente vivendo. A ideia de que há um monstro à espreita prestes a ameaçar um estilo de vida que se julga perfeito se torna ainda mais assustadora justamente pelo fato de que sua origem é na pior parte de nós mesmos. Falando assim, até parece uma filosofia barata, mas o longa também acerta em tratar a temática com doses de um humor satírico que não deixa o tom ficar severo demais. Há violência, sangue e tensão, mas não há um desequilíbrio sequer entre as duas abordagens.

No fim, Peele não resiste e acaba tropeçando um pouco ao perder a confiança no espectador (algo que não ocorreu em Corra!, superior nesse quesito) e sentindo a necessidade de limitar levemente a busca por interpretações ao dar uma “resumida” em seus aspectos mais simbólicos – infelizmente, em um desses malfadados momentos onde um personagem basicamente faz um “deixa eu te explicar direitinho o que está acontecendo aqui...”. Isso não chega a prejudicar tanto o resultado, mas é uma fraqueza impossível de não comparar com seu sucesso anterior.

Ainda assim, o cineasta mostrou que o reconhecimento atribuído a ele não foi dado apenas por um golpe de sorte. Se esse “novo terror”, assim como insistem em chamar, o tem como um de seus principais representantes, certamente estamos em boas mãos.


Deixe sua opinião:)

Mostrar comentários 💬